Webjornal - Semanal - Edição 34 - Aracaju,  20 e 27  de julho  de 2003
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Artigo

Se você é pai, é impostor 

Por Paulo Lima

O título acima é uma  paródia de um outro título, "Se você é pai, é professor", que encimava um artigo há muito publicado em uma edição especial da  Reader's Digest, revista que ficou conhecida no Brasil como Seleções. Naquele tempo, eu costumava ler aquela bíblia dos gostos medianos e, o que é pior, acreditava no que lia. Molecote, eu estava longe de vivenciar a paternidade , mas prometi a mim mesmo que seguiria o exemplo de conduta que li no artigo, caso um dia me tornasse pai. 

E o exemplo dizia que o filho de um famoso poeta perguntou-lhe uma vez quem foi   Helena de Tróia.  Qualquer pai teria dito:  "Helena de Tróia foi uma princesa que viveu na Ásia Menor, agora vá brincar".  Mas não o tal poeta.  Ele organizou um pequeno teatro no meio da sala para mostrar quem foi de fato Helena de Tróia.

Cresci acreditando que a experiência da paternidade seria sopa, desde que carregássemos na cartola alguns ensinamentos preciosos, como aquele aprendido em Seleções. Como jamais partilhei do pessimismo de Machado de Assis, para quem os filhos perpetuariam as desgraças da nossa existência, tratei de fazê-los. 

E agora eles estão aí, cada um com suas personalidades, suas pequenas idiossincrasias, suas pequenas petulâncias e suas pequenas graças. E como são pequenos ainda, trazem problemas pequenos, bem a propósito daquele ditado alemão. Certamente haverão de crescer, e crescerão também os problemas. Pelos exemplos próximos, de amigos e conhecidos que já têm filhos mais taludos, vejo que os chucrutes não erraram. Aliás, como disse um amigo, com  mais quilômetros rodados na arte de ser pai: se você fez  filho, está frito. 

O quão frito nós estamos, isso é algo que  só descobrimos aos poucos. Como naquele dia em que a minha filha de 6 anos me puxou  para bem próximo dela,  para me perguntar,  no pé do meu ouvido: "Papai, o que é camisinha?"

A pergunta não veio à toa. Ela assistia na TV a um comercial com Júnior, aquele irmão de Sandy, alertando para a necessidade do uso do famigerado látex nas relações sexuais. Eu,  que achava que teria respostas prontas para qualquer tipo de indagação que os filhos viessem a fazer, engasguei. E o mais embaraçoso era a maneira como ela perguntou, num sussurro, fazendo uma concha com as mãos em torno do meu ouvido esquerdo. Sinal de que ela intuía  que se tratava de alguma coisa para além da sua possibilidade (e do seu direito) de saber.  

Eu estava mesmo em maus lençóis, mas não me saí com nenhuma evasiva, mandando-a brincar em seguida, ou montando um pequeno teatro no meio da sala, como fez o poeta.  Expliquei-lhe que camisinha era a roupa de borracha que um palhaço abelhudo  precisava  vestir sempre que ia dar um mergulho numa piscina monumental.

Sei, sei, eu devo ter desafinado  feio, mas convenhamos: não se faz mais pais como antigamente. E muito menos crianças. A minha filha tinha que colocar uma dúvida assim tão complicada?  Fiquei paranóico,  tentando imaginar qual será a próxima pergunta que ela fará. Sei que da reforma da Previdência ao novo namorado de Gisele Bündchen, pode ser qualquer uma. Afinal, nunca se sabe que surpresa um filho poderá nos reservar, nem de quantas certezas teremos de abrir mão para, no final, podermos sobreviver ao crivo da paternidade.     



  

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