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Edição 20

Aracaju, 02 de Março de 2003

 

 

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O Mundo de Ponta Cabeça


Paulo Lima

Para nós, brasileiros, a festa é sinônimo de alegria, o trabalho é eufemismo de castigo, dureza, suor. Esta reflexão foi elaborada pelo antropólogo Roberto da Matta, um dos mais argutos observadores da sociedade brasileira, autor de algumas análises clássicas que procuram dar conta da complexidade de uma cultura multifacetada como a nossa. O Carnaval é um dos tópicos exaustivamente estudados por aquele antropólogo. No seu ensaio “O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer”, da Matta procura definir essa festa identitária destes trópicos cálidos.

O Carnaval, segundo da Matta, “é uma ocasião em que a vida diária deixa de ser operativa e, por causa disso, um momento extraordinário é inventado”. Esse extra-ordinário quebra a rotina e os seus imperativos voltados exclusivamente para a produtividade.   É o momento em que se dá a alternância do trabalho para a festa; é o instante em que se dá a ruptura do que é previsível e racional, colocando em suspensão as rotinas produtivas.

Nesta reviravolta que o carnaval impõe, como “uma onda irresistível que nos domina, controla e, melhor ainda, seduz inapelavelmente”, o mundo sai da sua órbita ordinária e vira de ponta cabeça. Decorre então que o “carnaval, com suas regras de inversão, fica como que deslocado da realidade cotidiana, podendo ser vivido como algo de fora e, daí, como algo que surge como uma regra ou lei natural que teria validade para todos, independentemente de sua posição  na estrutura social. Ou apesar dela... Ou por causa dela...”.

Mas - indaga Da Matta – por que o carnaval consegue fazer isso com o Brasil? Que extraordinário é esse – continua ele – que chamamos coletivamente de carnaval?

O próprio Roberto da Matta tenta responder:

Penso que o carnaval é basicamente uma inversão do mundo. Uma catástrofe. Só que uma reviravolta positiva, esperada, planificada e, por tudo isso, vista como desejada e necessária em nosso mundo social. Nele, conforme sabemos, trocamos a noite pelo dia; ou, o que é ainda mais inverossímil: fazemos uma noite em pleno dia, substituindo os movimentos da rotina diária pela dança e pelas harmonias dos movimentos coletivos que desfilam num conjunto ritmado, como uma coletividade indestrutível e corporificada na música e no canto. 

Neste ritual, o corpo, que costuma ser castigado e gasto pelo trabalho que escraviza, se “esbalda” no carnaval, rompe as amarras, permite a troca dos “uniformes pelas fantasias”. No carnaval, o corpo também paga um tributo ao cansaço, mas é uma exaustão decorrente do prazer e da alegria. A fantasia, entendida no sentido de algo que se pode pensar acordado, descontrói o sentido de hierarquia imposto pelo uniforme. Neste sentido, afirma Da Matta, “se no mundo diário estamos todos limitados pelo dinheiro que se ganha (ou não se ganha...), pelas leis da sociedade, do mercado, da casa e da família, no carnaval e na fantasia temos a possibilidade de virar onipotente e ser tudo o que se tem vontade”. O carnaval, então, dispondo o mundo e suas regras de cabeça para baixo, permite às pessoas vivenciarem uma “incrível sensação de liberdade” e, por isso, “o diverso, o diferente – o universo da individualidade -, que é tão temido na vida diária, é moeda corrente no carnaval, onde todos podem surgir como indivíduos e como singularidade, exercendo o direito de interpretar o mundo do seu ‘jeito’ e a seu modo”.

O Carnaval, na reflexão de Da Matta, significa então:

 *Inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia”.

*Movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social”.

 *Exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de ‘quem conhece o seu lugar’- algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações.

*Feminino num universo social e cosmológico marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.

Por todos esses atributos, o carnaval, conforme Da Matta,  é a “possiblidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade”.

O que  Da Matta lamenta é que toda essa utopia só sirva para revelar exatamente o seu oposto – as condições de difícil mobilidade social numa sociedade injusta como a brasileira.  

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