Webjornal - Semanal - Edição 28 - Aracaju,  11 e 18 de maio  de 2003
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Artigo

Literatura e o Seu Espaço na TV 

Por Paulo Lima

Quem quiser saber de vida inteligente, aprofundamento de informação e reflexão sobre a geléia geral contemporânea, então que dê tratos à bola e vá procurá-las longe do écran luminoso de um aparelho de televisão. Não é mister da caixinha de fazer doido fomentar mergulhos abissais nas searas do conhecimento, seja ele de que tipo for. No cardápio diário do planeta TV, servem-se somente nacos do cotidiano novidadeiro e voraz.  E nesse cardápio,  mais das vezes, os temas relacionados com a cultura ficam de fora ou ocupam senão fatias de espaços marginais nas grades de programação.  

Esta generalização, como de resto toda e qualquer consideração que tome o particular pelo todo, está sujeita a injustiças. Aqui e ali, pode-se vislumbrar algumas ilhas de excelência que se reportam exatamente à cultura e, às vezes, mais especificamente à literatura, apesar de se tratar de um assunto normalmente representado pelo nefasto traço nas pesquisas de audiência, diferentemente de novelas, telejornais, talk-shows e programas de auditório.     

Não é para menos. Com a crítica literária escanteada dos cadernos culturais dos jornalões impressos, outrora redutos de combativos jornalistas com destacado background cultural,  e a conseqüente pasteurização do que sobrou,  permaneceram umas poucas trincheiras do mainstream cultural impresso (cito de passagem as revistas CultBravo!) a tratar do assunto, e uma plêiade de esforços menores, situados em diversas regiões do Brasil que, embora possam vir a ser bem sucedidos nos rincões em que atuam, estão distantes, infelizmente, de atingir um público maior. 

Some-se a essas dificuldades de divulgação da literatura no Brasil os preços estratosféricos dos nossos livros, decorrentes das baixas tiragens das edições etc.etc.

É nesse cenário pouco alvissareiro que merece registro o esforço da TV Senac, de São Paulo, ao veicular duas vezes na semana, com as reprises de praxe,  o programa Literatura.  Com poucos recursos visuais e apresentado por Ricardo Soares, o programa logra êxito ao combinar o mínimo de recursos com o máximo de criatividade.

Dividido em dois tempos de trinta minutos cada, o programa reserva  um bloco para cada entrevistado, normalmente um escritor com livro recém-lançado na praça ou alvo de homenagens especiais, como foi o caso recente de Ariano Suassuna. No decorrer da entrevista, é enfocado tanto o livro de safra recente do autor, como todo o restante da sua lavra.

Reside aí um dos grandes diferenciais do Literatura sobre os poucos programas semelhantes no gênero, como o Espaço Aberto, da Globo News, atualmente apresentado pelo jornalista Edney Silvestre, e as investidas culturais de André Abujamra e Sérgio Brito, ambos na TV Cultura, em horários e dias diferentes. 

O outro diferencial está na leitura de trechos selecionados da obra mais recente de cada autor - leitura, diga-se de passagem, muitíssimo bem conduzida por um ator e uma atriz de impecáveis  recursos dramáticos.  

Pelo Literatura já desfilaram não somente escritores, como também jornalistas, filósofos e historiadores, compondo um portfólio rico e variado tanto de autores consagrados como de estreantes. 

Como explicar o sucesso  de um programa com produção tão modesta? Talvez a "química" do Literatura  resida na simplicidade da sua estrutura, como aliás ocorre com todos os achados geniais. Ao mesclar boa prosa à la talk-show com informações relevantes sobre literatura e arte, o programa se distancia dos poucos concorrentes. Mas a combinação de bate papo com informação é um apanágio também dos demais programas do gênero. 

Onde está o diferencial do Literatura? Talvez no estilo de Ricardo Soares, uma espécie de anti-modelo do apresentador de TV, se considerado o costumeiro look que pontua o padrão visto no écran. Vestido como um colegial, o âncora do Literatura proseia com o entrevistado como se ambos conversassem numa mesa de botequim. O resultado não poderia ser mais agradável para quem assiste ao programa.   

Mas, se essas razões, por assim dizer,  midiáticas não explicam a boa fortuna do Literatura, só nos resta zapear em sua direção e usufruí-lo, sem mais delongas ou porquês.    

Parodiando o velho Monteiro Lobato, um país se faz com homens, livros e uma mídia à altura dessa veleidade iluminista. Seguramente o Literatura da TV Senac está contribuindo para a ampliação desses horizontes. 

  

  

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