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Artigo
Os Desplugados do Forró
Por Paulo Lima
Os três cabras vão chegando de
fininho, pelas beiradas do salão. O figurino caubói não carece de
riqueza: botas que já pisaram muito poeirão, camisa xadrez colorida, do
tipo que se compra a dois tostões no camelô da esquina, chapelão e
jeans. Carregam de um jeito malemolente os apetrechos que irão usar
naquela noite. Nada na aparência dos sujeitos antecipa o que virá em
seguida. Espremidos num canto qualquer, que poderia ser chamado de um
palco, o trio saca das armas: uma sanfona, uma zabumba e um triângulo.
Levam uma conversa breve e entrecortada. E somente então é que os pestes
dão início a um forró ardente como um quentão, tão vibrante e
melodioso que, igual assim, só mesmo lá pelas bandas da gota serena.
Cada festa popular elege os seus símbolos
tradicionais. Sem dúvida, o
São João leva a cara do forró, mas hoje uma questão se impõe: de qual
forró estamos falando? Os interesses comerciais e o acesso à técnica têm
contribuído para desvirtuar o forró, transformando-o em mais uma pista
de dança da classe média. Só que esse é um suposto forró.
O forró bão, aquele dos arrasta-pés madrugada
adentro, nos arraiais e nas quebradas das cidades do interior, está
confinado a uns guetos de resistência. Em seu lugar entram inúmeras
bandas que calipsaram, axeizaram, rockizaram e salsaram o forró. Como
pragas de gafanhoto, surgem sazonalmente para devorar todos os espaços
que a mídia malévola é capaz de reservar, preenchendo os ocos culturais
dos diais das emissoras jabás. Como tudo o mais na sociedade espetáculo,
forró virou show, forrómício, forrock, forróchatice.
Musicalmente, o forró ziriguindum é de uma salada
indigesta. Como arremedo dos tradicionais gêneros caribenhos, é um
embuste. Como representante do típico forró nordestino, uma farsa.
Resultado, nem uma coisa, nem outra, a não ser a manutenção de um rótulo
cabotino que nada tem a ver com o produto original.
Esse neo-qualquer-coisa talvez aufira num mês de
arrastança junina o que velhos talentos da região suaram anos de
trabalho para ganhar. Convidar a comadre Sebastiana para dançar um forró
nunca foi tão fácil. Difícil mesmo é encontrar o forró.
Por isso, o típico forró pé-de-serra pode ser
considerado genial. Está aí representado por trios que rumam dos rincões
do interior do Estado para enfrentar os holofotes e os decibéis das
bandas na capital. E
conseguem o máximo com o mínimo, desplugados, na força dos braços,
gritando a plenos pulmões versos simples e criativos. Não é pouco. Uma
safona costuma pesar em torno de catorze quilos. Afifar um fole assim
robusto noite adentro não é moleza.
Os pés-de-serra jamais pisaram as sandálias numa
escola de música, mas o ritmo e a melodia correm em suas veias musicais.
O Brasilzão, aquele representado pelo Nordeste mais profundo em miséria
e desigualdade, já produziu gênios que em nada ficam a dever a pares das
praças centro-européias. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca, Rildo Hora
e tantos outros teriam galgado justo procênio internacional, se nascidos
noutras paragens.
A nossa música ainda é o nosso melhor passaporte, e
muito dessa riqueza brotou e brota do Nordeste estorricado, espezinhado e
esquecido. Brota das suas feiras-livres, dos seus lares empobrecidos e da
sua grandeza trágica.
Pausa para dois causos. O primeiro. Certa feita,
Sivuca estava em Noviorque, num apartamento, à noite, fazendo uma pequena
sessão de forró. A vizinhança insular, fria e egóica, incomodada com o
som, chama a polícia. Consta
que o policial, ao chegar e ouvir a canção, se perguntou porque deveria
interromper algo tão bonito. A música era Asa Branca.
O segundo. Defrontada pela primeira vez com as partituras dos
frevos de Capiba, a solene e glacial Orquestra Sinfônica de Berlim
refugou diante do bicho brabo. Palavras do maestro alemão: o frevo é um
ritmo muito rápido, e eles não seriam capazes de tocá-lo.
É preciso dizer mais alguma coisa?
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