Webjornal - Mensal  - Edição 100 - Aracaju, 08 de abril a 06 de maio de 2007
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Artigo

O último moicano

Por Paulo Lima

Nestes tempos panópticos, nada como um bom Kurt Vonnegut. Nestes tempos de pensamento único, nada como um bom Kurt Vonnegut. Nestes tempos de rendição ampla e irrestrita ao consumo, nada como um bom Kurt Vonnegut. Nestes tempos de escritores politicamente corretos e capitulados ao deus-mercado, nada como um bom Kurt Vonnegut.

 

Nada como um bom Kurt Vonnegut, o último escritor satírico da América, o último moicano de uma tribo que já costumou incomodar o mundo. Hoje os escribas norte-americanos depuseram as armas. Vá lá um Norman Mailer, que no seu ocaso ainda destila pílulas de veneno puro contra a caretice puritana americana.

 

Mas nada como um bom e único Kurt Vonnegut. Os brasileiros o conhecem pelo inigualável Matadouro 5, um pequeno grande livro no qual Kurt espinafra o espírito belicoso e belicista do Pentágono. Naquele livrinho-pérola, o alvo narrativo foram as supostas reminiscências de Kurt e suas presepadas como soldado americano em Dresden, no front alemão, impiedosamente bombardeada pelos aviões aliados e, naturalmente, destruída até o último tijolo.

 

Kurt comeu o pão que o diabo amassou – mas sobreviveu para contar a história. A história e a estória. Quem leu e se deliciou com Matadouro 5 sabe que KV torce e retorce a trama, brinca com planos e tempos diversos, deixando em alguns momentos o planeta terra. Portanto, é um libelo humanista, este de que trata o M5. Mas é também um delírio surrealista em nome do pacifismo.

 

Mas se KV vai longe na imaginação e no humor fino e cortante, não perde o foco. É pau puro na hipocrisia yankee que mandou seus jovens para morrer no Vietnã, e os continuou empurrando guerras intermináveis afora, Coréia da vida, Iraque da vida, Afeganistão da vida.

 

Pois eis que chega ao Brasil mais um livro do mestre. Um homem sem pátria, Ed. Record, R$ 31,00. Poderia haver título mais kurtvonnegutiano? No novo livro, KV aparece multiplicado em reflexões, aforismos, crônicas e até desenhos do próprio. Não é, portanto, um novo romance. É mais um KV em fragmentos. Em seu estilo simples, direto, porém inimitável, KV vergasta sua ira santa contra a América. Contra quem mais?

 

Pelo dito de KV no livro, ele começou cedo nesse negócio de azucrinar as autoridades e os mais velhos. KV abre o livro com essa pérola de reminiscência: “Quando criança eu era o mais jovem da minha família, e o caçula de qualquer família é sempre um piadista, porque uma piada é o único jeito que ele tem de entrar numa conversa adulta”.

 

Passado tanto tempo, KV continua a nos fazer sorrir e a torcer pelos índios, negros e todos os fodidos nessa história americana. E o melhor que tenho a fazer é ceder a palavra ao próprio mestre. Com a palavra, Kurt Vonnegut, o homem sem pátria:

 

“Muitos anos atrás eu era tão inocente que ainda considerava possível que pudéssemos nos tornar a América humana e sensata com que tantos membros da minha geração sonhavam. Sonhávamos com tal América durante a Grande Depressão, quando não havia empregos. E então lutamos e muitas vezes morremos por aquele sonho na Segunda Guerra Mundial, quando não havia paz. Mas sei agora que não existe nenhuma chance de a América se tornar humana e sensata. Porque o poder corrompe e o poder absoluto absolutamente. Os seres humanos são chimpanzés que se embriagam com o poder”.

 

                                 

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