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Artigo
Se você é pai, é impostor
Por Paulo Lima
O
título acima é uma paródia de um outro título, "Se você é
pai, é professor", que encimava um artigo há muito publicado em uma
edição especial da Reader's Digest, revista que ficou conhecida
no Brasil como Seleções. Naquele tempo, eu costumava ler aquela
bíblia dos gostos medianos e, o que é pior, acreditava no que lia.
Molecote, eu estava longe de vivenciar a paternidade , mas prometi a mim
mesmo que seguiria o exemplo de conduta que li no artigo, caso um dia me
tornasse pai.
E o exemplo dizia que o filho
de um famoso poeta perguntou-lhe uma vez quem foi Helena de
Tróia. Qualquer pai teria dito: "Helena de Tróia foi uma princesa
que viveu na Ásia Menor, agora vá brincar". Mas não o tal poeta.
Ele organizou um pequeno teatro no meio da sala para mostrar quem foi de
fato Helena de Tróia.
Cresci acreditando que a
experiência da paternidade seria sopa, desde que carregássemos na
cartola alguns ensinamentos preciosos, como aquele aprendido em Seleções.
Como jamais partilhei do pessimismo de Machado de Assis, para quem os
filhos perpetuariam as desgraças da nossa existência, tratei de
fazê-los.
E agora eles estão aí, cada
um com suas personalidades, suas pequenas idiossincrasias, suas pequenas
petulâncias e suas pequenas graças. E como são pequenos ainda, trazem
problemas pequenos, bem a propósito daquele ditado alemão. Certamente
haverão de crescer, e crescerão também os problemas. Pelos exemplos próximos, de
amigos e conhecidos que já têm filhos mais taludos, vejo que os
chucrutes não erraram. Aliás, como disse um amigo, com mais
quilômetros rodados na arte de ser pai: se você fez filho, está frito.
O quão frito nós estamos,
isso é algo que só descobrimos aos poucos. Como naquele dia em que
a minha filha de 6 anos me puxou para bem próximo dela, para
me perguntar, no pé do meu ouvido:
"Papai, o que é camisinha?"
A pergunta não veio à toa.
Ela assistia na TV a um comercial com Júnior, aquele irmão de Sandy,
alertando para a necessidade do uso do famigerado látex nas relações sexuais. Eu,
que achava que teria respostas prontas para qualquer tipo de indagação
que os filhos viessem a fazer, engasguei. E o mais embaraçoso era a
maneira como ela perguntou, num sussurro, fazendo uma concha com as mãos
em torno do meu ouvido esquerdo. Sinal de que ela intuía que se tratava
de alguma coisa para além da sua possibilidade (e do seu direito) de
saber.
Eu estava mesmo em maus
lençóis, mas não me saí com nenhuma evasiva, mandando-a brincar em
seguida, ou montando um pequeno teatro no meio da sala, como fez o
poeta. Expliquei-lhe que camisinha era a roupa de borracha que um palhaço
abelhudo precisava vestir sempre que ia dar um mergulho numa
piscina monumental.
Sei, sei, eu devo ter
desafinado feio, mas convenhamos: não se faz mais pais como
antigamente. E muito menos crianças. A minha filha tinha que colocar uma
dúvida assim tão complicada? Fiquei paranóico, tentando imaginar qual será a
próxima pergunta que ela fará. Sei que da reforma da Previdência ao
novo namorado de Gisele Bündchen, pode ser qualquer uma. Afinal, nunca se
sabe que surpresa um filho poderá nos reservar, nem de quantas certezas
teremos de abrir mão para, no final, podermos sobreviver ao crivo da
paternidade.
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