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Artigo
Fotógrafo de Guerra
Paulo Lima
Por
ocasião de mais um conflito bélico mostrado à exaustão pelas grandes
redes mundiais de TV, com tamanha precisão de detalhes como se
estivéssemos presenciando um jogo de combate em tempo real, talvez seja
oportuno lembrar o nome de Robert Capa, o primeiro fotojornalista a
penetrar de fato numa zona de guerra.
Num
tempo ainda distante da moderna tecnologia digital, que permite que
imagens cheguem às redações de jornais e revistas minutos após serem
feitas, desde que se tenha uma linha telefônica e um laptop por perto,
Capa foi consagrado o maior fotógrafo de guerra do mundo manuseando
apenas suas inseparáveis Leica, a lendária câmera de fabricação
alemã.
Húngaro
de nascimento, Capa mudou-se para Paris em 1934, já como fotojornalista.
Em Paris viveu inicialmente grandes dificuldades materiais. Teve a fome
atenuada graças à camaradagem de refugiados. Pouco depois conheceu
Gerda Taro, jovem alemã que se tornou sua amante e
empresária.
Na
primavera de 1936, Capa fotografou uma série de tumultos nas ruas
parisienses envolvendo a Frente Popular, uma coalizão de liberais,
socialistas e comunistas. Essa cobertura lhe abriu as portas para a fama.
Em
1936 eclode a Guerra Civil Espanhola. As tropas fascistas do general
Franco dão início a um ataque a Madri. O jornal francês Regards
publica as primeiras fotos de Capa do cerco de Madri. As fotos são
consideradas espetaculares. No mesmo ano, na Espanha, Gerda Taro, que
acompanhava Capa, morre esmagada por um tanque.
Pertence
a essa fase espanhola uma das mais famosas imagens de Capa: o momento em
que um soldado legalista, em oposição às forças fascistas de Franco,
é alvejado.
Com
a morte de Gerda Taro, Capa viaja para Nova Iorque para visitar o irmão e
a mãe. De lá segue para a China, onde tem a oportunidade de cobrir o
conflito China-Japão. Além da devastação provocada pela guerra entre
os dois países, Capa flagra momentos poéticos do cotidiano chinês,
revelando na prática a sua máxima de vida e talvez a fórmula para o seu
sucesso como fotógrafo: "Goste das pessoas e deixe que elas percebam
que você gosta delas".
Em
1940 Capa está no México para cobrir a campanha presidencial e a
eleição naquele país. Consideradas as mais tranqüilas da história
daquele país, o dia marcado para as eleições, 7 de julho, deixou um
saldo de trinta mortos e centenas de feridos na cidade do México.
Soa
irônico que Robert Capa, considerado um fotógrafo de guerra, tenha sido
enviado ao front de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial, somente em
1943. Em 1941, Capa estava em Londres devastada pelos sucessivos ataques
aéreos da força aérea alemã. Foi somente em 1943 que Capa seguiu para
o norte da África como fotógrafo e correspondente.
Na
Itália, Capa fotografou a conquista da Sicília pelos aliados,
cirscunstância que em muito lhe lembrou o cerco da cidade espanhola de
Truel, durante a guerra civil naquele país.
No
dia 6 de junho 1944, Capa está na praia de Omaha, no litoral francês, no
momento de desembarque da tropas aliadas, no chamado de dia D. Devemos a
Capa as imagens dos soldados nadando em direção à praia, em imagens
tecnicamente inferiores às que tinha realizado em outros conflitos, mas
de inegável valor documental.
No
final da Segunda Guerra, Capa está em Paris cobrindo as comemorações
pela libertação francesa do domínio nazista. Nesse momento de final de
conflito, Capa pula de pára-quedas sobre a Alemanha junto com tropas
americanas. Semanas depois, Capa junta-se ao Primeiro Exército dos
Estados Unidos na tomada de Leipzig, cidade natal de Gerda Taro.
Em
1947, Capa está nas terras da ex-União Soviética ao lado do escritor
norte-americano John Steinbeck para juntos produzirem o livro "Um
Diário Russo". Acostumado com as trepidações dos tempos de guerra,
Capa reclama da tranqüilidade vigente em território russo:
"Não estou nem um pouco satisfeito. Os 190 milhões de russos
estão contra mim. Eles não se rebelam nas esquinas, não praticam cenas
espetaculares de amor livre, não criam nenhum tipo de estilo novo; são
um povo muito correto, moralista, trabalhador e, para um fotógrafo, isso
é muito insípido, é feijão-com-arroz. Além disso, parecem gostar do
modo russo de viver e não gostam de ser fotografados. Minhas quatro
câmeras, acostumadas a guerras e rebeliões, estão revoltadas, e cada
vez que disparo o botão alguma coisa sai errada".
Nos
dois anos seguintes, Capa encontrará a agitação que lhe faltava:
cobrirá a formação do novo Estado de Israel.
Capa
não foi somente um fotógrafo de guerra. Bon-vivant, amigo de
celebridades, dele falou Geraldine Fitzgerald: "Capa era extremamente
amável. Ele transmitia uma sensação profunda de alegria. Você tinha a
impressão de que ele queria compartilhar essa alegria... Parecia sempre
estar se divertindo, e as pessoas queriam estar junto dele e participar
dessa diversão".
Capa
registrou alguns momentos dessa amizade, em fotos de Ernest Hemingway,
Henri Matisse, Pablo Picasso, William Faulkner, Gary Cooper, Truman
Capote, Ingrid Bergman, entre outros.
No
imediato pós-guerra, Capa viveu em Paris atuando como presidente da
Magnum, a famosa agência de fotografia fundada por Henri Cartier-Bresson.
Em Paris, levou uma vida de glamour em meio a tardes no jóquei, noites em
boates com lindas mulheres e períodos de esqui na Suíca.
Em
1950, Capa segue para o Japão. Enquanto estava no Japão, explode a
guerra da Indochina. Capa parte para a zona de conflito. No dia 25 de
maio, acompanhando uma missão francesa encarregada de evacuar e destruir
dois pequenos fortes em duas localidades, pisa numa mina antimilitar e
morre. Estava com 41 anos.
Seu
irmão e também fotógrafo Cornell Capa tem sido responsável por seu
legado de maior fotógrafo de guerra do século XX.
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