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ficção Felizesjuntos Casais e suas estranhas relações
Por
André de Leones*
À histeria. Um. Estavam se beijando, ela como que presa ao banco do passageiro e o corpo dele semipronunciado por sobre o dela. Ele a buscava na mesma medida em que ela, não se mexendo, impunha distância. Não havia correspondência ou harmonia. Eles não passariam daquilo. Com a mão esquerda acariciava o rosto dela. Depois a orelha direita. Depois o pescoço. Não demorou nada para que ela o afastasse e, dedo em riste, tratasse de informá-lo de que iria embora para nunca mais se ele tentasse passar a mão nos peitos dela com aquele troço nojento cheio de dedos com unhas mal cortadas, arrematando: “Você está me entendendo, Márcio?” Na verdade, o que ele tentava fazer era algo mais do que passar a mão nos peitos dela com aquele troço nojento cheio de dedos. Ele queria envolver e acariciar e sentir um seio dela por sobre a roupa, e, depois, se ele deixasse, se ela não se importasse, descobri-lo com cuidado e olhar bem para ele e envolvê-lo e acariciá-lo e senti-lo como se deve, talvez até mesmo beijá-lo. “A gente sabe o que está e o que não está fazendo aqui, não sabe? Você tem pelo menos noção do que a gente está e não está fazendo aqui, não tem?” A ideia. A maldita ideia. Envolver, com todo o cuidado. Só isso. Com todo o cuidado. E ele sabia muito bem o que eles estavam e o que eles não estavam fazendo ali. Não era nada, ou era muito pouco. Não estavam fazendo nada demais. Desaparecê-lo na palma da mão e, por um momento, acreditar que eles estavam sob uma mesma pele, eram uma pele só. Algo do tipo. Nada de ruim. Pelo contrário. Continuariam bem. Terminariam bem. Para ela, eles estavam ou deveriam estar pura e simplesmente na Paz do Senhor, e não no carro dele tendo esse tipo de conversa, inteiramente vestidos, o carro estacionado junto ao meio-fio diante da casa dela porque a mãe confiava cegamente neles dois. A rua era muito bem iluminada e, em tese, eles estavam ali curtindo o pós-culto na Paz do Senhor, isto é, ouvindo música abençoada a uma altura razoável e falando sobre coisas elevadas, como: “A gente vai casar no ano que vem. Segura a sua onda”. Era um jogo. Sempre fora. Entre eles e entre todos os casais de amigos com os quais conviviam e com os quais viajavam para os retiros e encontros de jovens e carnavais evangélicos e grupos de aconselhamento para jovens casais. Um jogo, uma sequência de ações e inações, permissões e proibições que acabavam por constituir uma espécie de liturgia: uma vez que a região pubiana dele ficava como sempre prestes a explodir e a tesão dela aumentava à medida em que o repudiava e censurava e ameaçava, eles se viam nessa espécie muito particular de liturgia que, salvo acidentes, iria se prolongar até o casamento, quem sabe por mais algum tempo. Depois de afastá-lo e esperar que a respiração dele começasse a voltar ao normal, ela como sempre engatou uma conversa suja a respeito de alguém próximo. “Ela está chupando o pau dele. O pau daquele namorado estrangeiro dela.” "Ele não é estrangeiro, Carol.” “Ele não é da cidade. Ele nem é da porcaria do estado. Mas isso não interessa. O que interessa é que ela está chupando o pau dele. Chupando com gosto. Todos os dias. Sem parar. Feito louca.” Falou isso olhando para frente, ofegando, a rua a perder de vista, os postes com as luzes acesas a uma distância regular e sonolenta um do outro até onde a vista alcançava, e ela não enxergava o fim da rua, comprida, interminável, distanciando-se na noite como se estivesse viva e se movesse e se expandisse, e eles dois ali parados dentro do carro, o carro parado dentro da rua, a rua iluminada se movendo no escuro. “Chupando o pau dele”, ela repetiu e ele pensou que aqueles termos, muito utilizados por ela quando sozinhos, e somente quando sozinhos, eram no mínimo inconvenientes; também achava contraditório que ela se expressasse daquela forma e agisse de outra, como se tais coisas coubessem em sua boca de uma forma e não coubessem de outra. “Você viu?” “Não. É claro que eu não vi.” “Como é que você sabe, então?” “Sabendo. Ela é a minha irmã, porra.” “Ela te contou.” “Mais ou menos. Que diferença faz como eu fiquei sabendo? Importa que eu sei.” “Ele não é da igreja. Ele nem é daqui. E eles se conheceram há pouco tempo. Não foi?” “Foi”, ela disse. Estava séria. “Então. Ele não é da igreja.” “Mas ela é. A questão é o que ela está fazendo com um cara que não é da igreja. O que ela tem na cabeça? Sempre foi uma imbecil com essas coisas. Não tem mais postura, mais nada. Totalmente perdida.” Ele encolheu os ombros. Também olhava adiante, a rua desaparecendo na rua e no escuro fora dela. Sorriu depois de um tempo. Ela se virou, ainda mais séria do que antes. “Eu. Não. Vou. Chupar. O. Seu. Pau.” “Eu sei, Carol.” “Falando sério aqui. Não vou mesmo.” “Você já disse isso.” “Eu não vou mesmo.” “Você já deixou isso bem claro.” “Você já leu alguma passagem da Bíblia com Deus mandando a mulher chupar o pau do homem?” Ele pensou um pouco. “Não. Acho que não.” “Não, querido.” “É. Acho que não.” “Não mesmo.” “Eu ia me lembrar se tivesse lido algo do tipo por lá. Eu com certeza ia me lembrar.” Ela voltou a olhar para frente. Respirou fundo. Cinco anos mais velha do que ele. Vinte e três a dezoito. Era como se estivesse sozinha no carro. Ele não estava ali com ela. Ele era a porcaria de uma sombra, feito as sombras desmaiadas dos postes descendo a rua. Falou como que para as sombras lá fora: “E agora eles vão morar juntos.” Não sabia disso. Ficou surpreso que fossem tão longe. Estivessem dispostos a tanto. Alguém de fora e a irmã dela. O cara simplesmente veio. E agora eles iam morar juntos. Como assim? O que eles estavam pensando? Seria assim tão fácil? Não é possível que fosse assim tão fácil. “Eles vão se casar?” “Não. Eles não vão se casar. Eles vão morar juntos, mas não vão se casar.” “Caramba.” “Minha mãe está morrendo com essa merda toda.” “Ela nem foi à igreja hoje, foi?” “Aqueles dois vão acabar matando todo mundo com essa merda toda.” “Nossa. Sua mãe nem foi à igreja hoje.” “Ela está de cama. Nada bem, mas nada bem mesmo. Chora o dia todo e depois grita com quem estiver perto. Totalmente perturbada. Totalmente. Totalmente.” “Perturbada”, ele repetiu. Ficaram um bom tempo calados, olhando fixo na mesma direção. Para frente. Ele deixou de pensar na irmã dela com o sujeito e pensou neles dois. Peças soltas. Toda aquela liturgia. Olhou para ela como se esperasse ver alguma coisa. Não via nada. Eles dois e todos os casais que conheciam da igreja. Havia quem fizesse alguma coisa e havia quem sequer conversasse a respeito. Ela conversava a respeito, mas não fazia nada. Não havia nada que quisesse fazer. Na Paz do Senhor ou fora dela. De repente, era como se estivesse sozinho no carro. Fechou os olhos. Não ouvia sequer a respiração dela. Estaria viva? Sozinho ali. Da pior maneira possível. Colocou a mão direita sobre o púbis. O pau ainda duro. Antes Deus tivesse ordenado a Eva que. Enfim, qual seria a diferença? Começou a dizer: “Eu...”. “Matando todo mundo”, ela interroumpeu, como se adivinhasse. “Todo mundo.” “Eu estava pensando”, ele tentou outra vez. “Que bom que meu pai não está mais aqui. Ele não merecia passar por isso. Ninguém merece. Nem eu, nem minha mãe. Mas que bom que meu pai não está mais aqui. Que bom. De verdade. Sério. Que bom.” “Eu estava pensando”, ele insistiu. “A filha favorita dele juntando os trapos com a porcaria de um ateu. Chupando o pau dele. O pau de um ateu.” “Eu est.” “Porque é isso que ele é: um ateu. Não é católico nem espírita nem porcaria nenhuma. Nada. Um ateu.” “Estava.” “Meu pai ia morrer só de pensar uma coisa dessas.” “Pensando, sabe?” Ela se virou para ele, nervosa. Como se fosse esbofeteá-lo. Mas nunca o vira tão sério. O volume ainda perceptível dentro das calças, mas o rosto seriíssimo, como se o rosto fosse de uma pessoa e a região pubiana, de outra. “Pensando no quê?”, quase gritou. A voz dele veio clara, decidida: “Acho melhor a gente terminar”. |