Edição 129 - Aracaju, 27 de setembro a 25 de outubro de 2009
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  memória
No direction home
Apontamentos para uma biografia resumida

Por André de Leones*

Ainda meio febril, fico vagabundeando memória afora. Acima, Giotto. Abaixo, algo da minha deseducação religiosa. Adentro, uma certa dor, pequena.

No colégio, as freiras faziam de tudo para que a gente se sentisse culpado porque Jesus se matou para redimir o nosso couro. Mas elas não diziam: “Jesus se matou”. Elas diziam: “Jesus se sacrificou”. Whatever. Eu sofri um bocado por causa disso.

Eu estava lá cuidando de levar a minha vidinha da pior maneira possível e de repente era obrigado a arcar com toda aquela culpa.

Ficava olhando para as pinturas retratando a Via Dolorosa nos vitrais da capela do colégio e o coração pesava. Era um troço mais pesado do que a joça do Pecado Original. Mais diabólico, também.

A idéia de alguém torturado e morto se inscrevendo desde cedo no meu imaginário. Mais do que a idéia, pior do que a idéia: as imagens.

E eu era culpado. Todos éramos. Até mesmo a menina pobre e mal vestida sentada a um canto da sala de aula. Sempre calada, sozinha. Isolada. Diziam dela: “Cheira mal”. E: “Mora no meio do mato, feito um bicho”. Mais: “Não tem pai nem mãe”. Mesmo ela. Talvez por isso nunca abrisse a boca. Para sempre muda. A culpa lhe arrancara a língua. Feito um bicho, sem pai nem mãe. Ela também era culpada.

O argumento óbvio que me ocorria era: “Irmã, eu não pedi que Ele fizesse isso”. Claro que a questão não era essa. Eu nem sabia o que estava dizendo. Mas valia qualquer coisa para tirar o meu da reta. Para ter um pouco de sossego.

Eu era muito impressionável.

Havia também as procissões. Durante toda a Semana Santa, as pessoas caminhando pelas ruas mal iluminadas. Com velas acesas, seguindo as imagens carregadas por alguns e rezando. Também encenavam o martírio, mas não havia sequer um tanto de sangue falso.

Havia os botecos fechados. A cidade desmaiada ao redor. Os passos ecoando pelas ruas empoeiradas. Um certo tédio se insinuando nas janelas entreabertas.

Em casa, meu pai abaixava o volume da televisão.

Insisto nesta doença. Brueghel me acompanha.

No centro espírita kardecista a que meus pais me levavam aos domingos, todos os domingos, a coisa não era mais fácil. Toda a conversa “filosófica” e “científica” sobre a(s) existência(s) e o(s) mundo(s). “Filosoficamente” falando. “Cientificamente” falando. É irrefutável. Provas empíricas (reuniões mediúnicas às quartas, se me lembro bem).

Eu era muito impressionável. Tudo me chocava.

A idéia de um Deus enquanto “inteligência suprema” e “causa primeira de todas as coisas” me chocava. A idéia de que não existe acaso, de que tudo tem uma razão de ser. Por que algo como xipófagos teria razão de ser? Ou o Holocausto?

Terrível a idéia de que tudo tem uma explicação, de que não existe acaso, de que nada é gratuito e absurdo. Terrível e estúpida.

E, no âmbito de uma religião (e “ciência” e “filosofia”) tão “progressista”, as tais explicações esbarravam, aqui e ali, na reiteração de preconceitos. Homossexualismo, por exemplo (me explicaram), é uma coisa assim “não natural” que acontece porque um espírito reencarnou muitas vezes com um determinado sexo e, de repente (ok, não tão de repente assim), reencarna com outro sexo e não consegue segurar a onda.

Graças a esse tipo de coisa, passei e ver Deus, quando muito, como a causa última de todas as coisas. Algo como o fim da picada.

De um certo modo, operavam também pela culpa. Havia uma analogia que faziam em sala de aula. Sim, porque os jovens ficavam confinados em salas de aula, à mercê dos tais orientadores.

Um mergulhador, devidamente paramentado com um escafandro (traje de mergulho não era uma expressão suficientemente afetada para eles), tinha como missão recolher algumas coisinhas no fundo do mar (não me lembro o que eram essas coisinhas). Em função da quantidade de oxigênio de que dispunha, ele tinha um tempo limitado para cumprir a missão. O problema, explicava o orientador, era quando o mergulhador se distraía  com o que via debaixo d’água, tudo muito bonito e coisa e tal, e deixava de recolher as tais coisinhas, isto é, não cumpria a missão.

Entenderam? O mergulhador éramos nós. O mergulho, uma existência (ou “encarnação”). Estaríamos cumprindo com o que fora programado? Sim, porque nós temos algumas tarefas para cumprir enquanto encarnados.

Nada demais.

Tratar bem um filho da puta que trucidou a sua família inteira à época do Império, por exemplo. Normalmente, as pessoas não se lembram de suas vidas passadas, mas aquela antipatia natural que você sente por determinada pessoa tem razão de ser. Você foi estuprada e roubada em Viena, no final do século XIX. E agora reencarnou como irmã do malfeitor a fim de, sabe como é, perdoar e superar essa coisa toda e continuar evoluindo e coisa e tal. Sim, porque tudo tem uma razão de ser e todos evoluimos, por bem ou por mal.

Tudo é muito lógico, e o acaso não existe.

Eu ia para casa preocupado. Estaria cumprindo com o programado? Ou, impressionado com os arredores, perdia o meu tempo contemplando a paisagem?

Eu estava fodido. Era uma má pessoa segundo as freiras e era uma má pessoa segundo os kardecistas. Independentemente de quem estivesse certo, eu estava fodido.

As histórias me aterrorizavam. E os romances espíritas, pessimamente escritos, aquela prosa afetada, gordurosa, desritmada, frouxa, mais pareciam romances de terror.

O sujeito, um sujeito bom, pai de família, sofria um acidente e ficava paralítico. Tudo parecia muito injusto. Um homem bom, cumpridor de seus deveres, bom pai, bom marido, bom vizinho, bom profissional. Então, ele sonha. Gritos horrendos. No que parece ser um porão, um amontoado de negros estirados, as pernas arrancadas. Alguém rindo escada acima. Claro, era ele. Senhor de escravos rindo da punição infligida a um punhado de negros fugidos. Lei de Causa e Efeito, explicavam.

Não se revoltar, portanto, com o que de pior me acontecesse. De uma forma ou de outra, tudo é merecido. Pelo que fiz nesta ou em outras vidas.

Eu ia para casa muito preocupado. Estava fodido, de um jeito ou de outro, sendo o inferno aqui ou alhures. Mais provável que fosse aqui mesmo. Aqui dentro, bem entendido.

O peito descongestionando. Giotto outra vez.

O colégio era enorme e com o passar dos anos foi encolhendo. Chegou a caber dentro de um livro. Hoje, existe apenas nessas lembranças, todas muito ruins.

O centro espírita também encolheu. Os orientadores se revelando ainda mais humanos do que as freiras.

Então, era assim: de segunda a sexta eu era esmagado pela culpa católica, e aos domingos era ridicularizado pela minha “involução”, pela minha pequenez, pelo modo como supostamente eu desperdiçava esta minha encarnação e desviava os olhos diante das provas irrefutáveis que nos eram apresentadas.

Filmes, por exemplo. Em que um filme como “Touro Indomável”, sem “uma boa mensagem assim clara”, poderia contribuir para o nosso avanço espiritual? Víamos “Ghost” e “Além da Eternidade”. Filmes como “Touro Indomável”, nos quais “o estado de nossa miséria é preciso” (Godard, “Nossa Música”), não interessava aos propósitos kardecistas de evangelização. Em outras palavras: o ser humano enquanto tal, animalesco e estúpido, não interessava aos propósitos kardecistas de evangelização.

Justamente o que me interessava e continua me interessando: o ser humano enquanto tal.

Hoje, eu creio na Genética. Não é irônico que Mendel tenha sido um padre?

Mas talvez fosse melhor pensar em outros cantos da infância.

A infância, ou parte dela, foi um quintal enorme, dividido em dois por um muro de adobe caindo aos pedaços. O segundo quintal era muito grande e muito escuro. Perdia-se o casarão de vista após alguns metros, escondido pelas árvores. Era quase um outro mundo.

Agora, é de fato um outro mundo.

O casarão e o quintal como pesadelos diferentes, acomodados no pesadelo maior: a minha infância.

*Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e  Paz na terra entre os monstros. Vive atualmente em Israel. Blog: Rechavia. E-mail: alleones@gmail.com