BALAIO DE NOTÍCIAS
Webjornal – atualizado aos domingos
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*Projeto
Experimental*
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Edição 19
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Aracaju, 23 de
Fevereiro de 2003
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Artigo
Línguas do Brasil
Cuidado. Se você for ao Alto Rio Negro, no Amazonas, levando em seu portfólio lingüístico apenas o português, é bem provável que você vivencie alguns tropeços de comunicação naquela fronteira distante do Brasil. Não que você vá encontrar por lá algum dialeto desconhecido ou alguma indecifrável língua do Pê. Em Alto Rio Negro, convivem mais de 22 línguas indígenas. Como reconhecimento dessa diversidade, foi aprovada pela Câmara de Vereadores de São Gabriel da Cachoeira, naquela região, uma lei inédita no Brasil que eleva três dessas vinte e duas línguas à condição de idioma oficial. As línguas – Nheengatu, Tukano e Baniwa – conviverão com o português, de igual para igual, no cotidiano daquele município. O projeto de estudo de legitimação dessas línguas foi solicitado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro e realizado pelo IPOL, Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Lingüística, uma ONG sem fins lucrativos com sede em Florianópolis, voltada ao estudo das diferenças lingüísticas. O IPOL vem atuando naquela região desde 1977, ocasião em que um dos seus integrantes trabalhou como docente no Curso e Magistério Indígena da prefeitura local, formando os 163 professores indígenas com o objetivo de atuarem nas escolas públicas do Rio Negro. Apesar da sua relevância, a notícia não ecoou devidamente na grande mídia, que a ignorou solenemente. Outros episódios relacionados com a população indígena acabaram por merecer os holofotes da grande imprensa, dadas as suas características de espetáculo sangrento. No primeiro caso, o índio Gaudino ardeu em brasas num ponto de ônibus da capital federal. Mais recentemente, em 12 de janeiro, o líder indígena Marcos Veron, de 74 anos, foi assassinado em Juti, Estado de Mato Grosso do Sul, durante um conflito na fazenda Brasília do Sul. Ainda no início deste ano, o índio caingangue Lopoldo Crespo, de 77 anos, foi morto a chutes e pedradas em Miraguaí, no Rio Grande do Sul. A disposição geográfica desses crimes contra indígenas é sintoma de uma ideologia que se incorporou ao imaginário verde e amarelo no decorrer dos séculos, no Brasil, em qualquer região: “índio bom é índio morto”. Quando não morto, ao menos desprezado, idiotizado, explorado e tratado como um ser destituído de qualquer traço de racionalidade. Um não-humano, em suma. O reconhecimento, embora pelas portas da lei, de três línguas indígenas como oficiais pode ser considerado um ato de reparação perante uma cultura que foi destruída paulatinamente ao longo dos séculos no Brasil. Os três índios assassinados são somente uma ínfima proporção dos números que apontam o extermínio de quase todas as nações indígenas na terra de Vera Cruz. Pela primeira vez admite-se oficialmente a existência da pluralidade linguística no Brasil, colocando-se por terra a falácia da unidade do português como língua única. A realidade é ainda mascarada pela prevalência das normas do chamado português-padrão que, historicamente, firmou-se por razões culturais, sociais e políticas, e não exatamente por critérios de superioridade. Desnecessário lembrar aqui que o suposto não domínio do português- padrão obstaculizou a ascensão do então candidato Lula ao poder. Contrapondo-se ao português-padrão existe toda uma ampla fronteira ocupada pelo português não-padrão, essa sim a língua sem erres nem esses realmente falada no Brasil e considerada “feia”, “errada”, “deficiente”, “pobre” e “rude”. Na concepção de Bakhtin, o eminente lingüista russo, a palavra carrega em si os reflexos da dialética da luta de classes. O falar errado ou deficiente refletiria, assim, as próprias condições sociais em que esse léxico foi-se formando ao longo do processo histórico, sob deficiências várias – educacionais, nutricionais e humanas. Antes de proclamar a superioridade do português-padrão sobre o não-padrão ou sobre outras línguas semanticamente menos favorecidos, como pode ser o caso dos três idiomas indígenas, é preciso ter em mente que se tratam de diferenças e não de relações de superioridade ou inferioridade entre um padrão e outro. Essa visão errônea que insiste em rotular padrões sob categorias excludentes traz conseqüências as mais nefastas para o processo educacional e social no Brasil. Em seu livro “A Língua de Eulália”, o professor e lingüista brasileiro Marcos Bagno analisou assim o assunto: Os professores, administradores escolares e psicólogos educacionais tratam o aluno pobre como um “deficiente” lingüístico, como se ele não falasse língua nenhuma, como se sua bagagem lingüística fosse “rudimentar”, refletindo conseqüentemente uma “inferioridade mental”. Isso cria, no espírito do aluno pobre, um sentimento de rejeição muito grande, levando-o a considerar-se incapaz de aprender qualquer coisa. Por outro lado, cria no professor a sensação de estar tentando ensinar alguma coisa a alguém que nunca terá condições de aprender. Daí resulta que o aluno fica desestimulado a aprender, e o professor desestimulado a ensinar” A aprovação da lei que garante o status de língua oficial às línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa é um sinal de que a legislação pode ser utilizada favoravelmente para a defesa e o reconhecimento da pluralidade lingüística no Brasil, franqueando assim o caminho para outras conquistas de ordem política e social. ------------------------------------------------------------------------------------ |