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música Um monte de cores e sons e luzes O show do Radiohead em São Paulo Por André de Leones*
É justamente porque eu estava sentindo que eu sabia que estavam lá. Maior do que qualquer outra coisa, ouvi alguém dizer. De repente me tornei música e cores e luzes. Sem apelar para qualquer aditivo químico. O som entra não apenas pelos ouvidos mas por todos os poros e a certa altura é como se tocassem daqui de dentro. Não uma troca, exatamente, mas uma comunhão, e não uma comunhão assentada sobre uma mentira, não a comunhão daquele que se levanta e caminha cabisbaixo até o altar e deixa que coloquem algo em sua boca e depois retorna para o seu lugar e se ajoelha. Não se trata de ficar ali diante do palco absorvendo “ao vivo” canções ouvidas tantas e tantas vezes, mas sim de acompanhar toda e qualquer movimentação no palco como se diante de um ringue, cada mísero detalhe contribuindo para o todo, e o som advindo do palco parece advir de cada um dos espectadores, como se os músicos se alimentassem de nós e não o contrário. Quando, por exemplo, tocaram “Pyramid Song”, uma das canções mais complexas do álbum mais lindamente estranho e “difícil” da banda, uma série de pequenas, invisíveis descargas elétricas jogaram na lona duas ou três leis físicas e eu flutuei. Uma entrega assim só é possível caso haja reciprocidade. E, reitero, é justamente porque eu estava sentindo que eu sabia, tinha certeza de que eles estavam lá. A alma inchada, destroçando o corpo, abraçava a estranheza inerente às canções, à performance, a tudo, e anulava todo o resto. Fincado no chão e, ao mesmo tempo, não. Uma correspondência física, uma resposta do corpo para cada música, e ao final era como se eu tivesse participado de uma maratona (e vencido). Voltar a mim foi, tem sido, complicado. O corpo, exausto, não obedece à mente e a mente (“indaga concerta desune”) vagueia feito a mente de um cronópio. A estranheza instalada em mim. Vou para o outro lado do mundo desaprender a ser eu e me tornar. E me tornar. Estavam lá o André C., o Fernandão e o Aron, mas eu tive de ver o show sozinho. Parece bobagem, e deve ser mesmo, quem se importa?, mas ali pela metade da abdução perpetrada pelo Kraftwerk (algo como “trabalho artesanal”, que eu traduzo como “trabalho manual” e entendo como uma gíria alemã para masturbação, e não estou criticando; quase todo mundo que eu conheço aprecia masturbação) eu me apartei das pessoas e me enfiei na Multidão (com “M” maiúsculo) e passei por tudo sozinho, digo, só eu e a banda. No meio do show, vi prenderem um cara. Ele estava muito muito chapado, mas não sei se falava em matemática ou coisaqueovalha. Eles tocavam “Paranoid Android”, não “Karma Police”. Os policiais e seguranças foram muito educados com o sujeito. Ele foi com eles numa boa, sorrindo. Dois minutos antes, queria matar alguém. Perda de memória recente, talvez. Tipo “Vou te matar! Vou te matar! Vou te mat… Oi, prazer. O show tá legal, né?” E foi assim. Eu vi o show, o show me viu. Depois eu fui embora calado. Sabe como é, pra não estragar o momento. O momento mais arrasador para mim, e isso eu afirmei no primeiro post desta série, foi a execução impecável de “Pyramid Song”. Eu sou desses fãs que gostam cada vez mais dos gêmeos “Kid A” e “Amnesiac” (sorte que não tocaram “Knives Out”, ou eu teria um troço) e, salvo raras exceções, não ouvem mais “Pablo Honey” e “The Bends”. Como disse o Tiago Superoito em um post que eu linkei aqui ontem, os caras entraram numa jornada sem volta. “Pyramid Song” é uma canção tão violentamente estranha e desencontrada que é mesmo inacreditável que eles a toquem para trinta mil pessoas e essas trinta mil pessoas fiquem lá, embasbacadas, hipnotizadas. Eu sei. Eu vi. Eu estava lá. Mas houve também “Paranoid Android”, odisséia estranhíssima com suas variações, um hit radiofônico apocalíptico, sem refrão, sem eira nem beira, e lindíssimo. Então, após eles tocarem “Paranoid Android”, enquanto se acertavam para a música seguinte, o público começou a entoar “Rain down, rain down / Come on rain down on me…”, como se não quisesse deixar a canção ir embora. E Thom Yorke, violão e voz, entrou nessa, e juntos, todos juntos, cantamos “Rain down, rain down / Come on rain down on me / From a great height / From a great height… height/ Rain down, rain down / Come on rain down on me”, e eu realmente penso que momento mais lindo do que esse só quando um filho meu vier ao mundo. Originalmente publicado no blog Coronel Vicente Miguel, 235. Título e subtítulo adaptados pelo BN. *Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e Paz na terra entre os monstros. E-mail: alleones@gmail.com |