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Artigo
Fenômeno S/A
Por Paulo Lima
O
futebol como paixão cedeu lugar há muito tempo ao futebol empresa. Afora
as patriotadas daqueles que ainda enxergam no nosso plantel verde-amarelo
o típico representante da pátria de chuteiras, o futebol não é mais o
mesmo do tempo em que se corria atrás da pelota por puro amor à camisa. Levando-se
em conta que a data da chegada do football à nossa Pindorama já
remonta ao século passado, graças ao interesse de Charles Muller, filho
de ingleses - como se sabe, o futebol nasceu nos gramados da velha
Inglaterra -, a sua transformação em negócio milionário é
relativamente recente, com a revoada dos primeiros craques brasileiros
para a Itália, na década de 80 do século passado.
Temos
pelo menos dois precedentes desse fenômeno. O primeiro diz respeito ao
craque Amarildo, da seleção brasileira de 1962, que ao final daquele
campeonato tomou os caminhos de Roma. Duas décadas mais tarde, foi a vez
de Falcão seguir o mesmo caminho, para ser aclamado o “Rei de Roma”.
Já nos distantes 1970, Pelé seguiu para os States, para lá
plantar a semente do soccer.
Das anedóticas pernas tortas de Garrincha até os craques
papo-cabeça como Afonsinho e os donjuanescos como Paulo César Caju,
passando pela folclórica "elegance" do Dr. Sócrates, o futebol
brasileiro era até então um celeiro de personagens ricos em habilidades
extra-campo, porém pobres no quesito vil metal. Os hoje tão cobiçados dólares
do futebol europeu, japonês e árabes ainda eram futuro.
Transnacionalizado,
o futebol hoje é movido a transferências milionárias interclubes e
influência desmedida de multinacionais como a Nike, que passaram a ditar
os rumos do velho esporte bretão. Ou alguém aí já esqueceu do episódio
de Ronaldinho, o fenômeno, sendo sacrificado na arena de Paris?
Se
assim caminha o futebol, pouco sentido ou nenhum haveria em se manter a
convocação da constelação de estrelas brasileiras, atuando em milionários
clubes do exterior, para integrar o selecionado brasileiro, sob a capa de
que estariam defendendo as cores brasileiras. Essa é uma conversa que só
convence hoje à velhinha de Taubaté e à sentimental patuléia que vê
no futebol a sua escassa e única diversão.
Futebol
hoje é negócio como qualquer outro, um business que tem feito a
fortuna rápida de garotos pobres do subúrbio, cujo emblema maior
é o próprio Ronaldinho. Nada
mais elementar que assim seja. E o grande passaporte para o aspirante ao
estrelato é compor a vitrine da seleção brasileira. Esse tem sido o
natural caminho para muitos jogadores brasileiros – e disso podemos ter
certeza: somos um inesgotável celeiro de grandes talentos.
A
questão é que, para o grande público, e principalmente graças aos auspícios
da mídia grande, a visão que tenta se passar é o momento do nosso
selecionado em campo simbolizaria uma espécie de trégua na guerra em que
vive mergulhada a sociedade brasileira. Seleção em campo significa nada
menos do que o nosso cessar-fogo. A família brasileira une-se em contrição,
por amor e devoção aos seus jogadores.
Sorry,
periferia, mas o mito da pátria de chuteiras é mais um que, somado a
outros tantos mitos no Brasil– como o de que vivemos numa democracia
racial, de que somos o país do futuro, de que Deus é brasileiro –
confunde mais do que explica.
A
cada nova formação da seleção brasileira, renova-se a discussão:
chamar ou não chamar os jogadores que atuam além-mar? Ora, contar ou não
contar com esses afortunados não é bem a questão. O que está em jogo
– sem trocadilho – é o sentido simbólico do escrete canarinho,
enquanto representante da nação verde-amarela, sabendo-se que é uma
logomarca a mais na camisa a real motivação desse vetusto esporte, hoje
em dia.
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