Edição 120 - Aracaju, 07 de dezembro de 2008 a 04 de janeiro de 2009
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  livros
Detona o próximo como a ti mesmo
O politicamente incorreto de Tibor Fischer

Por André de Leones*

É verdade que o mote de Viagem ao fundo da sala, de Tibor Fischer, não é lá muito animador: o romance é, basicamente, sobre uma designer londrina muito bem sucedida que nunca sai de casa. Partir de uma premissa como essa pode ser um jogo razoavelmente perigoso e repleto de armadilhas. Afinal de contas, nem todo escritor é um mestre como Xavier de Maistre, autor do clássico oitocentista Viagem à roda do meu quarto. Mas Fischer, responsável por romances cáusticos e divertidos como A gangue do pensamento e Adoro morrer, consegue escapar de todas as armadilhas possíveis e imagináveis e torna o enredo não apenas interessante, mas também (e sobretudo) engraçadíssimo.

Atente-se, contudo, para o tipo de humor praticado no decorrer do livro. Politicamente incorretíssimo, o autor ou, melhor dizendo, seus personagens não poupam ninguém. Se há algo em comum entre quase todos esses personagens, é o fato de que eles se esmeram em detonar o próximo sem a menor cerimônia. No mundo imaginado por Fischer, não por acaso muito parecido com o mundo em que vivemos (creio que o nosso é um bocado pior), esta parece ser a regra: detona o próximo como a ti mesmo.

Estruturalmente, não há nada de singular ou original (mas onde haverá algo singular ou original?) no romance. Viagem ao Fundo da Sala é a sua protagonista, Oceane, o cotidiano dela (sempre em casa) e, a partir de um determinado acontecimento, uma sucessão de “causos” narrados por pessoas com quem Oceane topou no decorrer da vida. Essas lembranças são suscitadas por um acontecimento insólito: Oceane recebe uma carta de um ex-namorado que teria falecido há dez anos.

São histórias terrivelmente (às vezes doentiamente) engraçadas, animadas por um senso de humor devastador. Uma pequena amostra (página 76):

Os escravos eram uma ameaça. Só três tiveram permissão para entrar, enquanto estive lá. Raramente faziam algo útil, e ficavam no caminho. Um sujeito que parecia um avô e usava fraldões limpava os banheiros. (…) Talvez eu seja exigente em excesso nesse aspecto, mas não acredito que um vaso sanitário que seja higienizado por uma língua fique realmente limpo. E embora todos nós tenhamos nossos pecadilhos e taras, não sei se quero que uma pessoa desse tipo fique responsável pelo bem-estar da Europa.

Assim, o que poderia ser um livro tedioso, dado o seu ponto de partida, torna-se algo vívido. Mais do que isso, há em suas páginas, ou no acúmulo delas e das histórias que trazem, uma bem construída noção do que se tornou o ser humano. Basicamente, são personagens que se dedicam a ferrar com o próximo e achar esse tipo de coisa não apenas normal, mas também hilariante. Ler Tibor Fischer é uma maneira excelente de olhar ao redor e constatar, com ironia, inteligência e desconsolo, a que ponto chegamos.

Originalmente publicado no jornal O Popular de Goiânia.

*Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e  Paz na terra entre os monstros. Foi um dos selecionados do projeto Amores Expressos. Blog: http://vicentemiguel.wordpress.com E-mail: alleones@gmail.com