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Artigo
Ética e Cotidiano
Paulo Lima
O atual
conflito bélico imposto pelos Estados Unidos ao Iraque é resultado de
uma decisão unilateral do presidente Bush. As razões da invasão
seriam justificadas por um aparente conflito ético: a luta do Bem
contra o Mal. Sinceramente, quantas vezes você perdeu o sono pensando nas
conseqüências desse novo conflito?
O
fenômeno da globalização tem fomentado mais miséria no planeta,
colocando à prova as bases do capitalismo, levando-nos a questionar
a sua eficácia em promover a felicidade e o bem-estar das sociedades
contemporâneas. Cá entre nós, quantas vezes você perambulou insone
noite adentro pensando nesse assunto?
Nos
idos dos 30, Monteiro Lobato trombeteava que ou o Brasil acabava com as
saúvas, ou as saúvas acabariam com o Brasil. Um longo vão de tempo
depois, poderíamos renovar a questão: ou o Brasil acaba com a
corrupção, ou a corrupção acaba com o Brasil. Responda rápido:
quantas vezes a sua cabeça doeu por você pensar intensamente nesse
dilema?
Para
o humanista e escritor norte-americano Arthur Dobrin, da
Universidade de Hofra, não são as grandes questões éticas que costumam
tirar o sono da humanidade, mas os pequenos problemas do cotidiano. Esse
é o miolo da tese esboçada no seu recém-lançado livro Ethics for
Everyone: How to Increase Your Moral Intelligence ("Ética para
todos: como aumentar sua inteligência moral"), ainda sem tradução
no Brasil.
Lorota de americano? Mais um
livro caça-níqueis no rico filão de auto-ajuda? História para boi
dormir enquanto Bush trucida civis inocentes no Oriente Médio? Em seu
trabalho, Dobrin argumenta que, no cotidiano, as questões diárias acerca
da moralidade mal atingem uma dimensão mítica. Contudo, elas podem
manter uma pessoa acordada à noite bem mais tempo do que as consideradas
grandes questões.
Duas grandes questões
sugeridas por Dobrin: os humanos são melhor servidos pelo capitalismo ou
pelo socialismo? O mundo moderno poderia sobreviver sendo anti-moderno ou
anti-global? E uma pequena questão: o que você faria se visse um vizinho
seu roubando alguma coisa? É a ênfase nos pequenos dilemas diários que
costuma ocupar a maior parte do tempo de decisão da maioria das pessoas,
afirma o escritor.
Em termos de ética, o
pensamento humano foi capaz de criar três grandes sistemas. O primeiro sistema, atribuído a Buda e a Jesus, destaca as
virtudes femininas e considera a igualdade entre os homens. Outro é a
ética de Maquiavel e de Nietzsche, que defende as virtudes masculinas e
aceita a desigualdade. Um terceiro sistema, atribuído a Sócrates,
Platão e Aristóteles, nega a aplicabilidade universal das virtudes e as
relaciona com uma mente madura e informada - numa palavra, com a
inteligência.
Um
quarto sistema reconcilia esses três grandes arcabouços do
conhecimento: a ética de Spinoza, que acaba por eleger a felicidade
como objetivo de conduta e instaura um sistema de moral mais
sintonizado com o pensamento moderno.
Infelizmente,
a considerar o arrazoado de Dobrin, o speculum filsófico centrado
em altas esferas não faz parte do menu diário de problemas nos quais a
humanidade chafurda do nascer ao pôr do sol. Sorry, grandes
filósofos. As questões viscerais enfrentadas pelas pessoas podem estar
mais relacionadas, por exemplo, a uma prosaica cena de roubo. Exemplo dado
por Dobrin: uma ricaça bem vestida e guiando um conversível último
modelo pára numa praça florida da cidade e rouba uma planta. O que você
faria?
As
pessoas ouvidas esboçaram ao menos três reações a esse pequeno
conflito moral: enfrentariam a ladra, destituindo-a do nada honroso ato;
reportariam o ocorrido ao departamento pertinente da prefeitura; chamariam
a polícia; tomariam nota da placa do carro da bacana e informariam à
polícia.
Às
vezes, contrariamente ao episódio do roubo da planta, um conflito ético
nem sempre oferece um desenlace simples do tipo certo ou errado. Foi o
caso de um hospital infantil em Long Island que decidiu aceitar uma
doação de $ 10 milhões de um suposto grupo criminoso. Havia a
desconfiança de que o dinheiro poderia ter sido obtido ilegalmente, que
até mesmo vidas poderia ter custado. Por outro lado, essa soma poderia
salvar vidas de crianças. O hospital aceitou o dinheiro.
Aqui
mesmo abaixo do Equador, muito dinheiro do jogo do bicho correu solto para
financiar projetos, por assim dizer, nobres. Não foi com dinheiro do
bicho que Joãozinho Trinta pagou as contas dos seus grandiosos desfiles
de carnaval? Ele aceitou na moita. Se perdeu noites de sono ou teve dores
de cabeça homéricas, pouco se sabe. Creio que nem é preciso citar o vil
metal injetado pelo tráfico nas veias mais corruptas da
sociedade.
Podemos
argumentar que a questão colocada nos termos propostos por Dobrin corre o
risco de não ultrapassar os limites do você-decide, uma ética baseada
somente no certo e no errado, no sim e no não, como se a realidade
pudesse se resumir a um maniqueísmo digno dos códigos binários, quando
sabemos que a contemporaneidade tem colocado dilemas cada vez mais
complexos. Mas discutir a ética, mesmo a que envolve as pequenas
decisões diárias, já é uma proposta ética em si. E nisso pode-se
dizer que reside o mérito de Dobrin.
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