Quem quiser saber de vida inteligente, aprofundamento de informação e
reflexão sobre a geléia geral contemporânea, então que dê tratos à
bola e vá procurá-las longe do écran luminoso de um aparelho de
televisão. Não é mister da caixinha de fazer doido fomentar mergulhos
abissais nas searas do conhecimento, seja ele de que tipo for. No
cardápio diário do planeta TV, servem-se somente nacos do cotidiano
novidadeiro e voraz. E nesse cardápio, mais das vezes, os
temas relacionados com a cultura ficam de fora ou ocupam senão fatias de
espaços marginais nas grades de programação.
Esta generalização, como de
resto toda e qualquer consideração que tome o particular pelo todo,
está sujeita a injustiças. Aqui e ali, pode-se vislumbrar algumas ilhas
de excelência que se reportam exatamente à cultura e, às vezes, mais
especificamente à literatura, apesar de se tratar de um assunto
normalmente representado pelo nefasto traço nas pesquisas de audiência,
diferentemente de novelas, telejornais, talk-shows e programas de
auditório.
Não é para menos. Com a
crítica literária escanteada dos cadernos culturais dos jornalões
impressos, outrora redutos de combativos jornalistas com destacado background
cultural, e a conseqüente pasteurização do que sobrou,
permaneceram umas poucas trincheiras do mainstream cultural impresso
(cito de passagem as revistas Cult e Bravo!) a tratar
do assunto, e uma plêiade de esforços menores, situados em diversas
regiões do Brasil que, embora possam vir a ser bem sucedidos nos rincões
em que atuam, estão distantes, infelizmente, de atingir um público
maior.
Some-se a essas dificuldades de
divulgação da literatura no Brasil os preços estratosféricos dos
nossos livros, decorrentes das baixas tiragens das edições etc.etc.
É nesse cenário pouco
alvissareiro que merece registro o esforço da TV Senac, de São Paulo, ao
veicular duas vezes na semana, com as reprises de praxe, o programa Literatura. Com poucos
recursos visuais e apresentado por Ricardo Soares,
o programa logra êxito ao combinar o mínimo de recursos com o máximo de
criatividade.
Dividido em dois tempos de trinta
minutos cada, o programa reserva um bloco para cada entrevistado,
normalmente um escritor com livro recém-lançado na praça ou alvo de
homenagens especiais, como foi o caso recente de Ariano Suassuna. No decorrer da
entrevista, é enfocado tanto o livro de safra recente do autor, como todo
o restante da sua lavra.
Reside aí um dos grandes
diferenciais do Literatura sobre os poucos programas semelhantes no
gênero, como o Espaço Aberto, da Globo News, atualmente apresentado pelo
jornalista Edney Silvestre, e as investidas culturais de André Abujamra e
Sérgio Brito, ambos na TV Cultura, em horários e dias
diferentes.
O outro diferencial está na
leitura de trechos selecionados da obra mais recente de cada autor - leitura, diga-se de passagem, muitíssimo bem conduzida
por um ator e uma atriz de impecáveis recursos dramáticos.
Pelo Literatura já desfilaram não somente escritores, como também
jornalistas, filósofos e historiadores, compondo um portfólio rico e
variado tanto de autores consagrados como de estreantes.
Como explicar o sucesso de um programa com produção tão
modesta? Talvez a "química" do Literatura resida na
simplicidade da sua estrutura, como aliás ocorre com todos os achados
geniais. Ao mesclar boa prosa à la talk-show com informações relevantes
sobre literatura e arte, o programa se distancia dos poucos concorrentes.
Mas a combinação de bate papo com informação é um apanágio também dos demais
programas do gênero.
Onde está o diferencial do Literatura? Talvez no estilo de Ricardo Soares,
uma espécie de
anti-modelo do apresentador de TV, se considerado o costumeiro look
que pontua o padrão visto no
écran. Vestido como um colegial, o âncora do Literatura proseia com o
entrevistado como se ambos conversassem numa mesa de botequim. O resultado não
poderia ser mais agradável para quem assiste ao
programa.
Mas, se essas razões, por assim dizer, midiáticas não explicam a
boa fortuna do Literatura, só nos resta zapear em sua direção e
usufruí-lo, sem mais delongas ou porquês.
Parodiando o velho Monteiro Lobato, um país se faz com homens, livros e uma
mídia à altura dessa veleidade iluminista. Seguramente o Literatura da
TV Senac está contribuindo para a ampliação desses horizontes.