Webjornal - Semanal - Edição 27 - Aracaju,  04 de maio  de 2003
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Artigo

Doença Grave, Imprensa Amena 

Por Paulo Lima

A doença da vez que está tirando o sono de dez entre dez chineses já atende por um nome ou dois. Trata-se da pneumonia asiática ou SARS, síndrome respiratória grave, na sigla em inglês. Embora os veículos de mídia, no Brasil,  divirjam quanto ao uso de uma outra terminologia, o discurso existe e  consagrou-se num tempo relativamente curto. Mais longo e tortuoso foi o caminho percorrido pela Aids. Quando surgiu, nos anos 80, a síndrome da imunodeficiência adquirida era uma grande incógnita,  e por isso necessitou de  um tempo maior para obter o nome de batismo que lhe consagrou a imprensa e os meios científicos.

Apesar do rótulo rápido e da gravidade da situação, a primeira epidemia deste século vem sendo tratada de forma meramente estatística pela grande imprensa, especialmente no Brasil, como se se tratasse mais de uma corrida para saber quem chega primeiro e mais rápido ao maior score

Essa forma pontual e descontextualizada da informação pouco contribui para responder questões vitais sobre o curso da doença, sua provável evolução e suas fatídicas conseqüências não somente para a economia dos países mais atingidos pela síndrome até o momento, China e Canadá, como também  para outros países.      

O reducionismo beira o paroxismo especialmente no noticiário pontocom, constantemente atualizado a cada novo caso que surge nas plagas chinesas ou alhures, dando mais a dimensão de um dinâmico placar esportivo e menos a fonte de informação que permita uma maior reflexão sobre a doença. Mas o vezo não é só internético - antes o fosse, e até seria compreensível,  dada a instantaneidade dessa mídia.

Igualmente, o diarismo impresso carece da mesma amenidade. Tomemos as edições de 2 de maio de três jornalões impressos no Brasil, os três maiores, conforme critérios consagrados etc., etc.   A Folha de São Paulo noticiou  que as festividades do dia do trabalho na China foram limitadas pela presença da doença. Ora, com chineses adotando uma burca ad hoc para se defenderem do contágio - imagem que lembra em muito a fase anti-micróbio de Michael Jackson -, não era de se esperar que a população fosse se acotovelar na Praça Celestial, em Pequim,  para agitar lencinhos.  

Como soe ser, a matéria da Folha é pródiga em números indicando o recrudescimento da epidemia através de novos casos em localidades da China e também do Canadá. 

Já o Globo, até onde chegou a percepção deste observador, nada noticiou em capa  sobre a pneumonia na Ásia, lembrando que a consulta foi efetuada nas edição online daquele periódico. A síndrome foi ganhar espaço no caderno de Ciências, com o anúncio da descoberta do vírus nas fezes e urina de pessoas que já estavam recuperadas da doença. 

Também o Estadao nada informou sobre a SARS em suas manchetes de capa.  A pneumonia foi enfocada em matéria interna no caderno Mundo, e cujo teor girou em torno da mutabilidade do vírus.   

Semelhante tratamento sobre as alterações do vírus foi dado pela Folha em seu caderno de Ciências. Comparando o que está dito na Folha e o que consta no Estadao sobre o assunto, poderíamos concluir que tanto faz chamar Chico como Francisco. Leu um, leu o outro, sinal de que esse tipo de pasteurização deixa de ser apenas um atributo dos cadernos culturais, como se imaginava. 

Posto isto, e insistindo o nosso diarismo impresso na mera contabilização do avanço da síndrome, ficarão sem respostas algumas perguntas pertinentes a essa nova maladia. Formulemos algumas: a) que conseqüências advirão para a economia da China, epicentro atual da doença, com esse novo elemento desestabilizador na região? b) qual a possibilidade de erradicação da doença nos próximos meses ou anos, e o respectivo custo? c) quais são as perspectivas da sua evolução? d) o que aconteceria se a doença invadisse em proporções endêmicas a nossa Pindorama (essa aí não é tão difícil responder)?

A revista The Economist, em sua edição online de 01 de maio, se reporta  en passant à primeira questão. Diz a matéria que, enquanto a SARS se estabilizou num certo patamar fora das fronteiras chinesas, seus efeitos econômicos continuam a avançar pela China e além. Continua a matéria: "Parece que a expansão da doença foi contida em Hong Kong, Vietnã, Singapura e em Toronto, no Canadá - os primeiros locais fora da China a serem afetados. Contudo, enquanto há sinais de esperança de que o avanço global da doença tenha sido diagnosticado, seus efeitos sobre economias e negócios, especialmente na Ásia, somente agora estão se tornando conhecidos".

A Economist reporta que os efeitos da SARS no importante nicho da indústria do turismo na Ásia já provocaram o cancelamento, por exemplo, de 40 a 45% dos vôos diários para Hong Kong só em uma semana. Operadoras de turismo na região acreditam em perdas de 3 milhões de dólares ao dia, em função da epidemia. 

Essas e outras informações não estão incluídas, infelizmente, no cardápio diário dos nossos periódicos. Sobre a imprensa verde e amarela, não pensemos ainda como Francis Bacon, para quem o mister da ciência seria conhecer as causas e o movimento secreto das coisas. Não esperemos tanto da mídia, mas que ela nos deve um pouco mais  além do trivial ligeiro, no caso da pneumonia asiática, isso deve sim.

 

  

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