Edição 127 - Aracaju, 26 de julho a 23 de agosto de 2009
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  ficção
Weekend
A aparente harmonia
de uma família

Por André de Leones*

O velho foi o primeiro a acordar. Ficou olhando o corpo da moça. Deitada de bruços, ela ressonava tão levemente que era como se ele estivesse sozinho na cama, no quarto. Ele primeiro se sentou na beirada da cama, procurou os chinelos com os pés e os calçou. Fitou a janela aberta e maldisse o calor. Depois caminhou até o banheiro. Estava já debaixo do chuveiro quando ela entrou, sentou-se na privada e urinou, os olhos fechados e metade do rosto escondida pelos cabelos. Como se ainda dormisse. Ele perguntou:

“Você acorda o garoto?”

A moça balançou afirmativamente a cabeça. Em seguida, ela se limpou, deu a descarga e se colocou diante do espelho. Lavou o rosto, escovou os dentes.

“Não vai tomar banho?”, perguntou o velho.

“Não fizemos nada hoje”, ela disse e saiu.

As roupas estavam sobre uma cadeira, junto à janela. Ela primeiro vestiu a camiseta e depois a calcinha e a bermuda jeans. Quando calçava o par de meias, sentada na beira da cama, ele saiu do banheiro completamente nu, água escorrendo por todo o corpo, e parou diante dela, cuja boca ficou a meio centímetro do pênis semiereto.

“Olha o que você está fazendo”, ela disse.

“Olha o que você vai fazer”, ele disse, e ela fez.

O garoto nunca reclamava quando tinha de acordar cedo. Sobretudo se havia algum passeio programado. O velho adentrou o quarto dele e o chamou, a voz não muito alta.

“Cadê ela?”, foi a primeira coisa que o garoto disse.

“Está tomando banho. Ela logo virá te vestir. Eu estou na cozinha. O que você quer comer?”

“Pão.”

“Pão? Mais nada?”

“Leite.”

“Quente ou frio?”

“Frio.”

“O que você quer dentro do pão?”

“Ovo.”

“Vai ter que comer um pedaço de mamão. Ou uma laranja.”

“Tá.”

O velho ligou a cafeteira e dispôs as coisas sobre a mesa: pão de forma, leite, frutas, pratos, talheres, xícaras, copos. Já colocava o café recém-passado sobre a mesa quando o garoto, vestido e penteado, parou junto à porta.

“Quer que eu pegue o seu jornal?”

“Me faz esse favor?”

O garoto fez que sim com a cabeça e saiu correndo em direção à porta da sala. Destrancada e aberta, a porta rangeu como se acordasse naquele momento. O jornal estava sobre o tapete. O garoto observou a foto que ilustrava a primeira página. Alguém de terno, o dedo em riste como se acusasse alguém. Quando voltou à cozinha, a moça e o velho já estavam sentados à mesa. Ainda não comiam. Sentado, ele estendeu o jornal para o velho, que agradeceu. Em seguida, olhou para a moça. Os cabelos dela estavam um pouco molhados e penteados para trás.

“Eu gosto do seu cabelo assim”, disse para ela.

Como se agradecesse, ela encheu um copo com leite e colocou à frente dele.

“Os ovos acabaram. Você vai ter de se virar com essa maionese aí”, avisou o velho.

O garoto sorriu como se dissesse: não me importo. Com a faca de mesa, cortou o pão ao meio e o besuntou de maionese.

“Quanto tempo a gente leva pra chegar lá?”, a moça perguntou.

“Uma hora e meia, no máximo”, respondeu o velho sem desviar a atenção do jornal.

“Você precisa comer”, ela disse.

“Esse café já chega.”

“Depois não reclame que o estômago está doendo.”

“Combinado. Não vou reclamar.”

“Mesmo se estiver doendo?”, perguntou o garoto. O velho não disse nada.

Viajavam com todos os vidros abertos. O velho gostava de correr e a moça não se importava com isso. Sozinho no banco traseiro, o garoto tentava folhear uma revista em quadrinhos. Queria dizer ao velho que estava com vontade de ir ao banheiro, mas tinha certeza de que não o ouviriam. O vento forte parecia falar com eles, e falar bem alto. Para sobrepor a sua voz pequena à do vento, teria de gritar. Ele não queria, não gostava de gritar. Lembrou-se de o velho dizendo que a viagem não seria longa. Sentiu que poderia esperar.

A certa altura, o velho fechou os vidros e ligou o som. Uma melodia muito tranquila preencheu o carro da mesma forma como, até pouco antes, o vento o preenchia, mas sem aquela violência. O garoto encostou a cabeça na janela e ficou olhando para cima. Ele pensou que, de alguma forma, saberia que tinham chegado ao mar se ficasse ali, olhando para o céu. Como se um refletisse o outro.

“Não disse para você? Ninguém”, disse o velho para a moça, apontando para a enorme faixa de areia completamente deserta. O mar intranquilo diante deles como que rugia: não admito visitas. Mas eles não iriam embora.

A moça estendeu uma enorme toalha de mesa sobre a areia e, ao redor, três toalhas menores, de banho. Sobre a toalha maior, colocou a cesta de piquenique e a caixa de isopor. O garoto corria descalço bem próximo à água. Parado a meia distância entre ele e a moça, o velho olhava fixo para o mar revolto.

“Como é que você ficou sabendo desse lugar?”, ela perguntou.

Ele respondeu sem se virar para ela:

“Passei de carro por aqui outro dia. Resolvi parar e dar um tempo. Não apareceu ninguém.”

“Você sabe por quê?”

“Por que o quê?”

“Por que não aparece ninguém por aqui?”

“Bem, aparecemos nós.”

“Você me entendeu.”

“As pessoas gostam de ficar alguns quilômetros adiante, seguindo pela rodovia. Parece que lá o mar é mais calmo.”

“Não é o mesmo mar?”

Ele finalmente se virou para ela, sorrindo, mas não disse nada. Aproximou-se, caminhando com dificuldade pela areia.

“O que você trouxe?”

“Pão, suco, cerveja, presunto, frutas.”

“Vou ao carro buscar as minhas coisas”, ele disse.

Estacionara o carro a alguns metros da rodovia, quase na areia. A arma estava no porta-luvas. Pegou um pano e uma toalha de rosto, que também estavam dentro do porta-luvas, e um litro de uísque que guardara sob o banco do motorista. Sentado ali, ligou o som por um momento. Ficou olhando para a arma. Uma sonata ao piano, não soube identificar qual e muito menos de quem. Limpou a arma cuidadosamente com o pano. Depois, devolveu o pano ao porta-luvas e desligou o som.

A moça e o garoto estavam sentados ao redor da toalha maior. Ele comia uma maçã e olhava para o mar. Ela lia um livro. O velho sentou entre os dois.

“Quer um pouco?”, perguntou a ela.

“Quero, sim.”

Pegou dois copos descartáveis da cesta de piquenique e serviu doses generosas.

“Não quero gelo”, ela disse.

“Nem eu.”

Brindaram com cuidado e sorriram um para o outro. O velho deu um gole pequeno e perguntou ao garoto:

“Quer um pouco de suco?”

O garoto negou com a cabeça, sem desviar os olhos do mar.

“Daqui a pouco, se você quiser, eu entro na água com você”, ela disse. “Você não pode entrar sozinho. O mar aqui é muito agitado.”

O velho colocara a arma e a toalha de rosto sobre o colo. A moça fingia não ver aquelas coisas ali. Bebeu o uísque rapidamente, jogou o livro sobre a toalha e chamou o garoto. Enquanto ele corria em direção à água, ela tirou toda a roupa e gritou para que ele fizesse o mesmo. O garoto parou no meio do caminho e se despiu. A moça se abaixou e beijou o velho na testa. Em seguida, disse, apontando para a garrafa de uísque:

“Deixa um pouco para mim.”

Ele sorriu. Ela caminhou lentamente na direção do garoto, que a esperava, ansioso. O velho a observou estender a mão esquerda para o garoto, que a segurou e então eles seguiram juntos para dentro da água. O mar os abraçou com violência e quase derrubou o garoto, mas ela o segurou. Eles riram. O velho levantou o braço e acenou. O garoto acenou de volta e, em seguida, o mar voltou a abraçá-los com uma violência ainda maior.

*Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e  Paz na terra entre os monstros. Vive atualmente em Israel. Blog: Rechavia. E-mail: alleones@gmail.com