Edição 125 - Aracaju, 31 de maio a 28 de junho de 2009
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  ficção
Mar morto
A solidão de Helmut e Helga

Por André de Leones*

Helga não queria se deitar tão cedo. Mesmo cansada da viagem, cogitou caminhar até a Ben Yehuda, sentar-se a uma daquelas mesas no meio do calçadão, pedir um refrigerante, talvez também um falafel, e observar o vaivém de turistas, ortodoxos e músicos de rua. Não, disse Helmut. Há muitos atentados terroristas por lá. Isso talvez fosse verdade há dez ou vinte anos, ela pensou, mas não agora. É seguro, ela insistiu. Amanhã será um longo dia, Helga. Precisamos estar descansados. Vamos dormir, sim? Cinco minutos depois, Helmut já roncava, um som estrondoso diretamente proporcional aos cento e quatro quilos esparramados pelo seu corpo de sessenta e quatro anos. Helga ligou a televisão e desligou todas as luzes do quarto. O noticiário internacional falava sobre uma ameaça de bomba em Nova York. Em uma sinagoga. Todos nós vamos morrer, sussurrou Helga. Em seguida, Obama apareceu na tela. Algo sobre Guantánamo. Helga sorriu ao ver Obama. Quando ele irá a Viena? Por que ele iria a Viena? Ninguém vai a Viena. Olhou para o lado, como que para se certificar de que Helmut estivesse de fato dormindo. Suas pernas tremeram um pouco. Obama falava para uma platéia de estudantes, uma imagem de arquivo. Do tempo da campanha, talvez. Segurava o microfone com a mão esquerda e com a direita apontava para alguma coisa à frente, algo fora de quadro e muito provavelmente incorpóreo, metafórico. Helga levou o indicador da mão direita até a boca e o umedeceu e em seguida acariciou o bico do seio esquerdo por sobre a blusa e arfou, fechando os olhos por dois ou três segundos. Quando os abriu, Obama continuava a discursar. Helga levantou a blusa e acariciou novamente o seio. Roçava uma coxa na outra. Levou a mão até embaixo, por sob a calcinha, fechou os olhos e começou. Não importava quanto barulho fizesse, Helmut jamais acordaria. Nove minutos depois, havia terminado. Seu corpo inteiro tremia. Abriu os olhos e sorriu para o teto. Ajeitou a calcinha e a blusa. Na TV, uma perseguição policial, um carro capotando e o motorista voando para fora e os policiais descendo de seus carros e cercando o corpo desacordado do homem e o espancando. Helga virou para o lado, beijou a testa do marido adormecido, cobriu-se e pensou que Helmut estava certo, a melhor coisa a fazer era mesmo descansar.

Helga não sabia o que era Massada, o que tinha sido, e não estava particularmente interessada em saber. Seria melhor se fossem direto para a praia, mas Helmut comprara um pacote turístico, o ônibus estava à disposição e os guias pareciam assustadoramente animados. O ônibus estava lotado. Casais austríacos, alemães e alguns, poucos, norte-americanos. Em menos de noventa minutos, estariam em Massada. Helga sentiu um arrepio ao ver o Mar Morto pela primeira vez, através da janela do ônibus, uma massa azulada disforme, quieta. Ela respirou fundo e balançou a cabeça tentando afastar a lembrança. Iremos a Israel, dissera a Helmut ainda em Viena, mas quero distância do Mediterrâneo. Você precisa esquecer, Helga. Não, eu não preciso de nada. Eu precisava dele, mas ele. Já são oito anos, Helga. Nove, ela corrigira. Nove anos. A idade que ele tinha. Helga suportou com dignidade as duas horas de tour pelas ruínas de Massada, o discurso abestalhado do guia, o entusiasmo over dos colegas de excursão, o sol, a poeira, as pedras pelo chão. Helmut, por sua vez, parecia se empolgar com tudo. Foi por ali que os romanos entraram, disse apontando para uma rampa enorme feita de terra e pedras. Mas quando chegaram aqui em cima só encontraram corpos. Os judeus preferiram cometer suicídio a se submeter aos romanos. Eles preferiram morrer, entende? Sim, querido, eu entendo. Não é incrível? Sim, querido, é incrível. 

Mais tarde, na praia em En Gedi, boiando nas águas do Mar Morto, Helga se lembrou das palavras de Helmut e pensou, como sempre pensava, e sentiu os olhos arderem ainda mais do que já ardiam por causa da água. Olhou para o sol, enorme, imóvel, como que enraizado em um céu não exatamente azul, mas esbranquiçado. Chamou pelo marido uma, duas, várias vezes. Parado alguns metros atrás dela, junto à praia, os dois pés fincados n’água, Helmut fotografava o nada diante de si, a paisagem marítima adormecida, e não a ouvia.

*Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e  Paz na terra entre os monstros. Vive atualmente em Israel. Blog: Rechavia. E-mail: alleones@gmail.com