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Artigo
Quem Mexeu no Meu Texto
Por Paulo Lima
Incluída como obrigatória
na grade curricular dos cursos de Jornalismo, as disciplinas que tratam do
bom uso da língua portuguesa e da acurada produção textual
constituem um formidável laboratório para aqueles que utilizarão o
texto como ganha-pão e como instrumento de mediação entre a
informação e o grande público.
Longe, porém, de representar
um desafio aceito de bom grado pelo alunado, o exercício do texto é
motivo de querelas freqüentes em sala de aula. Em jogo, duas questões
mais comuns: ou o professor fica a desejar, e o aluno acaba se
arvorando na condição de vítima, ou o texto que o aluno submeteu ao
professor é bom - o professor é que não captou a real intenção do
autor.
Na condição de estudante de
Jornalismo, tenho presenciado esse tipo de discussão ad nauseaum em sala
de aula. Algumas vezes, o circo por pouco não pegou fogo, tamanha a
exaltação de ânimos entre pupilo e mestre. De um lado o estudante com o
ego magoado, a esgrimir seu texto supostamente imaculado, ante à
observação crítica do professor. Na outra extremidade, o professor a
utilizar-se de todos os recursos de persuasão, tentando mostrar que o
texto do noviço apresenta tais ou quais erros de coesão e coerência;
tantos e quantos solecismos, pleonasmos, cacófatos e outros males da
composição textual.
Pode ser que às vezes o
embate termine em happy end, com os litigantes entrando em acordo e
fumando o cachimbo da paz. Porém, noutras situações, a vendeta está
decretada, e aluno e professor trocarão juras de morte até o final do
semestre.
Sem nenhuma intenção de
atuar como juiz de paz nesse processo, trago à cena alguns exemplos que
comprovam que as veredas do texto ocultam dificuldades, e que esse
negócio de escrever não é fácil para ninguém, exceto para os incautos e para os ungidos auto-proclamados. Então, se
depender desses exemplos abalizados, podem lustrar as armas: a contenda
entre professor e aluno vai continuar.
Para Truman Capote - alguém
aí tem dúvida quanto aos méritos desse escritor norte-americano? -, o
corpo a corpo com a escrita começou cedo, lá pelo início da
adolescência. Capote não sabia que estava se escravizando para o resto
da vida. "Quando Deus dá um dom, também dá um chicote - e esse
chicote se destina exclusivamente à nossa auto-flagelação",
concluiu esse camaleão da literatura americana. Se escrever fosse simples
como tomar um sorvete, para que ele haveria de dramatizar tanto?
Mas Truman Capote não era o
único servo das palavras. Drummond confidenciou, a certa altura da sua
carreira de poeta e escritor, que lutar com as palavras era uma luta vã,
mas mesmo assim ele lutava com elas todas as manhãs.
Rubem Braga foi proclamado o
sabiá da crônica. A honraria não foi concedida à toa: até hoje o
texto límpido e poético do velho Braga é referência obrigatória nesse
gênero, no Brasil. E como é que esse capixaba se saía dessa? Braga
dizia que
passava o dia burilando suas crônicas perfeitas. Engana-se quem pensa que
elas brotavam de um jato, iluminadas e prontas para o consumo ávido dos
leitores. A crônica enxuta de Rubem Braga era resultado de muita
transpiração, vale dizer, de trabalho.
Conta a viúva de Graciliano
Ramos que "Vidas Secas", uma das obras-primas do escritor
alagoano, era um calhamaço imenso em sua primeira versão. Graciliano,
obcecado com a re-escritura dos seus textos, cortou tanto do romance que a
esposa teve receio de que o livro fosse sumir, se alvo de mais uma
revisão. Todos sabem que Graciliano Ramos era um obcecado pela concisão
dos seus textos. Outro escritor não poderia ter pronunciado a frase que
ele pronunciou: "Escrever é a arte de furar tábuas duras".
Mais evidências, mais
evidências de que escrever não é moleza. Vamos a elas.
"Hiroshima"
(recém-lançada em livro no Brasil) é considerada a maior reportagem do século XX. O autor, o
jornalista John Hersey, passou 1 ano na cidade recém-destruída pela
primeiro bombardeio atômico da história. Levou mais 6 meses para
escrever aquela que seria a reportagem de maior repercussão do New
Yorker, revista na qual John Hersey trabalhava à época. Ao chegar em Nova
Iorque, Hersey tratou de entregar o resultado do seu trabalhado ao seu
editor. Tudo certo, tudo muito perfeito? Jeito maneira. O editor leu e
sublinhou duzentos defeitos na reportagem de Hersey. Isso mesmo, duzentos,
assim: 200!
Vamos em frente.
Hemingway, o velho Hem, como
o chamavam os americanos, é considerado um dos maiores escritores
contemporâneos de língua inglesa. Costumava escrever em pé, martelando
furiosamente uma velha máquina de escrever (tinha problemas de coluna).
No dia seguinte, ao perceber que algo lhe desagradava no texto produzido
na noite anterior, rasgava a folha de papel e a jogava no lixo. Notem
bem: tamanha era a exigência de Hemingway, que ele nem se dava ao trabalho
de reescrever a porcaria que tinha escrito antes.
Mais, mais.
Falam que Paulo Leminski, o
faz-tudo das letras (era poeta, escritor, jornalista, tradutor e o que
mais se imaginar), uma vez foi visitar o lendário intelectual Otto Maria
Carpeaux, austríaco de nascimento, que migrara para o Brasil fugindo do
nazismo. No encontro, Leminski submete um texto seu a Carpeaux. Do alto do
seu olimpo de experiência e sabedoria, Carpeaux lê o texto e o põe de
lado, sem dizer uma palavra. Sinal de que o texto devia estar uma droga.
Para finalizar este ponto de
vista, puxo da manga só mais uma carta: a experiência de Mário de
Andrade. O mentor de meio mundo de grandes escritores brasileiros conta
que levou 10 anos para dar por finalizado seu primeiro livro de
contos.
Não quero, com esses
exemplos pinçados ao acaso da memória, dizer que é mais fácil achar
uma agulha num palheiro do que escrever um texto que soe compreensível
não só para o professor em sala de aula, mas também para os colegas e
demais pessoas que venham ter acesso aos nossos argumentos escritos. Isso
soaria como uma mistificação tola, bem sabendo que há textos e
textos, autores e autores. No entanto, é sempre bom lembrar que
escrevemos para alguém mais, antes de escrever para nós mesmos. O ensaio
da sala de aula é a nossa chance de acertarmos ou errarmos sem que
alguém peça a nossa cabeça a prêmio ( o que fatalmente irá acontecer
numa sala de redação, sob o crivo de um editor). Resumo da ópera:
vamos pôr a mão na massa e escrever. Afinal, como disse João Cabral de
Melo Neto, mais vale o inútil do fazer do que do não fazer.
Em tempo, João
Cabral seguia um rigor quase matemático para com as palavras, mas essa é
outra história.
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