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Edição 16

Aracaju, 02 de Fevereiro de 2003

 

 

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Não Moram na Filosofia


Paulo Lima


E se de repente fosse lançado, através de algum veículo de comunicação de massa, no Brasil, um concurso para a escolha dos maiores brasileiros de todos os tempos? Quantos se consagrariam como os grandes vencedores? Palpites não faltariam, numa terra de tantos técnicos de futebol e economistas. É até bem provável que, encabeçando o topo da lista, surgissem os nomes de alguns jogadores de futebol. Assim como, na crista da onda da sua popularidade, a vitória do presidente Lula soasse como um razoável vaticínio. A grande vencedora poderia ser também Gisele Bündchen, mesmo depois da sua performance pós-pele de animais. Ou ainda alguma persona non grata da nossa terra brasilis – um Paulo Maluf, por exemplo –, só pelo gosto que o brasileiro tem de pôr o mundo de ponta cabeça e subverter a ordem das coisas.

No Brasil, qualquer um desses personagens poderia ingressar no hall da fama como um dos maiores brasileiros de todos os tempos. De uma coisa, contudo, podemos estar certos: não haveria filósofos incluídos nesse time dos sonhos. Sorry, mas nenhuma chance para Marilena Chauí, Bento Prado Júnior ou Roland Corbisier. Por aqui, moramos na filosofia somente naquela velha canção de Monsueto. Afinal, a julgar pelas seções tablóides dos nossos jornais, o Brasil está mais para Nelson Rodrigues do que para Manoel Bomfim. Pode parecer implicância com o templo do saber, mas é a realidade que insiste em revelar que, muito possivelmente, na tal escolha dos maiores brasileiros de todos os tempos, não seria lembrada uma viva alma das nossas academias uspianas.  

Na Inglaterra, onde o concurso “greatest britons of all times” (maiores britânicos de todos os tempos) foi feito para valer, por iniciativa da BBC, os ingleses apostaram em opções variadas de um amplo leque nacional. Os súditos da sua Majestade indicaram de políticos a grandes cientistas, de cantores a satanistas. A votação, realizada por telefone, revelou ainda ditadores da velha tradição militar bretã, como Oliver Cromwell. Os cantores lembrados foram John Lennon e Johnny Rotten, o Joãozinho Podre, dos Sex Pistols, só para confirmar que naquela ilha se mantém firme a verve anarquista que, dentre outras coisas, relevou as maiores bandas de rock do planeta.

Na terra de bruxas e gnomos, parece até natural que um representante famoso da magia, como Sir Aleister Crowley, tenha sido pinçado dentre as inúmeras opções. Não, nenhuma menção ao fenômeno Harry Potter.

Em relação ainda a fenômenos (fabricados pela mídia, bem entendido), nenhuma referência a Britney Spears ou qualquer popstar surgido nos últimos dez anos, fato em si surpreendente, já que nove dentre dez personalidades artísticas  - normalmente do cinema ou da música - parecem fazer parte dos gossips ou das escolhas afetivas do público em geral, em qualquer país dito ocidental.

 No caso dos políticos, não houve surpresas. Se os britânicos já elegeram antes uma personalidade política da linha dura e afinada com os interesses americanos, a Dama de Ferro, por que não escolheriam de novo outro político simpático ao discurso do Tio Sam? Tony Blair foi um dos mais votados na seara política.

De um modo geral, essas escolhas revelam quão ingrata ou superficial podem ser as opções culturais de uma dada sociedade. Exemplos? Dois ao menos. Por que não foram mencionados os nomes de Shakespeare e Agatha Christie? Pelo menos, não foram citados como tendo se situado entre os top 100 da contenda.

Essas importantes filigranas não foram, no entanto, consideradas no resultado final. O grande frisson ficou por conta da ausência de filósofos entre os 100 mais. É nesse sentido que a lista dos mais bem votados causou perplexidade nos idealizadores da disputa. Como não aparecer filósofos no ranking dos maiores, se a Inglaterra é considerada o berço de grandes pensadores da cultura? Quatro deles, ao menos, merecem destaque: Bertrand Russel, David Hume, Locke e Hobbes. 

A ausência de quatro gigantes do pensamento ocidental soa decepcionante? Esperem só para saber do resultado. Segundo a divulgação da BBC, o primeiro lugar oscilou entre Charles Darwin e a Princesa Diana. Ou alguém chegou a imaginar que a Princesa perderia essa? Nem era propósito da tal competição chegar a algum tipo de moral, mas, a considerar o resultado final, bem que poderíamos pensar nesta aqui: uma vez súditos, sempre súditos.

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