Webjornal - Semanal - Edição 23 - Aracaju, 30  de março a 06 de abril de 2003
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Artigo

Fotógrafo de Guerra

Paulo Lima

Por ocasião de mais um conflito bélico mostrado à exaustão pelas grandes redes mundiais de TV, com tamanha precisão de detalhes como se estivéssemos presenciando um jogo de combate em tempo real, talvez seja oportuno lembrar o nome de Robert Capa, o primeiro fotojornalista a penetrar de fato numa zona de guerra. 

Num tempo ainda distante da moderna tecnologia digital, que permite que imagens cheguem às redações de jornais e revistas minutos após serem feitas, desde que se tenha uma linha telefônica e um laptop por perto, Capa foi consagrado o maior fotógrafo de guerra do mundo manuseando apenas suas inseparáveis Leica, a lendária câmera de fabricação alemã. 

Húngaro de nascimento, Capa mudou-se para Paris em 1934, já como fotojornalista. Em Paris viveu inicialmente grandes dificuldades materiais. Teve a fome atenuada graças à camaradagem de refugiados. Pouco depois conheceu  Gerda Taro, jovem alemã que se tornou sua amante e empresária.  

Na primavera de 1936, Capa fotografou uma série de tumultos nas ruas parisienses envolvendo a Frente Popular, uma coalizão de liberais, socialistas e comunistas. Essa cobertura lhe abriu as portas para a fama.

Em 1936 eclode a Guerra Civil Espanhola. As tropas fascistas do general Franco dão início a um ataque a Madri. O jornal francês Regards publica as primeiras fotos de Capa do cerco de Madri. As fotos são consideradas espetaculares. No mesmo ano, na Espanha, Gerda Taro, que acompanhava Capa, morre esmagada por um tanque.

Pertence a essa fase espanhola uma das mais famosas imagens de Capa: o momento em que um soldado legalista, em oposição às forças fascistas de Franco, é alvejado.

Com a morte de Gerda Taro, Capa viaja para Nova Iorque para visitar o irmão e a mãe. De lá segue para a China, onde tem a oportunidade de cobrir o conflito China-Japão. Além da devastação provocada pela guerra entre os dois países, Capa flagra momentos poéticos do cotidiano chinês, revelando na prática a sua máxima de vida e talvez a fórmula para o seu sucesso como fotógrafo: "Goste das pessoas e deixe que elas percebam que você gosta delas".

Em 1940 Capa está no México para cobrir a campanha presidencial e a eleição naquele país. Consideradas as mais tranqüilas da história daquele país, o dia marcado para as eleições, 7 de julho, deixou um saldo de trinta mortos e centenas de feridos na cidade do México.

Soa irônico que Robert Capa, considerado um fotógrafo de guerra, tenha sido enviado ao front de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial, somente em 1943. Em 1941, Capa estava em Londres devastada pelos sucessivos ataques aéreos da força aérea alemã. Foi somente em 1943 que Capa seguiu para o norte da África como fotógrafo e correspondente.

Na Itália, Capa fotografou a conquista da Sicília pelos aliados, cirscunstância que em muito lhe lembrou o cerco da cidade espanhola de Truel, durante a guerra civil naquele país. 

No dia 6 de junho 1944, Capa está na praia de Omaha, no litoral francês, no momento de desembarque da tropas aliadas, no chamado de dia D. Devemos a Capa as imagens dos soldados nadando em direção à praia, em imagens tecnicamente inferiores às que tinha realizado em outros conflitos, mas de inegável valor documental.

No final da Segunda Guerra, Capa está em Paris cobrindo as comemorações pela libertação francesa do domínio nazista. Nesse momento de final de conflito, Capa pula de pára-quedas sobre a Alemanha junto com tropas americanas. Semanas depois, Capa junta-se ao Primeiro Exército dos Estados Unidos na tomada de Leipzig, cidade natal de Gerda Taro.

Em 1947, Capa está nas terras da ex-União Soviética ao lado do escritor norte-americano John Steinbeck para juntos produzirem o livro "Um Diário Russo". Acostumado com as trepidações dos tempos de guerra, Capa reclama da tranqüilidade vigente em  território russo: "Não estou  nem um pouco satisfeito. Os 190 milhões de russos estão contra mim. Eles não se rebelam nas esquinas, não praticam cenas espetaculares de amor livre, não criam nenhum tipo de estilo novo; são um povo muito correto, moralista, trabalhador e, para um fotógrafo, isso é muito insípido, é feijão-com-arroz. Além disso, parecem gostar do modo russo de viver e não gostam de ser fotografados. Minhas quatro câmeras, acostumadas a guerras e rebeliões, estão revoltadas, e cada vez que disparo o botão alguma coisa sai errada". 

Nos dois anos seguintes, Capa encontrará a agitação que lhe faltava: cobrirá a formação do novo Estado de Israel. 

Capa não foi somente um fotógrafo de guerra. Bon-vivant, amigo de celebridades, dele falou Geraldine Fitzgerald: "Capa era extremamente amável. Ele transmitia uma sensação profunda de alegria. Você tinha a impressão de que ele queria compartilhar essa alegria... Parecia sempre estar se divertindo, e as pessoas queriam estar junto dele e participar dessa diversão". 

Capa registrou alguns momentos dessa amizade, em fotos de Ernest Hemingway, Henri Matisse, Pablo Picasso, William Faulkner, Gary Cooper, Truman Capote, Ingrid Bergman, entre outros.

No imediato pós-guerra, Capa viveu em Paris atuando como presidente da Magnum, a famosa agência de fotografia fundada por Henri Cartier-Bresson. Em Paris, levou uma vida de glamour em meio a tardes no jóquei, noites em boates com lindas mulheres e períodos de esqui na Suíca.

Em 1950, Capa segue para o Japão. Enquanto estava no Japão, explode a guerra da Indochina. Capa parte para a zona de conflito. No dia 25 de maio, acompanhando uma missão francesa encarregada de evacuar e destruir dois pequenos fortes em duas localidades, pisa numa mina antimilitar e morre. Estava com 41 anos.

Seu irmão e também fotógrafo Cornell Capa tem sido responsável por seu legado de maior fotógrafo de guerra do século XX.  


  

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