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Nestes tempos panópticos, nada como um bom Kurt
Vonnegut. Nestes tempos de pensamento único, nada
como um bom Kurt Vonnegut.
Nestes tempos de rendição ampla e irrestrita ao consumo, nada como um bom Kurt Vonnegut. Nestes tempos de
escritores politicamente corretos e capitulados ao deus-mercado, nada como um
bom Kurt Vonnegut. Nada como um bom Kurt
Vonnegut, o último escritor satírico da América, o
último moicano de uma tribo que já costumou
incomodar o mundo. Hoje os escribas norte-americanos depuseram as armas. Vá
lá um Norman Mailer, que no seu ocaso ainda destila
pílulas de veneno puro contra a caretice puritana americana. Mas nada como um bom e único Kurt Vonnegut. Os brasileiros o
conhecem pelo inigualável Matadouro 5, um pequeno grande livro no qual Kurt
espinafra o espírito belicoso e belicista do
Pentágono. Naquele livrinho-pérola, o alvo narrativo foram as supostas
reminiscências de Kurt e suas presepadas como
soldado americano em Dresden, no front alemão,
impiedosamente bombardeada pelos aviões aliados e, naturalmente, destruída
até o último tijolo. Kurt comeu o pão
que o diabo amassou – mas sobreviveu para contar a história. A história e a
estória. Quem leu e se deliciou com Matadouro
5 sabe que KV torce e retorce a trama, brinca
com planos e tempos diversos, deixando em alguns momentos o planeta terra.
Portanto, é um libelo humanista, este de que trata o M5.
Mas é também um delírio surrealista em nome do pacifismo. Mas se KV vai longe na imaginação e no
humor fino e cortante, não perde o foco. É pau puro na hipocrisia yankee que mandou seus jovens para morrer no Vietnã, e os
continuou empurrando guerras intermináveis afora, Coréia da vida, Iraque da
vida, Afeganistão da vida. Pois eis que chega ao Brasil mais um
livro do mestre. Um homem sem pátria,
Ed. Record, R$ 31,00. Poderia haver título mais kurtvonnegutiano?
No novo livro, KV aparece multiplicado em reflexões, aforismos, crônicas e
até desenhos do próprio. Não é, portanto, um novo romance. É mais um KV em
fragmentos. Em seu estilo simples, direto, porém inimitável, KV vergasta sua
ira santa contra a América. Contra quem mais? Pelo dito de KV no livro, ele começou
cedo nesse negócio de azucrinar as autoridades e os mais velhos. KV abre o
livro com essa pérola de reminiscência: “Quando criança eu era o mais jovem
da minha família, e o caçula de qualquer família é sempre um piadista, porque
uma piada é o único jeito que ele tem de entrar numa conversa adulta”. Passado tanto tempo, KV continua a nos
fazer sorrir e a torcer pelos índios, negros e todos os fodidos
nessa história americana. E o melhor que tenho a fazer é ceder a palavra ao
próprio mestre. Com a palavra, Kurt Vonnegut, o homem sem pátria: “Muitos anos atrás eu era tão inocente
que ainda considerava possível que pudéssemos nos tornar a América humana e
sensata com que tantos membros da minha geração sonhavam. Sonhávamos com tal
América durante a Grande Depressão, quando não havia empregos. E então
lutamos e muitas vezes morremos por aquele sonho na Segunda Guerra Mundial,
quando não havia paz. Mas sei agora que não existe nenhuma chance de a
América se tornar humana e sensata. Porque o poder corrompe e o poder
absoluto absolutamente. Os seres humanos são chimpanzés que se embriagam com
o poder”. |
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