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Artigo
A Resposta que Sopra no Vento
Por Paulo Lima
Ele
foi considerado o porta-voz de uma geração, num tempo em que ainda pairavam no ar as ameaças da Guerra Fria, os
embates da questão racial aqueciam diariamente os termômetros da
sociedade americana e a trilogia sexo, drogas e rock and roll fazia a
cabeça de nove entre dez bichos grilos que acreditavam que somente os
slogans de paz e amor
conduziriam o planeta para rumos melhores.
No
começo dos anos 60, empunhando um violão e soprando uma gaita de boca,
Bob Dylan, nascido Robert Allen Zimmerman, injetou letra e poesia no
chamado "filho pirado do blues", como costumavam denominar o
rock, especialmente depois que Elvis Presley incorporou ao gênero as suas
acrobacias corporais, uma irreverência ousada que rompia com o universo
bem comportado da década anterior, marcada por uma prosperidade sem
precedentes e pela caretice, dentro do que se convencionou chamar de a Era Eisenhower.
Naqueles
distantes anos 60 (precisa dizer que são do século passado?), não havia
quem não trouxesse na ponta da língua versos de Blowing in the Wind,
Masters of War e The Times They Are A-changing. Nesses
quarenta e poucos anos de carreira, Dylan parece ter vivido muitas vidas, ter
entrado e saído de todas. Ano passado, Howard Sounes, jornalista inglês,
escreveu aquela que tem sido considerada a mais completa investigação
sobre a vida do mais eminente e esquivo filho da pequenina Hibbing,
Minnesota. Remeto a Dylan, a Biografia os interessados em
conhecer melhor a trajetória do autor de Like a Rolling Stone.
Numa de suas canções
conhecidas, Dylan afirma que ninguém precisa de um homem do tempo para
saber de que lado o vento está soprando. No cenário orwelliano da
América pós-11 de setembro, de que lado estarão soprando as idéias do
autor de Ballad of a Thin Man?
As posições de Dylan nem
sempre foram as mais politicamente corretas. Ao menos uma nódoa é
lembrada quando se passa a sua ficha corrida de contestador e crítico do american
system. Nos anos 1970, dizem que ofereceu ajuda financeira a
Leopold Senghor, o falecido líder colonialista da ex-República do Congo.
Para Clinton, fez alguns rapapés, cantando na festa da sua posse, na Casa
Branca. Ainda nos anos 1990, foi visto fazendo shows em convenções anuais
de empresas administradoras de cartões de créditos, por assim dizer o
supra-sumo de um sistema que ele tanto ajudou a criticar.
Que espécie de
contribuição estaria dando Dylan para que se compreenda esses tempos de
Bush, Rumsfeld e Condoleeza Rice? Críticos contumazes da sociedade
americana como Susan Sontag e Noam Chomsky já fincaram posição. E
quanto a Dylan, o que estaria pensando desses tempos de desolação?
A resposta
veio no artigo "Bob Dylan plays Bob Dylan, whoever it is" (algo
como "Bob
Dylan representa Bob Dylan, quem quer que seja"), que Joe Pereles escreveu para a seção Arte e Lazer, do
New York Times, em 27/07. Bob Dylan está fazendo cinema, e a carranca envelhecida
e austera do bardo logo poderá ser vista mais uma vez na tela grande, como nos tempos de Renaldo
and Clara, Pat Garret and Billy the Kid e Wheels on Fire,
toda a filmografia de Dylan até o momento. Dont Look Back não
conta, já que se trata de um documentário sobre a sua turnê londrina de
1966.
E Joe Pereles nos fala das
novas presepadas dylanescas nesse novo filme. "Jack Fate não é
exatamente Bob Dylan no novo filme do Senhor Dylan, Masked and
Anonymous",
embora "tenha a expressão estática do Senhor Dylan, seu catálogo
de canções, seu guarda-roupa de cáuboi e seu ilustre passado". Em
Masked and Anonymous, todos são filósofos. Os tipos do filme: um
criminoso, um advogado, um jornalista, uma garota, um revolucionário, um
executivo de TV, um ditador e um guarda de prisão. "Todos eles falam
em parábolas e aforismas", diz Joe. "Suas falas refletem sobre
liberdade, amor, política, consciência e morte". Soa promissor?
Talvez, se considerarmos a última performance cinematográfica de Dylan
em Wheels on Fire, que conta a história de um roqueiro decadente,
talvez o próprio Dylan tentando esboçar mais um mea culpa. E se levarmos em conta
ainda os últimos trabalhos do velho bardo do Greenwhich Village. Em Time
Out of Mind, Dylan desfia um rosário de lamentações sobre os velhos
temas que sempre o atordoaram, mesmo quando ele parecia disfarçado sob a
capa de arauto da protest song. Em seu último Love and Theft,
Dylan traz de volta uma espécie de América do Vaudeville. Obras-primas
que espelham a maturidade do poeta, mas sem qualquer laivo das velhas e
poderosas críticas ao sistema.
"Há muito tempo,
identidade tem sido uma espécie de jogo de esconde-esconde para o Senhor
Dylan", analisa Joe Pereles. Como em Gotta Serve Somebody,
sucesso da sua fase de cristão convertido, no qual ele cantava
"você pode me chamar Terry, ou Timmy, ou Bobby, ou Zimmy". Mas o
fato é que "ele sempre tentou confundir e intrigar os seus muitos
ouvintes que tentaram imaginar como ele seria", diz Joe. Continuará
Dylan, em Masked and Anonymous, brincando com o mesmo jogo de
esconde-esconde da sua identidade? Fará críticas ao Grande Irmão Bush?
Refletirá sobre o terrorismo e outros temas candentes dessa atualidade
tão medonha?
Nunca se sabe o que o
próximo Dylan nos reservará. Ao menos para Mr. Zimmerman,
a resposta parece continuar soprando no vento. Talvez a esse bardo de sete
vidas se adapte bem a máxima de Oscar Wilde, para quem os poetas são
seres diferentes e, por isso, deveriam ser deixados à vontade para
trilharem o seu próprio destino. Uma deixa mais que perfeita para Bob
Dylan.
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