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artigo Os outros do asfalto As comunidades abrigam diversas hierarquias sociais
Por Armindo dos Santos de Sousa Teodósio*
A Antropologia consagrou a noção de alteridade, a mudança de perspectiva compreensiva em direção ao entendimento da racionalidade de culturas e indivíduos inseridos em dinâmicas sociais diferentes daquela do observador. Com a alteridade, aparece também um significado especial atribuído à expressão “outro”, que passa ser entendido como aquele que trafega em um “modo de navegação social”, para usar uma expressão cara ao antropólogo Roberto DaMatta, diferente daquele que o observa ou interage com esse “outro”. Passados quase dois séculos do nascimento da Antropologia como campo de conhecimento sistemático e unificado, reconhecido pela ciência ocidental como área de estudo específica, a discussão de alteridade e do entendimento de “outras” culturas deixou de ter como objeto de estudo apenas culturas consideradas exóticas de povos em regiões distantes e, geralmente colonizadas, pelos países centrais. A discussão da alteridade e do “outro” tem gerado ricos debates sobre a alteridade e as culturas que se manifestam no espaço urbano, ou como muitas vezes se denomina, no estudos sobre o modo de cultura urbana. Mike Davis, no seu brilhante e contundente “Planeta Favela”, chama a atenção para o fato de que em um futuro próximo a maioria absoluta das populações habitará áreas urbanas e, o que é mais dramático, em condições de acentuada precariedade e favelização. Para os brasileiros, afirmar o óbvio parece lugar comum: quem não sabe que favelas e favelas, ou melhor, aglomerados, se multiplicam pelas cidades brasileiras, inclusive de médio e pequeno porte?! Aliás, aglomerado tornou-se uma expressão politicamente correta, sendo lembrada na construção discursiva dos gestores públicos, mas pouco considerada quando se trata da materialidade ou dos resultados finalísticos das políticas públicas. Comunidade, outra expressão que concorre pelo título de politicamente correta com aglomerado, parece ter virado mantra de várias ONGs e de associações comunitárias, muitas vezes remetendo uma áurea de solidariedade para grupos locais que nem sempre é efetivamente encontrada nessas comunidades. Longe de serem as tão discutidas e almejadas “comunidades cívicas” do capital social analisado por Robert Putnam, as comunidades são, tais quais outros territórios dentro das cidades, lugares de civismo e de cinismo, de participação e de nepotismo, de voluntariado e de passividade, turbinando sociedades urbanas que sonham em ser comunitárias e se ressentem dos desencontros com os “outros”, mas parecem simultaneamente e paradoxalmente, cada vez mais desejar os desencontros com esse “outro”, como que reverberando Sartre e seu “o inferno são os outros” nas estruturas de sociabilidade contemporânea. Ainda assim, a expressão comunidade e a busca desse “outro” supostamente aninhado ou esquecido nesses aglomerados parece ter mais apelo e sensibilidade junto ao grande público e sua opinião pública nada pública (ou melhor, nada republicana). Programas de televisão, filmes, manifestações culturais musicais e teatrais, dentre outras formas de arte, têm buscado um diálogo, muito relevante e potencialmente positivo, com essas comunidades, tentando desmistificar os “outros do Morro” e, por desdobramento, os próprios “outros do Asfalto”. Nessa relação com o “Morro”, o “Asfalto” passou a ser significado como lugar elitizado, organizado, limpo e espaço de ostentação de uma “vida boa”. No entanto, o “Asfalto” é espaço de diferentes hierarquias sociais e não necessariamente abriga a riqueza ostentária e perdulária, mas também a classe média babaca, sempre preocupada com a ameaça criminosa dos pobres, enquanto sonha com a luxúria dos ricos. Mas, nesse “Asfalto” encontra-se outra “comunidade”, nada incomum, apesar de sequer conseguir se fazer visível nas cidades das câmeras de vigilância totais (nos Panópticos modernos de Jeremy Bentham), a população dos moradores de rua. Esses “outros” que habitam o “Asfalto” tornaram-se estigma de criminalidade e ameaça, no mínimo desde a Era Vitoriana na Inglaterra, quando sujeira e crime, limpeza e saúde, ordem e civilidade, desajuste social e falta de caráter passaram a ser vistos como pares inseparáveis na eterna dança da vida humana. Daí se constroem dinâmicas urbanas nas quais as relações dos “normais” e mesmo dos “outros do Morro” com essa população de rua passam a misturar perversamente piedade com autoritarismo, assistencialismo com emancipação, projeto urbanístico com intervenções assépticas no tecido social, interesse pelas mazelas do outro com desinteresse pelas razões e visões de mundo dessa população espremida no asfalto. Nessa sinfonia desconsertada de uma sociedade que não tolera olhar para as suas próprias mazelas, projetos e intervenções de diferente natureza acabam sempre tutelando, disciplinado e jogando para bem longe parcelas importantes dessa população de rua, que teima em se apropriar de ruas, praças e espaços públicos que, na concepção média do cidadão médio das cidades deveria ser o espaço da civilidade, da ordem, da limpeza e símbolo de modernidade de um país e uma cidade que agora têm o direito de sediar os Jogos Olímpicos. Projetos emancipatórios de inclusão social e geração de emprego e renda que não consideram os valores e interesses da população de rua, intervenções policiais que usam como abordagem a violência contra esses cidadãos sem cidadania a título de combater a criminalidade e a desordem, iniciativas de revitalização de espaços públicos e melhor gestão urbana que acabam por higienizar as cidades, jogando para “debaixo do tapete” da periferia da cidade seus incômodos moradores de rua, como o fez o celebrado “Bogotá como Vamos?”, e mesmo a disputa com os “outros do Morro” de pontos e áreas de sobrevivência econômica e alimentar tornam a vida desses “outros do Asfalto” mais arriscada do que já é por definição nas metrópoles. Quando a permanência nas ruas advém de um projeto de vida e de uma opção de viver, como bem enuncia o tocante filme “Na natureza selvagem”, a violência, a tutela e o assistencialismo encontram espaço para se legitimar e reverberar contra essa população. Construindo suas redes de sociabilidade, que ora são solidárias, ora são violentas e de disputa perversa por espaço urbano, ora são cidadãs e demonstram uma grande capacidade de superação, ora são de acomodação e de sobrevivência por pura sorte (ou azar na concepção dos enrustidos autoritários que disciplinam muito bem seu discurso na sociedade da ditadura do politicamente correto), a população de rua segue sua sina de “Morte e Vida Severina” na aridez do sertão urbano. O que dia que esse país incluir nas suas comissões de preparação para os Jogos Olímpicos o Movimento Nacional da População de Rua, com o devido respeito que merecem e construindo dinâmicas horizontais de debate e discussão, aí sim, vou acreditar que demos um passo decisivo em direção à modernidade e mostraremos ao mundo que “um outro mundo é possível” com as competições esportivas que virão. *Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC Minas. Texto publicado na Revista Plurale. |