|
|
|
|
|
ficção A inutilidade Nada a fazer por Marcela Por André de Leones*
A sala de espera era branca como quase tudo naquele enorme útero albino de paredes movediças por onde ecoavam campainhas telefônicas distantes como choros vindos de uma maternidade remota, o arrastar de chinelos pelos corredores, o ranger de portas e os urros de eventuais recém-chegados. Estava escrito lá embaixo, na entrada, em algum lugar, mas todos entravam se debatendo, aos berros, ou intranquilamente desacordados, estava escrito: clínica de repouso e reabilitação. Marcela entrou gritando e se debatendo, uma ofensa à presumível placidez do lugar, que tratou logo de jogar o teto e as paredes sobre ela até que ela finalmente parasse de gritar e de se debater. Na cama, arregalada, via paredes e teto se aproximando, o ensaio de um possível esmagamento. Mas, não muito tempo depois, outra, dócil, foi desamarrada. Dizendo a eles o que queriam ouvir. Coisas bonitas. Coisas boas. Dizer coisas boas. Pensar coisas boas. Uma boa pessoa. Eles, médicos e enfermeiros e o próprio lugar, eles queriam ver sorrisos, quietude. Eles queriam vê-la curada. E ela fingia estar ocupada, fingia estar cuidando disso, fazendo o melhor, no que estava, de fato, ocupada, cuidando disso, fazendo o melhor. Na sala de espera (que eles chamavam de “sala de estar”), sentados em sofás ou poltronas, os pacientes não diziam palavra e não se entreolhavam, perfeitos estranhos, sistemas isolados, uma dúzia de bonecos de carne e osso, emburrados, metidos em batas de um azul bem claro, limpos e escovados para o jantar que em poucos minutos seria servido no refeitório ao lado; uma dúzia de bonecos adolescentes e jovens adultos, os fodidos da cabeça, conforme ouviram tantas e tantas vezes lá fora, no mundo. Não se falavam, mas cada um sabia de si e dos outros, filhos de gente endinheirada, metidos ali na primeira das últimas chances que teriam. Outrora raivosos, agora se arrastavam pelos corredores, bovinos, progressos e promessas, bebês de ouro puro (em polimento). Desintoxicados, a expressão abobalhada de quem esteve fora por um bom tempo e foi trazido de volta. Os papais e mamães, pensavam, estavam certos a respeito deles: fodidos. Uma vez desintoxicados (ou algo próximo disso), e quando era o caso, eram empurrados à “reintegração social” e à “terapia ocupacional” e deixavam de comer em seus respectivos quartos. Em seus quartos, quando tinham por companhia apenas o olho eletrônico a observá-los do teto e o som por um tempo nauseantemente orgânico de suas mandíbulas, nacos de coisas sendo mastigados e engolidos, talvez os pedaços deles mesmos que deixavam escorrer nas sessões diárias e obrigatórias de análise para depois serem cozidos (ou não) e servidos, desjejum almoço jantar. Oficinas de cerâmica, sessões de cinema (filmes supostamente edificantes, tipo Além da Eternidade, tipo Patch Adams), terapias de grupo, terapias individuais, dinâmicas, atividades, trabalhe sua raiva, acorde para a vida, alteridade, empatia, o mundo lá fora, as coisas boas dentro de você que você nem sabe que tem, desenterre-as, traga-as para fora, traga-as para a vida, venha para a vida. A “sala de estar” era uma sala de espera. Mas todos os cômodos da clínica eram salas de espera. Diante deles, uma pequena mesa de centro e, sobre ela, revistas intocadas, jamais lidas ou sequer folheadas por ninguém. Era como se não tivessem mais olhos para tanto. Oprimidos pelo branco onipresente, a clínica como o núcleo de uma estrela que se exauria, ouviam os próprios estômagos virando e revirando e sentiam os corpos como se prestes a desfalecer de uma vez por todas. Suas testas apontavam para o chão. Uma estrela engolindo a si mesma, e eles ali no meio, igualmente autofágicos. O sentido de tudo era: o álcool e a droga me comiam e agora eu me devoro no lugar do álcool e da droga. A extinção ou a sensação de extinção pesava sobre tudo e sobre todos ali, de tal forma que o conceito ou a idéia de uma sala de espera ganhava uma ressonância pesada. Na melhor das hipóteses, sairiam “limpos” dali, o que, por outro lado (Marcela pensava), queria dizer: mais quebrados do que ao entrar. Ela gostava de ficar no quarto, os dias entre a chegada e ser considerada apta para a “ressocialização”. Ocupar a cabeça, diziam. Mas isso (“ressocialização”) não tinha nada a ver com ocupar a cabeça. A cabeça ela ocupava no quarto, perdida em algum ponto entre o on e o off, entre estar ligada e desligada: ela vivia em stand by. Livros não eram permitidos. Ou melhor: livros, sim, mas não literatura. Por quê?, ela perguntou a alguém certa vez. Não obteve resposta. Agora, na sala de espera com os outros, egressos da oficina de cerâmica, a poucos dias de receber alta, de ser considerada “pronta” (“mudada”, diziam para ela), olhava para si e reconhecia: a mesma coisa. Os outros eram todos iguais, e ela era igual aos outros. Os outros (e ela), que, nas terapias de grupo, contavam suas histórias e, ao fazê-lo, usavam de um distanciamento maníaco, como se aquelas histórias não lhes pertencessem, não fossem deles, não tivessem absolutamente nada a ver com eles e eles não passassem de maus atores encenando (ou tentando encenar) histórias alheias, furtadas de outrem. Terminada a terapia, não se falavam mais, não conversavam. A encenação terminara, não havia motivo para ninguém ali continuar interpretando. Caminhavam pelos corredores em silêncio e sentavam-se todos ali, lado a lado, uns diante dos outros, e não se falavam, não se observavam, nada. Bonecos, só carne e ossos, à espera do jantar, e nada mais. Não se falavam, não se entreolhavam, não se mediam, não se buscavam, mas. Alguém olhava para Marcela. Alguém que não olhava para o chão como os demais. Alguém que preferia, sim, estava olhando para Marcela. Os olhos de outrem. Os olhos de outra pessoa direcionados para ela. Talvez estivesse se vendo. Sim: uma garota olhava para ela como se não se visse há muito tempo. Afundada no sofá em sua ressaca eternizada dia após dia após dia, Marcela não levantou a cabeça. Mas a garota a encarava. Ela sabia disso. Ela sentia isso. Mesmo sem levantar a cabeça, os olhos, era como se a visse olhando para ela, encarando-a. Por quê? Ela finalmente levantou a cabeça. Enquanto levantava a cabeça, pensava que talvez não houvesse ninguém ali, que talvez não houvesse ninguém olhando para ela, que talvez o sofá à sua frente estivesse vazio, que talvez não. Não. Uma garota. Sorrindo para ela. Uma garota. Talvez uma recém-chegada, não, certamente uma recém-chegada: as olheiras fundas dos recém-chegados, dos ainda inadaptados. Mas: sorria. Recém-chegados não sorriem. Quem ela pensa que é? Quem ela pensa que. “Marcela”, disse a garota. Eu sou? Marcela, ela disse. Ela falou. Mas recém-chegados não falam. E, no entanto: Marcela, ela disse. Sentada no outro sofá, entre elas as pequenas pilhas de revistas intocadas sobre a mesa de centro. “Você é Marcela, não é?”, insistiu. “A escritora.” Ali, as palavras não tinham peso. Pior que isso: sem utilidade. “Não”, ela respondeu. Não foi a sua resposta. Outra palavra sem peso. Outra palavra inútil. E o sorriso da garota desapareceu. E os olhos da garota desapareceram, escorregaram para dentro da cabeça dela. Não: uma mísera palavra, sem peso como qualquer outra. Inútil como qualquer outra. Alguém avisou que o jantar estava servido. *** “Como está se sentindo hoje?”, foi a primeira coisa que o médico perguntou a Marcela na manhã seguinte. O dia lá fora, Marcela via pela janela acima da cabeça do médico, estava nublado. Ventava muito. Chuva forte a caminho, talvez. Ruas alagadas, galhos de árvores caindo sobre os carros, crianças se escondendo debaixo das camas, com medo dos trovões, falta de energia. “Normal”, ela respondeu. “Pensando em... criar alguma coisa?” “Você quer dizer... escrever?” “Sim. Você ainda é uma escritora. Não é?” A escritora. Uma escritora. Algo assim. Ainda um certo fascínio por essa coisa. Mas sempre perguntavam depois: E o que você escreve? O médico sabia o que Marcela escrevia. Certamente leu o livro dela. Concluiu coisas a partir da leitura. Ela ainda era uma escritora. Não era? “Minha autobiografia.” O médico sorriu. Sabia que ela estava de sacanagem. Mas ela própria não sabia se estava de sacanagem. Ele sorriu: os dentes enfileirados, um pequeno exército branco. Limpos, perfeitos. Feito as paredes daquele lugar. Eles se moviam, também. Abriam e fechavam, avançavam e recuavam. Feito as paredes daquele lugar. “Você ainda não completou trinta anos. Não acha um pouco cedo para uma autobiografia?” “Talvez. Inovar, sabe qual é?” O médico suspirou: “Entendo”. Ele disse que entendia. Entrando no jogo. Ou era Marcela quem estava completamente por fora. Sempre o tom de quem não estava ali para julgar ninguém. Doente ou algo próximo disso. Fodida da cabeça. Você tem todo esse seu potencial, ele disse na primeira sessão. Livro escrito e publicado, algum reconhecimento. É sempre um convencimento, ou uma tentativa de. Algo como: vale a pena. A vida e coisa e tal. Coisas para se fazer por aí quando você se sentir viva. Para você se sentir viva. Sentir-se viva. O que eles entendiam por vida. Um jogo, sempre um jogo de mútua enganação, de mútua empulhação. E, no final, ninguém dobrava ninguém. Mas todos fingiam que sim. Ora, é claro que sim. Personagens de Buñuel caminhando a esmo por uma estrada deserta. O médico abriu uma gaveta e dela tirou duas balas. Colocou uma sobre a mesa e empurrou na direção de Marcela. O som da bala sendo empurrada por sobre o tampo da mesa não se parecia com nada que ela já tivesse ouvido. Agradeceu e guardou a bala no bolso da camisa: “Pra depois.” Ela seria liberada em alguns dias. Não havia mais nada que pudessem fazer por ela. Desintoxicada. Não estava quebrando coisas. Era ativa, aparentemente interessada nas tarefas. Iam sentir saudades. “Tinha uma novata junto com a minha turma do jantar.” “Sim.” “Uma garota de uns vinte anos, magrinha, bonita. Ela ficou me olhando. Ficou me encarando um tempão.” “Isso te incomodou?” “Um pouco. As pessoas aqui não costumam ficar encarando, né?” “O que você fez?” “Ela falou comigo. Mas... eu não fui muito legal, não.” “O que você fez?” “Eu fui grossa.” “Grossa como?” “Parece que ela me reconheceu. Parece, não. Ela me perguntou se eu era ‘Marcela, a escritora’. Perguntou daquele jeito de quem já sabe, entende? Tipo, é lógico que ela sabia que eu era eu e só estava querendo mesmo puxar conversa, como você disse. Mas aí eu disse que não.” “Não o quê?” “Que não era eu. Que eu não era ‘Marcela, a escritora’. “Por que fez isso?” Olhou por sobre a cabeça dele. Um instentezinho de nada. Os livros intocados na estante atrás dele. Limpos e intocados. As capas brancas como os dentes dela. Não era uma estante. Era uma boca enorme. Dia desses, ele seria abocanhado e mastigado e engolido e digerido. “Eu não sei.” Não era uma estante. Era uma boca enorme. “Ela ficou me olhando um tempão, sabe? Acho que isso me irritou e tudo.” Um dia desses, ele seria abocanhado e mastigado e engolido e digerido. “Mas, caramba... depois eu me senti mal com a coisa toda. Acho que... sei lá... acho que preciso pedir desculpas pra ela.” Do meio do rosto barbeado dele, irrompeu um sorriso. Assim, do nada. Num momento, não havia nada ali. No momento seguinte, o que era aquilo? “É a melhor coisa a fazer.” Sempre que ele sorria, ela tinha impressão de sentir o gosto, não o cheiro, mas o gosto da loção de barbear que ele usava. “Aliás...” “Sim?” Você precisa fazer alguma coisa, garota. Tomar uma atitude, demonstrar empatia. “Eu quero fazer isso agora.” “Agora? Aqui?” “É. Tem como?” “Mas...” “Você pede pra alguém chamar a garota aqui e eu peço desculpas. Tem como fazer isso?” Animado com a idéia. Isso por certo contaria pontos. Ele pegou o telefone, sorrindo, intrigado, e pediu que trouxessem a tal paciente. Depois, perguntou a Marcela: “Ela ficou tão ofendida assim com você?” “Não sei. Acho que sim. Qual é o nome dela?” “Nathalie.” Consertar as coisas. Ela só queria papear um pouco. Ninguém papeava naquele lugar. Duas batidas na porta. O doutor pediu que entrasse. Nathalie entrou. O médico pediu que ela fechasse a porta. Nathalie fechou a porta atrás de si e permaneceu parada. Pequena. Magra, os cabelos curtos. Alguns fios azuis. Evitava olhar para Marcela. “Sente-se aqui”, disse o médico, apontando para uma cadeira vizinha à de Marcela. Ela obedeceu. “Como você está hoje, Nathalie?” Olhando para o chão, a voz pastosa, ela respondeu que: “Melhor.” “Marcela pediu que eu lhe chamasse aqui. Ela quer lhe dizer uma coisa.” Nathalie permaneceu olhando para as próprias mãos, pousadas sobre as coxas. Marcela, sim, olhava fixamente para ela. Olheiras fundas. No pulso esquerdo, o curativo. Tão previsíveis, eu e você. “Eu quero... te pedir desculpas. Ontem, eu... fui grossa contigo.” De cabeça baixa, Nathalie sorriu. Um sorriso que surgiu aos poucos e foi aumentando. Marcela e o médico, vendo aquilo, também sorriram. Tudo parecia bem. Então, Nathalie levantou a cabeça bem lentamente, encarou primeiro o médico e, em seguida, Marcela. O sorriso tinha desaparecido, e era como se nunca tivesse estado ali. *Escritor, autor dos livros Hoje está um dia morto e Paz na terra entre os monstros. Vive atualmente em Israel. Blog: Rechavia. E-mail: alleones@gmail.com |