Webjornal - Semanal - Edição 29 - Aracaju,  25  de maio  de 2003
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Artigo

Fenômeno S/A 

Por Paulo Lima


O futebol como paixão cedeu lugar há muito tempo ao futebol empresa. Afora as patriotadas daqueles que ainda enxergam no nosso plantel verde-amarelo o típico representante da pátria de chuteiras, o futebol não é mais o mesmo do tempo em que se corria atrás da pelota por puro amor à camisa.  Levando-se em conta que a data da chegada do football à nossa Pindorama já remonta ao século passado, graças ao interesse de Charles Muller, filho de ingleses - como se sabe, o futebol nasceu nos gramados da velha Inglaterra -, a sua transformação em negócio milionário é relativamente recente, com a revoada dos primeiros craques brasileiros para a Itália, na década de 80 do século passado.

Temos pelo menos dois precedentes desse fenômeno. O primeiro diz respeito ao craque Amarildo, da seleção brasileira de 1962, que ao final daquele campeonato tomou os caminhos de Roma. Duas décadas mais tarde, foi a vez de Falcão seguir o mesmo caminho, para ser aclamado o “Rei de Roma”.  Já nos distantes 1970, Pelé seguiu para os States, para lá plantar a semente do soccer.

 Das anedóticas pernas tortas de Garrincha até os craques papo-cabeça como Afonsinho e os donjuanescos como Paulo César Caju, passando pela folclórica "elegance" do Dr. Sócrates, o futebol brasileiro era até então um celeiro de personagens ricos em habilidades extra-campo, porém pobres no quesito vil metal. Os hoje tão cobiçados dólares do futebol europeu, japonês e árabes ainda eram futuro.

Transnacionalizado, o futebol hoje é movido a transferências milionárias interclubes e influência desmedida de multinacionais como a Nike, que passaram a ditar os rumos do velho esporte bretão. Ou alguém aí já esqueceu do episódio de Ronaldinho, o fenômeno, sendo sacrificado na arena de Paris?

Se assim caminha o futebol, pouco sentido ou nenhum haveria em se manter a convocação da constelação de estrelas brasileiras, atuando em milionários clubes do exterior, para integrar o selecionado brasileiro, sob a capa de que estariam defendendo as cores brasileiras. Essa é uma conversa que só convence hoje à velhinha de Taubaté e à sentimental patuléia que vê no futebol a sua escassa e única diversão.

Futebol hoje é negócio como qualquer outro, um business que tem feito a fortuna rápida de garotos  pobres do subúrbio, cujo emblema maior é o próprio Ronaldinho.  Nada mais elementar que assim seja. E o grande passaporte para o aspirante ao estrelato é compor a vitrine da seleção brasileira. Esse tem sido o natural caminho para muitos jogadores brasileiros – e disso podemos ter certeza: somos um inesgotável celeiro de grandes talentos.

A questão é que, para o grande público, e principalmente graças aos auspícios da mídia grande, a visão que tenta se passar é o momento do nosso selecionado em campo simbolizaria uma espécie de trégua na guerra em que vive mergulhada a sociedade brasileira. Seleção em campo significa nada menos do que o nosso cessar-fogo. A família brasileira une-se em contrição, por amor e devoção aos seus jogadores.

Sorry, periferia, mas o mito da pátria de chuteiras é mais um que, somado a outros tantos mitos no Brasil– como o de que vivemos numa democracia racial, de que somos o país do futuro, de que Deus é brasileiro – confunde mais do que explica.

A cada nova formação da seleção brasileira, renova-se a discussão: chamar ou não chamar os jogadores que atuam além-mar? Ora, contar ou não contar com esses afortunados não é bem a questão. O que está em jogo – sem trocadilho – é o sentido simbólico do escrete canarinho, enquanto representante da nação verde-amarela, sabendo-se que é uma logomarca a mais na camisa a real motivação desse vetusto esporte, hoje em dia.

  

  

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