Webjornal - Semanal - Edição 31 - Aracaju,  08 e 15  de junho  de 2003
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Artigo

Aí Vem a Reforma 

Por Paulo Lima


Alternando-se nos holofotes da mídia com outros tópicos eleitos como prioritários no governo Lula, a reforma da Previdência está a dois passos de ser aprovada. Embora alvo de intensas discussões acadêmicas e de acalorados embates parlamentares, a questão parece não ter despertado a reação organizada dos mais interessados no assunto, os trabalhadores. 
 

O tema não é prerrogativa somente dos tristes trópicos. Como se fosse uma vaga varrendo o planeta, os sistemas de pensão têm sido discutidos e reavaliados em alguns países da Europa, e até mesmo na Índia. 

As reações dos trabalhadores nesses países têm sido bem diversas das que ocorrem aqui no Brasil. A revista The Economist divulga em sua edição de 06 de junho uma longa matéria sobre o assunto, cujo título Déjà Vu? indaga sobre um possível fenômeno de ressurgimento dos sindicatos trabalhistas na Europa. Como se sabe, o velho sindicalismo claudicou ante  os persistentes golpes de tatcherismo aplicados nos anos 80 do século passado, quando uma vaga privatizante se abateu sobre as economias mundiais. 

Sob o mote de defesa dos interesses dos trabalhadores na questão das reformas dos sistemas de pensão, os trade unions estão de volta com greves organizadas e espaço garantido nas manchetes diárias, a tal ponto que a The Economist deixa no ar a  pergunta: "Será que essas greves sinalizam um renascimento das organizações trabalhistas?"

Os últimos acontecimentos em território europeu parecem justificar as suspeitas da revista. No último dia 3 de junho, a França foi virtualmente fechada por uma greve de dimensões nacionais. Os planos do governo de reformar os sistemas de pensão sofreram oposição sistemática de fileiras inteiras de trabalhadores naquele país, "erguendo-se num crescendo, em antecipação aos debates parlamentares sobre o plano, agendados para ter início em 10 de junho", informa a revista.  

Na Alemanha, os sindicatos têm combatido os esforços do governo para aumentar os limites de contribuição dos fundos de pensão. "Milhares marcharam numa série de comícios no dia 24 de maio, a fim de protestar", diz a The Economist. Segundo a revista, os trabalhadores alemães repetiram a dose esta semana, dessa vez para protestar contra o aumento na jornada de trabalho.

Até mesmo a normalmente tranqüila Áustria foi atingida por uma greve de amplas proporções, no dia 3 de junho. Comenta-se que foi a maior greve industrial do país, desde a Segunda Guerra Mundial. Coordenada pela Federal Nacional dos sindicatos austríacos, a greve arrastou mais de um milhão de trabalhadores às ruas. O motivo da greve: as reformas planejadas nos sistemas de pensões.

Fenômenos semelhantes foram registrados ainda na Índia, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O fulcro dessas greves tem sido sempre a defesa dos interesses ameaçados dos trabalhadores,  incluindo-se aí as reformas de fundos de pensão.

"Mas aparências podem ser decepcionantes", observa a The Economist. Pelo menos a Europa parece ter entrado num novo período de militância trabalhista. Semana passada,  membros da Confederação Européia dos Sindicatos reuniram-se em Praga para discutir uma agenda para o futuro. A reunião, segundo a revista, foi muito mais silenciosa do que os recentes protestos ocorridos na Europa. Em discussão, barganha salarial e menor padronização do trabalho. Perda de associados também surge como um fator decepcionante na atual aparência de força dos sindicatos europeus. 

Com os controles estabelecidos na era Reagan, nos Estados Unidos, e na era Tatcher, na Grã-Bretanha, é mais provável que o velho sindicalismo tenha adotado pragmatismos em que os punhos sobre a mesa tenham maior poder de decisão do que manifestações de massa, nas ruas.

A questão, contudo, se mantém em aberto. "No final das contas, o futuro dos sindicatos trabalhistas repousa em suas próprias mãos", conclui a revista. "As demonstrações coloridas e barulhentas das semanas recentes atraem a atenção da mídia, mas não são sintomáticas de uma influência dos sindicatos, nem nos dias atuais, nem com relação às perspectivas quanto ao futuro", finaliza a The Economist. O recado poderia valer também para o sindicalismo brasileiro, mesmo que esse não faça o mesmo barulho dos congêneres estrangeiros.

 

  

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