Webjornal - Semanal - Edição 33 - Aracaju,  06 e 13  de julho  de 2003
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Artigo

O discreto charme do mês de Julho 

Por Paulo Lima

Ele não tem a fama trágica do mês de agosto, que ao menos no Brasil ficou convencionado como o período do ano em que nobres vultos pátrios batem as botas e sobem para o andar de cima. Coincidência ou não, algo de muito grave ocorre sempre em agosto. Não possui o apelo dionisíaco do mês de março, ocasião em que o mundo aqui abaixo do Equador vira de ponta-cabeça, por obra e graça do Carnaval. Está longe, a milhas de distância do mês de dezembro, eleito no calendário ocidental como a data mater da cristandade, cuja veleidade  humanizante está condensada nas comemorações do Natal. É bem verdade que julho, ao lado de janeiro, goza o status de mês da alta estação, porém sem o charme iniludível daquela primeira quadra do ano, sempre envolta em esperanças e augúrios de toda sorte. Rivalizar com o mês de maio, nem pensar, posto que é nessa data que se inserem as homenagens a dois dos grandes esteios civilizatórios da humanidade - as mães e as noivas.  

Como se não bastasse, no ranking do calendário anual, julho recebeu uma sétima posição, um número pouco estimulante, já que no Brasil costuma ser referido a uma desonrosa conta de mentiroso. Situado ali no interstício entre o primeiro e o segundo semestres do ano, a julho ficou reservada a preferência nacional como o mês oportuno para as férias, já que coincide também com recesso escolar. E com o inverno. 

Mês do frio, do dolce far niente e número da mentira, não sobrou nada mais edificante para o mês do imperador Julius? Sim. Em julho pipocam celebrações que podem fazer o gáudio de gente de todas as raças e credos.

Começando pelos apreciadores do bom garfo e da boa conversa jogada fora. Em julho - acredite - se comemora o dia da pizza. Não me refiro à instituição nacional de empurrar as desditas para debaixo dos tapetes. A massa italiana recebe a sua justa homenagem no dia 10. 

Em julho, algumas pátrias, mais  e menos notórias, comemoram a sua independência. Hasteiam-se  bandeiras e cantam-se hinos no pequenino Mali, nas minúsculas Malavi e Bahamas, na decrépita Argentina, no labiríntico Afeganistão, na conturbada Colômbia e nos arrogantes Estados Unidos da América. 

A data ergue homenagem ainda a uma tão humilde quanto nobilíssima profissão, o padeiro, que, juntamente com o imprescindível pacifista, ganhou um ponto de referência lá pelo dia 8. Nessa mesma data, um Nordeste assombrado pelo cangaço assistia à morte de Lampião e seu bando. Alimentando os contrastes abissais da História, num 9 de julho  nascia Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, o saneador do Rio de Janeiro belle époque, um cientista que entrou para a história do Brasil com o nome de Carlos Chagas.

O mês de julho assinala registros belicistas da nossa marcha republicana. Também no dia 9, São Paulo se insurgia contra o restante do Brasil, no levante que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista de 1932. Coincidência ou não, celebra-se nessa mesma quadra o dia do soldado constitucionalista. Sem qualquer relação aparente de causa e efeito, comemora-se igualmente o dia do protético. 

No mês de julho cabe ainda assinalar alguns passamentos famosos. No dia 6 Castro Alves despedia-se das suas espumas flutuantes. No dia 4 era a vez de Monteiro Lobato acenar o definitivo adeus à sua trupe do Sítio. Num dia 20 nascia o pai da aviação, Santos Dumont, que por coincidência alçou vôo para a eternidade num dia 23 desse mesmo mês. Num dia 18 morria o Marechal Castelo Branco, uma data em que,  num outro extremo, o Padre Antonio Vieira iria escrever seus sermões noutra freguesia. 

Julho é o mês de um rosário de santos católicos, mais e menos famosos: São Lourenço de Brindisi, Santa Brígida, Santa Maria Madalena, Santo Arnolfo, Santa Nossa Senhora do Carmo, São Boaventura e São Pedro Crisólogo. É também o mês de nascimento de um ícone budista e nouveaux best-seller contemporâneo: o Dalai Lama.   

O mês sete é também de efemérides para algumas pátrias, que, ocupadas, empobrecidas e dilapidadas, não deixam passar em brancas nuvens a sua existência: Iraque e Senegal.

E julho é o mês da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, proclamados com a queda da Bastilha, num dia 14. Feliz coincidência ou não, é nessa quadra que também se comemora o dia da Liberdade de Pensamento.  No vizinho 13,  comemora-se o  o dia Mundial do Rock, a expressão do livre pensar de uma geração. Como nem só de necessidades sensoriais vive o homem, no mesmo cabalístico 13 é celebrado o dia do engenheiro sanitarista.

Num dia 17, o futebol canarinho amealhava mais um título, desta feita o tetra campeonato mundial de futebol conquistado em solo americano. Os de boa memória haverão de se lembrar do gol da vitória brasileira que Baggio não fez. 

Ao mês de julho reserva-se ainda muitas outras celebrações, mas em nenhum outro período do ano festeja-se instantes tão singelos e caros como o dia Mundial da Caridade (19), do Amigo (20) e da Vovó ( 26), sinal de que julho é mesmo um mês boa praça, que só não tem merecido a boa reputação que lhe é devida talvez por puro preconceito ou desinformação do que ocorre ao longo dos seus bem vividos 31 dias no ano.


  

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