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Artigo
Aí Vem a Reforma
Por Paulo Lima
Alternando-se
nos holofotes da mídia com outros tópicos eleitos como prioritários no
governo Lula, a reforma da Previdência está
a dois passos de ser aprovada. Embora alvo de intensas discussões
acadêmicas e de acalorados embates parlamentares, a questão parece não
ter despertado a reação organizada dos mais interessados no assunto, os
trabalhadores.
O tema não é prerrogativa somente dos tristes trópicos. Como se
fosse uma vaga varrendo o planeta, os sistemas de pensão têm sido
discutidos e reavaliados em alguns países da Europa, e até mesmo na
Índia.
As reações dos trabalhadores nesses países têm sido bem diversas
das que ocorrem aqui no Brasil. A revista The Economist divulga em
sua edição de 06 de junho uma longa matéria sobre o assunto, cujo
título Déjà Vu? indaga sobre um possível fenômeno de
ressurgimento dos sindicatos trabalhistas na Europa. Como se sabe, o velho
sindicalismo claudicou ante os persistentes golpes de tatcherismo
aplicados nos anos 80 do século passado, quando uma vaga privatizante se
abateu sobre as economias mundiais.
Sob o mote de defesa dos interesses dos trabalhadores na questão das
reformas dos sistemas de pensão, os trade unions estão de volta
com greves organizadas e espaço garantido nas manchetes diárias, a tal
ponto que a The Economist deixa no ar a pergunta: "Será
que essas greves sinalizam um renascimento das organizações
trabalhistas?"
Os últimos acontecimentos em território europeu parecem justificar as
suspeitas da revista. No último dia 3 de junho, a França foi
virtualmente fechada por uma greve de dimensões nacionais. Os planos do
governo de reformar os sistemas de pensão sofreram oposição
sistemática de fileiras inteiras de trabalhadores naquele país,
"erguendo-se num crescendo, em antecipação aos debates
parlamentares sobre o plano, agendados para ter início em 10 de
junho", informa a revista.
Na Alemanha, os sindicatos têm
combatido os esforços do governo para aumentar os limites de
contribuição dos fundos de pensão. "Milhares marcharam numa série
de comícios no dia 24 de maio, a fim de protestar", diz a The
Economist.
Segundo a revista, os
trabalhadores alemães repetiram a dose esta semana, dessa vez para
protestar contra o aumento na jornada de trabalho.
Até mesmo a normalmente
tranqüila Áustria foi atingida por uma greve de amplas proporções, no
dia 3 de junho. Comenta-se que foi a maior greve industrial do país,
desde a Segunda Guerra Mundial. Coordenada pela Federal Nacional dos
sindicatos austríacos, a greve arrastou mais de um milhão de
trabalhadores às ruas. O motivo da greve: as reformas planejadas nos
sistemas de pensões.
Fenômenos semelhantes foram
registrados ainda na Índia, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O
fulcro dessas greves tem sido sempre a defesa dos interesses ameaçados
dos trabalhadores, incluindo-se aí as reformas de fundos de
pensão.
"Mas aparências podem ser
decepcionantes", observa a The Economist. Pelo menos a Europa
parece ter entrado num novo período de militância trabalhista. Semana
passada, membros da Confederação Européia dos Sindicatos
reuniram-se em Praga para discutir uma agenda para o futuro. A reunião,
segundo a revista, foi muito mais silenciosa do que os recentes protestos
ocorridos na Europa. Em discussão, barganha salarial e menor
padronização do trabalho. Perda de associados também surge como um
fator decepcionante na atual aparência de força dos sindicatos
europeus.
Com os controles estabelecidos na
era Reagan, nos Estados Unidos, e na era Tatcher, na Grã-Bretanha, é
mais provável que o velho sindicalismo tenha adotado pragmatismos em que
os punhos sobre a mesa tenham maior poder de decisão do que
manifestações de massa, nas ruas.
A questão, contudo, se mantém
em aberto. "No final das contas, o futuro dos sindicatos trabalhistas
repousa em suas próprias mãos", conclui a revista. "As
demonstrações coloridas e barulhentas das semanas recentes atraem a
atenção da mídia, mas não são sintomáticas de uma influência dos
sindicatos, nem nos dias atuais, nem com relação às perspectivas quanto
ao futuro", finaliza a The Economist. O recado poderia valer
também para o sindicalismo brasileiro, mesmo que esse não faça o mesmo
barulho dos congêneres estrangeiros.
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