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Artigo
Doença Grave, Imprensa Amena
Por Paulo Lima
A doença da vez que está
tirando o sono de dez entre dez chineses já atende por um nome ou dois.
Trata-se da pneumonia asiática ou SARS, síndrome respiratória grave, na
sigla em inglês. Embora os veículos de mídia, no Brasil, divirjam
quanto ao uso de uma outra terminologia, o discurso existe e
consagrou-se num tempo relativamente curto. Mais longo e tortuoso foi o
caminho percorrido pela Aids. Quando surgiu, nos anos 80, a síndrome da
imunodeficiência adquirida era uma grande incógnita, e por isso
necessitou de um tempo maior para obter o nome de batismo que lhe
consagrou a imprensa e os meios científicos.
Apesar do rótulo rápido e
da gravidade da situação, a primeira epidemia deste século vem sendo
tratada de forma meramente estatística pela grande imprensa,
especialmente no Brasil, como se se tratasse mais de uma corrida para
saber quem chega primeiro e mais rápido ao maior score.
Essa forma pontual e
descontextualizada da informação pouco contribui para responder
questões vitais sobre o curso da doença, sua provável evolução e suas
fatídicas conseqüências não somente para a economia dos países mais
atingidos pela síndrome até o momento, China e Canadá, como
também para outros países.
O reducionismo beira o
paroxismo especialmente no noticiário pontocom, constantemente atualizado
a cada novo caso que surge nas plagas chinesas ou alhures, dando mais a
dimensão de um dinâmico placar esportivo e menos a fonte de informação
que permita uma maior reflexão sobre a doença. Mas o vezo não é só
internético - antes o fosse, e até seria compreensível, dada a
instantaneidade dessa mídia.
Igualmente, o diarismo
impresso carece da mesma amenidade. Tomemos as edições de 2 de maio de
três jornalões impressos no Brasil, os três maiores, conforme
critérios consagrados etc., etc. A Folha de São Paulo
noticiou que as festividades do dia do trabalho na China foram
limitadas pela presença da doença. Ora, com chineses adotando uma burca ad
hoc para se defenderem do contágio - imagem que lembra em muito a
fase anti-micróbio de Michael Jackson -, não era de se esperar que a
população fosse se acotovelar na Praça Celestial, em Pequim, para
agitar lencinhos.
Como soe ser, a matéria da Folha
é pródiga em números indicando o recrudescimento da epidemia através
de novos casos em localidades da China e também do Canadá.
Já o Globo, até onde
chegou a percepção deste observador, nada noticiou em capa sobre a
pneumonia na Ásia, lembrando que a consulta foi efetuada nas edição
online daquele periódico. A síndrome foi ganhar espaço no caderno de
Ciências, com o anúncio da descoberta do vírus nas fezes e urina de
pessoas que já estavam recuperadas da doença.
Também o Estadao nada
informou sobre a SARS em suas manchetes de capa. A pneumonia foi
enfocada em matéria interna no caderno Mundo, e cujo teor girou em torno
da mutabilidade do vírus.
Semelhante tratamento sobre
as alterações do vírus foi dado pela Folha em seu caderno de
Ciências. Comparando o que está dito na Folha e o que consta no Estadao
sobre o assunto, poderíamos concluir que tanto faz chamar Chico como
Francisco. Leu um, leu o outro, sinal de que esse tipo de pasteurização
deixa de ser apenas um atributo dos cadernos culturais, como se
imaginava.
Posto isto, e insistindo o
nosso diarismo impresso na mera contabilização do avanço da síndrome,
ficarão sem respostas algumas perguntas pertinentes a essa nova maladia.
Formulemos algumas: a) que conseqüências advirão para a economia da
China, epicentro atual da doença, com esse novo elemento desestabilizador
na região? b) qual a possibilidade de erradicação da doença nos
próximos meses ou anos, e o respectivo custo? c) quais são as
perspectivas da sua evolução? d) o que aconteceria se a doença
invadisse em proporções endêmicas a nossa Pindorama (essa aí não é
tão difícil responder)?
A revista The Economist,
em sua edição online de 01 de maio, se reporta en passant à
primeira questão. Diz a matéria que, enquanto a SARS se estabilizou num
certo patamar fora das fronteiras chinesas, seus efeitos econômicos
continuam a avançar pela China e além. Continua a matéria: "Parece
que a expansão da doença foi contida em Hong Kong, Vietnã, Singapura e
em Toronto, no Canadá - os primeiros locais fora da China a serem
afetados. Contudo, enquanto há sinais de esperança
de que o avanço global da doença tenha sido diagnosticado, seus efeitos
sobre economias e negócios, especialmente na Ásia, somente agora estão
se tornando conhecidos".
A
Economist reporta que os efeitos da SARS no importante nicho da
indústria do turismo na Ásia já provocaram o cancelamento, por exemplo,
de 40 a 45% dos vôos diários para Hong Kong só em uma semana.
Operadoras de turismo na região acreditam em perdas de 3 milhões de
dólares ao dia, em função da epidemia.
Essas
e outras informações não estão incluídas, infelizmente, no cardápio
diário dos nossos periódicos. Sobre a imprensa verde e amarela, não pensemos ainda como Francis
Bacon, para quem o mister da ciência seria conhecer as causas e o
movimento secreto das coisas. Não esperemos tanto da mídia, mas que ela
nos deve um pouco mais além do trivial ligeiro, no caso da
pneumonia asiática, isso deve sim.
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