Webjornal - Semanal - Edição 26 - Aracaju,  27 de abril de 2003
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Artigo

O Burlesco e o Domingo na TV 

Por Paulo Lima

No famoso musical My Fair Lady, baseado na peça "Pigmalião", do dramaturgo e crítico irlandês George Bernard Shaw, um professor de inglês encontra ao acaso uma florista  na vitoriana  Inglaterra de 1912. Capaz de distinguir a origem de um compatriota a metros de distância somente pelo sotaque e trejeitos da fala, o professor logo identifica a origem humilde da moça e decide apostar na sua transformação, mudando-lhe os modos de vestir, falar e se comportar. Em Shaw, a dramaturgia era um pretexto para espirituosos diálogos de crítica social. A metamorfose da vendedora de flores, embora bem sucedida,  não passa de um desiderato do dramaturgo, na ultra-rígida sociedade inglesa de então, com seus irremediáveis párias. 

Mantidas as devidas distâncias e proporções, a utopia de Shaw segue rediviva em releituras  contemporâneas, devidamente adaptadas para o appeal mediano da cultura de massa. Não é outro o mote de filmes como "Uma Linda Mulher", em que uma garota de programas (Júlia Roberts) se enamora do seu príncipe libertador (Richard Gere). A trama é bem conhecida, e convém sublinhar apenas a lufada de puritanismo e de redenção hipócrita presentes nas intenções do diretor do filme: mediante a boa ação de um gentil cavalheiro, uma alma perdida se redime e consegue deixar o bas fond no qual vivia. 

O tatibitati hollywoodiano não termina, no entanto, na história da linda mulher. Lançado recentemente, o filme "Encontro de Amor" revive mais uma vez o espírito de My Fair Lady. Um político (Ralph Fiennes) às vésperas da corrida para o senado americano conhece e se encanta com uma camareira (Jennifer Lopez)  de um luxuoso hotel, situado no coração de Nova Iorque. Contrariamente à história de "Uma Linda Mulher", o personagem de Fiennes desconhece a origem social da empregada do hotel, e o romance redentor segue rendendo promessas e suspiros de ambas as partes. 

Esse complexo de My Fair Lady não habita somente a tela grande. Ele parece escorrer da fantasia de Hollywood e respingar abaixo do Equador, mais exatamente na programação domingueira da nossa TV, em programas que prometem aos seus participantes a realização de um sonho há muito almejado. No bojo desse sonho está o abandono de uma vida de penúria.

O "Domingo Legal", apresentado por Gugu Liberato no  SBT, é um desses programas. Em um de seus quadros,  "Um Dia de Princesa", a telespectadora cuja carta for contemplada em sorteio terá direito a viver um dia especial, ao lado do seu artista favorito. No roteiro de sonho, o artista dirige-se numa limusine até a casa da princesa, que invariavelmente mora lá onde Judas perdeu as botas. A casa, que dizem que é um lar, é paupérrima. No momento do tête-à-tête da princesa com o ídolo,  conhece-se  a história pouco edificante da escolhida: marido desempregado, contas atrasadas, uma criança que está a caminho, doenças na família, e todo um rosário de miséria.

A princesa é então conduzida ao carrão e toma o rumo da metamorfose. A primeira parada é num salão de beleza bacana de São Paulo. Depois ela segue para um banho de loja numa butique de um shopping center qualquer. Num vapt-vupt,  a princesa se transforma. Nova tomada:  agora ela está num restaurante chique ao lado do sorridente astro-príncipe. No jantar à luz de velas e ao som de suaves cascatas,  nada que comprometa o fake do encontro, mas ainda assim a princesa sorri e parece crer na quimera.

Tomada final: a princesa é reconduzida à cozinha do castelo, à sua casa distante e pobre, de onde jamais saíra. Ela irá degustar as lembranças de um único dia, acreditando na sua fantasia, na ilusão de ter provado o gosto de uma realidade que nunca lhe pertencerá.     

Mistura de espetacularização e engodo, esse tipo de  quadro não passa de uma maldade. Nela, os remediados, num singelo dia,  saciam  a fome de toda uma vida. E depois? Retornam para a sua origem, para a "quebrada da soleira". O burlesco do programa,  fortalecido por exploração de tragédias fortuitas, exibicionismos, sacanagem, freaks e o que mais vier, certamente renderá pontos no Ibope. Sob a escusa de propiciar um momento de felicidade aos necessitados,  quadros como esse do "Domingo Legal" não vão além da exploração pura e simples da ingenuidade de pessoas que, não suportando mais a pobreza, imaginam vencê-la, nem que seja na ilusória materialidade de um sonho.   

 

  

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