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Artigo
O discreto charme do mês de Julho
Por Paulo Lima
Ele não tem a fama trágica do
mês de agosto, que ao menos no Brasil ficou convencionado como o período
do ano em que nobres vultos pátrios batem as botas e sobem para o andar
de cima. Coincidência ou não, algo de muito grave ocorre sempre em
agosto. Não possui o apelo dionisíaco do mês de março, ocasião em que
o mundo aqui abaixo do Equador vira de ponta-cabeça, por obra e graça do
Carnaval. Está longe, a milhas de distância do mês de dezembro, eleito
no calendário ocidental como a data mater da cristandade, cuja
veleidade humanizante está condensada nas comemorações do Natal.
É bem verdade que julho, ao lado de janeiro, goza o status de mês da alta
estação, porém sem o charme iniludível daquela primeira quadra do ano,
sempre envolta em esperanças e augúrios de toda sorte. Rivalizar com o
mês de maio, nem pensar, posto que é nessa data que se inserem as
homenagens a dois dos grandes esteios civilizatórios da humanidade - as
mães e as noivas.
Como se não bastasse, no ranking do
calendário anual, julho recebeu uma sétima posição, um número pouco
estimulante, já que no Brasil costuma ser referido a uma desonrosa conta
de mentiroso. Situado ali no interstício entre o primeiro e o segundo
semestres do ano, a julho ficou reservada a preferência nacional como o
mês oportuno para as férias, já que coincide também com recesso
escolar. E com o inverno.
Mês do frio, do dolce far
niente e número da mentira, não sobrou nada mais edificante para o mês
do imperador Julius? Sim. Em julho pipocam celebrações que podem fazer o
gáudio de gente de todas as raças e credos.
Começando pelos apreciadores
do bom garfo e da boa conversa jogada fora. Em julho - acredite - se
comemora o dia da pizza. Não me refiro à instituição nacional de
empurrar as desditas para debaixo dos tapetes. A massa italiana recebe a
sua justa homenagem no dia 10.
Em julho, algumas pátrias,
mais e menos notórias, comemoram a sua independência.
Hasteiam-se bandeiras e cantam-se hinos no pequenino Mali, nas
minúsculas Malavi e Bahamas, na decrépita Argentina, no labiríntico
Afeganistão, na conturbada Colômbia e nos arrogantes Estados Unidos da
América.
A data ergue homenagem ainda
a uma tão humilde quanto nobilíssima profissão, o padeiro, que,
juntamente com o imprescindível pacifista, ganhou um ponto de referência
lá pelo dia 8. Nessa mesma data, um Nordeste assombrado pelo cangaço
assistia à morte de Lampião e seu bando. Alimentando os contrastes
abissais da História, num 9 de julho nascia Carlos Ribeiro
Justiniano Chagas, o saneador do Rio de Janeiro belle époque, um
cientista que entrou para a história do Brasil com o nome de Carlos
Chagas.
O mês de julho assinala
registros belicistas da nossa marcha republicana. Também no dia 9, São
Paulo se insurgia contra o restante do Brasil, no levante que ficou
conhecido como Revolução Constitucionalista de 1932. Coincidência ou
não, celebra-se nessa mesma quadra o dia do soldado constitucionalista.
Sem qualquer relação aparente de causa e efeito, comemora-se igualmente
o dia do protético.
No mês de julho cabe ainda
assinalar alguns passamentos famosos. No dia 6 Castro Alves despedia-se
das suas espumas flutuantes. No dia 4 era a vez de Monteiro Lobato acenar
o definitivo adeus à sua trupe do Sítio. Num dia 20 nascia o pai da
aviação, Santos Dumont, que por coincidência alçou vôo para a
eternidade num dia 23 desse mesmo mês. Num dia 18 morria o Marechal
Castelo Branco, uma data em que, num outro extremo, o Padre Antonio
Vieira iria escrever seus sermões noutra freguesia.
Julho é o mês de um
rosário de santos católicos, mais e menos famosos: São Lourenço de
Brindisi, Santa Brígida, Santa Maria Madalena, Santo Arnolfo, Santa Nossa
Senhora do Carmo, São Boaventura e São Pedro Crisólogo. É também o
mês de nascimento de um ícone budista e nouveaux best-seller
contemporâneo: o Dalai Lama.
O mês sete é também de
efemérides para algumas pátrias, que, ocupadas, empobrecidas e
dilapidadas, não deixam passar em brancas nuvens a sua existência:
Iraque e Senegal.
E julho é o mês da Liberdade,
Igualdade e Fraternidade, proclamados com a queda da Bastilha, num dia 14.
Feliz coincidência ou não, é nessa quadra que também se comemora o dia
da Liberdade de Pensamento. No vizinho 13, comemora-se o
o dia Mundial do Rock, a expressão do livre pensar de uma geração. Como
nem só de necessidades sensoriais vive o homem, no mesmo cabalístico 13
é celebrado o dia do engenheiro sanitarista.
Num dia 17, o futebol
canarinho amealhava mais um título, desta feita o tetra campeonato
mundial de futebol conquistado em solo americano. Os de boa memória
haverão de se lembrar do gol da vitória brasileira que Baggio não
fez.
Ao mês de julho reserva-se
ainda muitas outras celebrações, mas em nenhum outro período do ano
festeja-se instantes tão singelos e caros como o dia Mundial da Caridade
(19), do Amigo (20) e da Vovó ( 26), sinal de que julho é mesmo um mês
boa praça, que só não tem merecido a boa reputação que lhe é devida
talvez por puro preconceito ou desinformação do que ocorre ao longo dos
seus bem vividos 31 dias no ano.
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