Webjornal - Semanal - Edição 22 - Aracaju, 23  de março de 2003
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Artigo

Ética e Cotidiano

Paulo Lima

O atual conflito bélico imposto pelos Estados Unidos ao Iraque é resultado de uma decisão unilateral do presidente Bush. As razões da invasão seriam  justificadas por um aparente conflito ético: a luta do Bem contra o Mal. Sinceramente, quantas vezes você perdeu o sono pensando nas conseqüências desse novo conflito?

O fenômeno da globalização tem fomentado mais miséria no planeta, colocando à prova  as bases do capitalismo, levando-nos a questionar a sua eficácia em promover a felicidade e o bem-estar das sociedades contemporâneas. Cá entre nós, quantas vezes você perambulou insone noite adentro pensando nesse assunto?

Nos idos dos 30, Monteiro Lobato trombeteava que ou o Brasil acabava com as saúvas, ou as saúvas acabariam com o Brasil. Um longo vão de tempo depois, poderíamos renovar a questão: ou o Brasil acaba com a corrupção, ou a corrupção acaba com o Brasil. Responda rápido: quantas vezes a sua cabeça doeu por você pensar intensamente nesse dilema?

Para o humanista e escritor norte-americano Arthur Dobrin, da Universidade de Hofra, não são as grandes questões éticas que costumam tirar o sono da humanidade, mas os pequenos problemas do cotidiano. Esse é o miolo da tese esboçada no seu recém-lançado livro Ethics for Everyone: How to Increase Your Moral Intelligence ("Ética para todos: como aumentar sua inteligência moral"), ainda sem tradução no Brasil. 

Lorota de americano? Mais um livro caça-níqueis no rico filão de auto-ajuda? História para boi dormir enquanto Bush trucida civis inocentes no Oriente Médio? Em seu trabalho, Dobrin argumenta que, no cotidiano, as questões diárias acerca da moralidade mal atingem uma dimensão mítica. Contudo, elas podem manter uma pessoa acordada à noite bem mais tempo do que as consideradas grandes questões.

Duas grandes questões sugeridas por Dobrin: os humanos são melhor servidos pelo capitalismo ou pelo socialismo? O mundo moderno poderia sobreviver sendo anti-moderno ou anti-global? E uma pequena questão: o que você faria se visse um vizinho seu roubando alguma coisa? É a ênfase nos pequenos dilemas diários que costuma ocupar a maior parte do tempo de decisão da maioria das pessoas, afirma o escritor.

Em termos de ética, o pensamento humano foi capaz de criar três grandes sistemas. O primeiro sistema, atribuído a Buda e a Jesus, destaca as virtudes femininas e considera a igualdade entre os homens. Outro é a ética de Maquiavel e de Nietzsche, que defende as virtudes masculinas e aceita a desigualdade. Um terceiro sistema, atribuído a Sócrates, Platão e Aristóteles, nega a aplicabilidade universal das virtudes e as relaciona com uma mente madura e informada - numa palavra, com a inteligência. 

Um quarto sistema reconcilia esses três grandes arcabouços do conhecimento:  a ética de Spinoza, que acaba por eleger a felicidade como  objetivo de conduta e instaura  um sistema de moral mais sintonizado com o pensamento moderno.

Infelizmente, a considerar o arrazoado de Dobrin, o speculum filsófico centrado em altas esferas não faz parte do menu diário de problemas nos quais a humanidade chafurda do nascer ao pôr do sol.  Sorry, grandes filósofos. As questões viscerais enfrentadas pelas pessoas podem estar mais relacionadas, por exemplo, a uma prosaica cena de roubo. Exemplo dado por Dobrin: uma ricaça bem vestida e guiando um conversível último modelo pára numa praça florida da cidade e rouba uma planta. O que você faria?

As pessoas ouvidas esboçaram ao menos três reações a esse pequeno conflito moral: enfrentariam a ladra, destituindo-a do nada honroso ato; reportariam o ocorrido ao departamento pertinente da prefeitura; chamariam a polícia; tomariam nota da placa do carro da bacana e informariam à polícia.

Às vezes, contrariamente ao episódio do roubo da planta, um conflito ético nem sempre oferece um desenlace simples do tipo certo ou errado. Foi o caso de um hospital infantil em Long Island que decidiu aceitar uma doação de $ 10 milhões de um suposto grupo criminoso. Havia a desconfiança de que o dinheiro poderia ter sido obtido ilegalmente, que até mesmo vidas poderia ter custado. Por outro lado, essa soma poderia salvar vidas de crianças. O hospital aceitou o dinheiro.

Aqui mesmo abaixo do Equador, muito dinheiro do jogo do bicho correu solto para financiar projetos, por assim dizer, nobres. Não foi com dinheiro do bicho que Joãozinho Trinta pagou as contas dos seus grandiosos desfiles de carnaval? Ele aceitou na moita. Se perdeu noites de sono ou teve dores de cabeça homéricas, pouco se sabe. Creio que nem é preciso citar o vil metal injetado pelo tráfico nas veias mais corruptas da sociedade.    

Podemos  argumentar que a questão colocada nos termos propostos por Dobrin corre o risco de não ultrapassar os limites do você-decide, uma ética baseada somente no certo e no errado, no sim e no não, como se a realidade pudesse se resumir a um maniqueísmo digno dos códigos binários, quando sabemos que a contemporaneidade tem colocado dilemas cada vez mais complexos. Mas discutir a ética, mesmo a que envolve as pequenas decisões diárias, já é uma proposta ética em si. E nisso pode-se dizer que reside o mérito de Dobrin.


  

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