Webjornal - Semanal - Edição 25 - Aracaju,  20 de abril de 2003
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Artigo

Quem Mexeu no Meu Texto

Por Paulo Lima

Incluída como obrigatória na grade curricular dos cursos de Jornalismo, as disciplinas que tratam do bom uso da língua portuguesa e da acurada  produção textual constituem um formidável laboratório para aqueles que utilizarão o texto como ganha-pão e como instrumento de mediação entre a informação e o grande público. 

Longe, porém, de representar um desafio aceito de bom grado pelo alunado, o exercício do texto é motivo de querelas freqüentes em sala de aula. Em jogo, duas questões mais comuns: ou o professor fica a desejar,  e o  aluno acaba se arvorando na condição de vítima, ou o texto que o aluno submeteu ao professor é bom - o professor é que não captou a real intenção do autor. 

Na condição de estudante de Jornalismo, tenho presenciado esse tipo de discussão ad nauseaum em sala de aula. Algumas vezes, o circo por pouco não pegou fogo, tamanha a exaltação de ânimos entre pupilo e mestre. De um lado o estudante com o ego magoado, a esgrimir seu texto supostamente imaculado, ante à observação crítica do professor. Na outra extremidade, o professor a utilizar-se de todos os recursos de persuasão, tentando mostrar que o texto do noviço apresenta tais ou quais erros de coesão e coerência; tantos e quantos solecismos, pleonasmos, cacófatos e outros males da composição textual. 

Pode ser que às vezes o embate termine em happy end, com os litigantes entrando em acordo e fumando o cachimbo da paz. Porém, noutras situações, a vendeta está decretada, e aluno e professor trocarão juras de morte até o final do semestre.

Sem nenhuma intenção de atuar como juiz de paz nesse processo, trago à cena alguns exemplos que comprovam que as veredas do texto ocultam dificuldades, e que esse negócio de escrever não é fácil para ninguém, exceto para os incautos e para os ungidos auto-proclamados.  Então, se depender desses exemplos abalizados, podem lustrar as armas: a contenda entre professor e aluno vai continuar. 

Para Truman Capote - alguém aí tem dúvida quanto aos méritos desse escritor norte-americano? -, o corpo a corpo com a escrita começou cedo, lá pelo início da adolescência. Capote não sabia que estava se escravizando para o resto da vida. "Quando Deus dá um dom, também dá um chicote - e esse chicote se destina exclusivamente à nossa auto-flagelação", concluiu esse camaleão da literatura americana. Se escrever fosse simples como tomar um sorvete, para que ele haveria de dramatizar tanto?

Mas Truman Capote não era o único servo das palavras. Drummond confidenciou, a certa altura da sua carreira de poeta e escritor, que lutar com as palavras era uma luta vã, mas mesmo assim ele lutava com elas todas as manhãs.

Rubem Braga foi proclamado o sabiá da crônica. A honraria não foi concedida à toa: até hoje o texto límpido e poético do velho Braga é referência obrigatória nesse gênero, no Brasil. E como é que esse capixaba se saía dessa? Braga dizia que passava o dia burilando suas crônicas perfeitas. Engana-se quem pensa que elas brotavam de um jato, iluminadas e prontas para o consumo ávido dos leitores. A crônica enxuta de Rubem Braga era resultado de muita transpiração, vale dizer,  de trabalho.

Conta a viúva de Graciliano Ramos que "Vidas Secas", uma das obras-primas do escritor alagoano, era um calhamaço imenso em sua primeira versão. Graciliano, obcecado com a re-escritura dos seus textos, cortou tanto do romance que a esposa teve receio de que o livro fosse sumir, se alvo de mais uma revisão. Todos sabem que Graciliano Ramos era um obcecado pela concisão dos seus textos. Outro escritor não poderia ter pronunciado a frase que ele pronunciou: "Escrever é a arte de furar tábuas duras".

Mais evidências, mais evidências de que escrever não é moleza. Vamos a elas.

 "Hiroshima" (recém-lançada em livro no Brasil) é considerada a maior reportagem do século XX. O autor, o jornalista John Hersey, passou 1 ano na cidade recém-destruída pela primeiro bombardeio atômico da história. Levou mais 6 meses para escrever aquela que seria a reportagem de maior repercussão do New Yorker, revista na qual John Hersey trabalhava à época. Ao chegar em Nova Iorque, Hersey tratou de entregar o resultado do seu trabalhado ao seu editor. Tudo certo, tudo muito perfeito? Jeito maneira. O editor leu e sublinhou duzentos defeitos na reportagem de Hersey. Isso mesmo, duzentos, assim:  200!

Vamos em frente.

Hemingway, o velho Hem, como o chamavam os americanos, é considerado um dos maiores escritores contemporâneos de língua inglesa. Costumava escrever em pé, martelando furiosamente uma velha máquina de escrever (tinha problemas de coluna). No dia seguinte, ao perceber que algo lhe desagradava no texto produzido na noite anterior, rasgava a folha de papel e a jogava no lixo. Notem bem: tamanha era a exigência de Hemingway, que ele nem se dava ao trabalho de reescrever a porcaria que tinha escrito antes.

Mais, mais. 

Falam que Paulo Leminski, o faz-tudo das letras (era poeta, escritor, jornalista, tradutor e o que mais se imaginar), uma vez foi visitar o lendário intelectual Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento, que migrara para o Brasil fugindo do nazismo. No encontro,  Leminski submete um texto seu a Carpeaux. Do alto do seu olimpo de experiência e sabedoria, Carpeaux lê o texto e o põe de lado, sem dizer uma palavra. Sinal de que o texto devia estar uma droga. 

Para finalizar este ponto de vista, puxo da manga só mais uma carta: a experiência de Mário de Andrade. O mentor de meio mundo de grandes escritores brasileiros conta que levou 10 anos para dar por finalizado seu primeiro livro de contos.  

Não quero, com esses exemplos pinçados ao acaso da memória, dizer que é mais fácil achar uma agulha num palheiro do que escrever um texto que soe compreensível não só para o professor em sala de aula, mas também para os colegas e demais pessoas que venham ter acesso aos nossos argumentos escritos. Isso soaria como uma mistificação tola,  bem sabendo que há textos e textos, autores e autores. No entanto, é sempre bom lembrar que escrevemos para alguém mais, antes de escrever para nós mesmos. O ensaio da sala de aula é a nossa chance de acertarmos ou errarmos sem que alguém peça a nossa cabeça a prêmio ( o que fatalmente irá acontecer numa sala de redação, sob o crivo de um editor).  Resumo da ópera: vamos pôr a mão na massa e escrever. Afinal, como disse João Cabral de Melo Neto, mais vale o inútil do fazer do que do não fazer. 

Em tempo, João Cabral seguia um rigor quase matemático para com as palavras, mas essa é outra história. 


  

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