Webjornal - Semanal - Edição 32 - Aracaju, 22 e 29  de junho  de 2003
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Artigo

Os Desplugados do Forró 

Por Paulo Lima

Os três cabras vão chegando de fininho, pelas beiradas do salão. O figurino caubói não carece de riqueza: botas que já pisaram muito poeirão, camisa xadrez colorida, do tipo que se compra a dois tostões no camelô da esquina, chapelão e jeans. Carregam de um jeito malemolente os apetrechos que irão usar naquela noite. Nada na aparência dos sujeitos antecipa o que virá em seguida. Espremidos num canto qualquer, que poderia ser chamado de um palco, o trio saca das armas: uma sanfona, uma zabumba e um triângulo. Levam uma conversa breve e entrecortada. E somente então é que os pestes dão início a um forró ardente como um quentão, tão vibrante e melodioso que, igual assim, só mesmo lá pelas bandas da gota serena.

Cada festa popular elege os seus símbolos tradicionais.  Sem dúvida, o São João leva a cara do forró, mas hoje uma questão se impõe: de qual forró estamos falando? Os interesses comerciais e o acesso à técnica têm contribuído para desvirtuar o forró, transformando-o em mais uma pista de dança da classe média. Só que esse é um suposto forró.

O forró bão, aquele dos arrasta-pés madrugada adentro, nos arraiais e nas quebradas das cidades do interior, está confinado a uns guetos de resistência. Em seu lugar entram inúmeras bandas que calipsaram, axeizaram, rockizaram e salsaram o forró. Como pragas de gafanhoto, surgem sazonalmente para devorar todos os espaços que a mídia malévola é capaz de reservar, preenchendo os ocos culturais dos diais das emissoras jabás. Como tudo o mais na sociedade espetáculo, forró virou show, forrómício, forrock, forróchatice.

Musicalmente, o forró ziriguindum é de uma salada indigesta. Como arremedo dos tradicionais gêneros caribenhos, é um embuste. Como representante do típico forró nordestino, uma farsa. Resultado, nem uma coisa, nem outra, a não ser a manutenção de um rótulo cabotino que nada tem a ver com o produto original.

Esse neo-qualquer-coisa talvez aufira num mês de arrastança junina o que velhos talentos da região suaram anos de trabalho para ganhar. Convidar a comadre Sebastiana para dançar um forró nunca foi tão fácil. Difícil mesmo é encontrar o forró.

Por isso, o típico forró pé-de-serra pode ser considerado genial. Está aí representado por trios que rumam dos rincões do interior do Estado para enfrentar os holofotes e os decibéis das bandas na capital.  E conseguem o máximo com o mínimo, desplugados, na força dos braços, gritando a plenos pulmões versos simples e criativos. Não é pouco. Uma safona costuma pesar em torno de catorze quilos. Afifar um fole assim robusto noite adentro não é moleza.

Os pés-de-serra jamais pisaram as sandálias numa escola de música, mas o ritmo e a melodia correm em suas veias musicais. O Brasilzão, aquele representado pelo Nordeste mais profundo em miséria e desigualdade, já produziu gênios que em nada ficam a dever a pares das praças centro-européias. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca, Rildo Hora e tantos outros teriam galgado justo procênio internacional, se nascidos noutras paragens.

A nossa música ainda é o nosso melhor passaporte, e muito dessa riqueza brotou e brota do Nordeste estorricado, espezinhado e esquecido. Brota das suas feiras-livres, dos seus lares empobrecidos e da sua grandeza trágica. 

Pausa para dois causos. O primeiro. Certa feita, Sivuca estava em Noviorque, num apartamento, à noite, fazendo uma pequena sessão de forró. A vizinhança insular, fria e egóica, incomodada com o som, chama a polícia.  Consta que o policial, ao chegar e ouvir a canção, se perguntou porque deveria interromper algo tão bonito. A música era Asa Branca.  O segundo. Defrontada pela primeira vez com as partituras dos frevos de Capiba, a solene e glacial Orquestra Sinfônica de Berlim refugou diante do bicho brabo. Palavras do maestro alemão: o frevo é um ritmo muito rápido, e eles não seriam capazes de tocá-lo. 

É preciso dizer mais alguma coisa?


  

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