BALAIO DE NOTÍCIAS

Webjornal – atualizado aos domingos

*Projeto Experimental*

Edição 17

Aracaju, 09 de Fevereiro de 2003

 

 

Principal

 

Fale Conosco

 

Editorial

 

Reportagem

 

Artigo

 

Entrevista

 

Alemanha em Bits

 

Colaboradores

 

Portugal Online

 

 

 

 

Artigo

 

Quem Tem Medo de Tinhorão?


Paulo Lima

 

Faz um bom tempo que li um artigo polêmico sobre música popular brasileira envolvendo o nome do crítico José Ramos Tinhorão. No artigo, Tinhorão era mencionado de forma pouco lisonjeira. Para acentuar seu ponto de vista depreciativo, o autor do artigo desdenhava o sobrenome Tinhorão, fazendo-o rimar com cansanção.

 

A associação deve ter-se insinuado no meu imaginário de tal forma que hoje não consigo ouvir referência àquele crítico musical sem pensar no rótulo, por assim dizer, urticário.

 

Tinhorão ocupa hoje o panteão da crítica musical no Brasil, ao lado de nomes como Zuza Homem de Mello, Sérgio Cabral e Tárik de Souza, com uma singular diferença: é odiado por nove dentre dez poetastros da MPB.

 

E por que o odeiam?  A resposta é curta e grossa: na análise sociológica que faz da música popular brasileira, Tinhorão é incisivo: esse gênero de música não seria representativo da cultura brasileira, posto que entremeado de elementos da dita cultura alienígena que bombardeia os tristes trópicos constantemente. Portanto, não poderia ser chamado de música popular, no sentido de que adviria do povo, de uma certa cultura de raiz.

 

Sob o beneplácito da mídia, o selo de MPB grudou nos ouvidos e ao longo dos anos vem abrangendo um amplo espectro da produção musical no Brasil. A dita MPB revelou o talento de nomes hoje consagrados, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, e continua trazendo à tona novos valores.

 

Na visão de Tinhorão, essa safra profícua - ou qualquer outro movimento que advenha de jovens da classe média que utilizem elementos urbanos como leitmotiv da produção artístico-musical - não causa espécie, uma vez que, à luz da sua categorização sociológica, só existiriam dois tipos de cultura – a dos dominantes e a dos dominados.  E essa música, que afinal chamam de popular brasileira, refletiria a cultura dos dominadores.

 

E quem são os dominados? Toda uma tradição musical genuinamente brasileira, dita de raiz, que seria, no fim das contas, duplamente vitimada, primeiro pelos dominadores sanguessugas instalados em solo pátrio, segundo pela cultura invasora principalmente made in USA. E por que duplamente vitimada? Porque a cultura dominadora local já traz em si toda uma influência da cultura invasora. Por conseqüência, estaria estabelecida a dupla dominação sobre os párias e relegados da nossa cultura. 

 

Em termos práticos, quais seriam as conseqüências dessa dominação? O sumiço puro e simples, o alijamento da ribalta artística daqueles artistas genuinamente populares. Só há lugar ao sol para os grupos dominantes da cultura, que, em conluio com uma mídia benevolente, preconceituosa e desinformadora, têm o monopólio do acesso aos espaços de apresentação pública, como casas de espetáculos, teatro, etc.

 

 Esses são os contornos que pude depreender da crítica feita por Tinhorão à Música Popular Brasileira, a partir do seu artigo “Invasão Cultural”, que li há coisa de dois dias.  Em razão dessa crítica, me ocorre observar que não somente soa anacrônica a tentativa de  enquadrar intersubjetividade artística e polifonia cultural dentro de parâmetros rígidos de análise política ou sociológica (algo que me soa muito próximo do velho bordão yankees, go home),  como também ressuscita velhas dicotomias em torno de arte e ideologia.

 

O que pretendo destacar com esse pequeno comentário às idéias de Tinhorão, contidas no  mencionado artigo, é exatamente essa baliza sociológica da sua análise. Por isso, alinhavarei meia dúzia de lembranças musicais pessoais, que enfocarei sob pretexto de levantar uma ou duas questões sobre esse espinhoso tema.  Não é uma crítica. Chamemos de tentativa de diálogo à distância com esse respeitado crítico musical.  Ou de uma missiva sem resposta, como quiserem.

 

Em primeiro lugar, me ocorre que o que se tem produzido na MPB, nos últimos anos,  corresponde a uma mescla de estilos e influências, para dizer o mínimo. É notório o número cada vez crescente de músicos e compositores que têm bebido nas nossas chamadas raízes musicais. Cito algumas dessas fontes: João do Vale, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré.  Pergunto: quão distantes estão essas fontes da real cultura brasileira?

 

Em segundo lugar, é notória a influência do jazz americano, notadamente o rhythm and blues, na produção de muitos dos nossos músicos contemporâneos. Cito três, minimamente: Ivan Lins, Djavan, Luiz Melodia. Na ótica de Tinhorão, esses músicos, entronizados valores da MPB, representariam a cultura dominadora. Mas qual a origem social do jazz americano, que eles utilizam como tempero musical? A mais reles possível: negros escravos explorados nas plantações de algodão, cantando para espantar o banzo da África natal.  Claro que o jazz distanciou-se das suas raízes, sofisticando-se e fazendo a fortuna de alguns. Mas, já que estamos falando de roots (raízes), como é que fica essa história de cultura dominante brasileira beber na fonte de um gênero que, em seu país de origem, sempre foi discriminado, ou, em uma palavra, sempre fez parte da cultura dos dominados?

 

Mudarei agora o foco para Recife, Pernambuco, que vai me fornecer mais dois exemplos. Chico Science misturando guitarras elétricas (o supra-sumo do imperialismo musical) com libelos do mangue recifense.  Essa mistura chamada manguebeat o que é?   Alienação, tutela dos que não têm voz (os famintos do mangue) ou prospecção estético-musical?

 

Ainda em Recife, os Titãs preparam-se para um show. Na praia, vêem um casal de repentistas cegos, Mauro e Quitéria.  Sentiram que aquilo dava samba, digo, rock e mais alguma coisa. Levaram Mauro e Quitéria a tiracolo, incluíram-nos em seu CD produzido à época.  Como posso compreender a ação dos Titãs? Esperteza, tutela sobre a dupla de repentistas, jogada de marketing?  Uma mera ação de dominados sobre dominadores?

 

  

Nesse outro exemplo que me vem ainda de Recife, eu mesmo sou protagonista. No bairro de Boa Viagem, tomo um táxi que me leva até o Shopping.  A cargas tantas, toca Lennon no rádio do carro. A música: mind games, por sinal uma das minhas favoritas do ex-Beatle. E o que fez o taxista? Não pulou o dial, ele simplesmente aumentou o volume do rádio e seguiu cantarolando a música, até o fim. O que vemos nesse exemplo? Uma clássica ação de uma cultura invasora em plena ação sobre os neurônios paralisados de um nativo dominado?

Mais um, só mais um exemplo que me faz crer que o fenômeno cultural pode transcender a mera categorização sócio-política de algumas análises. Na década de 70, as melenas do maestro Isaac Karabtchevsky esvoaçavam como nunca, sob o esforço da sua batuta para levar o universo da música clássica para a massa. Consta que a massa regalou-se com a novidade; afinal, ouvir Bach ou Beethoven assim, de graça, em plena praça pública, não é todo dia.

 

 A iniciativa de Karabtchevsky se foi, por falta de patrocínio ou sabe-se lá por que tipo de infortúnio. Mas o exemplo do maestro abriu caminho para a tentativa de Artur Moreira Lima de levar seu piano clássico para não sei quantas salas de espetáculo de todo o país. O que argumento com esses dois exemplos é: - como ousam esses apologistas da música clássica levar o mais fino da cultura dominante ocidental para os ouvidos de uma cultura dominada?

 

Nem falei do resgate das cirandas brasileiras feitas por Villa-Lobos (um cara pálida da cultura, sob a ótica dominantes x dominados), nem das propostas populares de Manoel de Nóbrega, nem da invasão cultural às avessas da música brasileira penetrando nas entranhas do gigante invasor, nem da violeira Helena Meirelles (que foi capa da Times), nem do violoncelista recifense Antonio Menezes (que brilha no exterior), nem do pianista Arnaldo Cohen (que também brilha no exterior).

 

Sob o impacto das nuanças proporcionadas pelo fenômeno da música, sinto-me impelido a pensar que a diversidade cultural extrapola qualquer fronteira conceitual que se queira estabelecer, seja em termos de cultura inferior versus cultura superior, cultura popular versus cultura erudita, cultura autóctone versus cultura importada, cultura de dominação versus cultura de dominados. Sinto-me tentado a imaginar que algumas questões de forma e conteúdo também se ajustariam nesse imenso cipoal.

 

Mas, antes que eu me sinta impulsionado a pensar algo mais, dou por encerrada esta missiva. Envio-a para Tinhorão, sem aguardar qualquer resposta.

------------------------------------------------------------------------------------
COMENTE ESTE ARTIGO

 

voltar