Webjornal - Quinzenal  - Edição 35 - Aracaju,  03  e 10  de agosto  de 2003
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Artigo

A Resposta que Sopra no Vento 

Por Paulo Lima

Ele foi considerado o porta-voz de uma geração,  num tempo em que ainda pairavam no ar as ameaças da Guerra Fria, os embates da questão racial aqueciam diariamente os termômetros da sociedade americana e a trilogia sexo, drogas e rock and roll fazia a cabeça de nove entre dez bichos grilos que acreditavam que somente os slogans de paz e  amor conduziriam o planeta para rumos melhores.

No começo dos anos 60, empunhando um violão e soprando uma gaita de boca, Bob Dylan, nascido Robert Allen Zimmerman, injetou letra e poesia no chamado "filho pirado do blues", como costumavam denominar o rock, especialmente depois que Elvis Presley incorporou ao gênero as suas acrobacias corporais, uma irreverência ousada que rompia com o universo bem comportado da década anterior, marcada por uma prosperidade sem precedentes e pela caretice, dentro do que se convencionou chamar de a Era Eisenhower.

Naqueles distantes anos 60 (precisa dizer que são do século passado?), não havia quem não trouxesse na ponta da língua versos de Blowing in the Wind, Masters of War e The Times They Are A-changing. Nesses quarenta e poucos anos de carreira, Dylan parece ter vivido muitas vidas, ter entrado e saído de todas. Ano passado, Howard Sounes, jornalista inglês, escreveu aquela que tem sido considerada a mais completa investigação sobre a vida do mais eminente e esquivo filho da pequenina Hibbing,  Minnesota. Remeto a Dylan, a Biografia  os interessados em conhecer melhor a trajetória do autor de Like a Rolling Stone

Numa de suas canções conhecidas, Dylan afirma que ninguém precisa de um homem do tempo para saber de que lado o vento está soprando. No cenário orwelliano da América pós-11 de setembro, de que lado estarão soprando as idéias do autor de Ballad of a Thin Man

As posições de Dylan nem sempre foram as mais politicamente corretas. Ao menos uma nódoa é lembrada quando se passa a sua ficha corrida de contestador e crítico do american system.  Nos anos 1970, dizem que ofereceu ajuda financeira a Leopold Senghor, o falecido líder colonialista da ex-República do Congo. Para Clinton, fez alguns rapapés, cantando na festa da sua posse, na Casa Branca. Ainda nos anos 1990, foi visto fazendo shows em convenções anuais de empresas administradoras de cartões de créditos, por assim dizer o supra-sumo de um sistema que ele tanto ajudou a criticar.  

Que espécie de contribuição estaria dando Dylan para que se compreenda esses tempos de Bush, Rumsfeld e Condoleeza Rice? Críticos contumazes da sociedade americana como Susan Sontag e Noam Chomsky já fincaram posição. E quanto a Dylan, o que estaria pensando desses tempos de desolação?  A resposta veio no artigo "Bob Dylan plays Bob Dylan, whoever it is" (algo como "Bob Dylan representa Bob Dylan, quem quer que seja"), que Joe Pereles escreveu para a seção Arte e Lazer, do New York Times, em 27/07. Bob Dylan está fazendo cinema, e a carranca envelhecida e austera do bardo logo poderá ser vista mais uma vez na tela grande, como nos tempos de Renaldo and Clara, Pat Garret and Billy the Kid e Wheels on Fire, toda a filmografia de Dylan até o momento. Dont Look Back não conta, já que se trata de um documentário sobre a sua turnê londrina de 1966.

E Joe Pereles nos fala das novas presepadas dylanescas nesse novo filme. "Jack Fate não é exatamente Bob Dylan no novo filme do Senhor Dylan, Masked and Anonymous", embora "tenha a expressão estática do Senhor Dylan, seu catálogo de canções, seu guarda-roupa de cáuboi e seu ilustre passado". Em Masked and Anonymous, todos são filósofos. Os tipos do filme: um criminoso, um advogado, um jornalista, uma garota, um revolucionário, um executivo de TV, um ditador e um guarda de prisão. "Todos eles falam em parábolas e aforismas", diz Joe. "Suas falas refletem sobre liberdade, amor, política, consciência e morte". Soa promissor? Talvez, se considerarmos a última performance cinematográfica de Dylan em Wheels on Fire, que conta a história de um roqueiro decadente, talvez o próprio Dylan tentando esboçar mais um mea culpa. E se levarmos em conta ainda os últimos trabalhos do velho bardo do Greenwhich Village. Em Time Out of Mind, Dylan desfia um rosário de lamentações sobre os velhos temas que sempre o atordoaram, mesmo quando ele parecia disfarçado sob a capa de arauto da protest song. Em seu último Love and Theft, Dylan traz de volta uma espécie de América do Vaudeville. Obras-primas que espelham a maturidade do poeta, mas sem qualquer laivo das velhas e poderosas críticas ao sistema.  

"Há muito tempo,  identidade tem sido uma espécie de jogo de esconde-esconde para o Senhor Dylan", analisa Joe Pereles. Como em Gotta Serve Somebody, sucesso da sua fase de cristão convertido, no qual ele cantava "você pode me chamar Terry, ou Timmy, ou Bobby, ou Zimmy". Mas o fato é que "ele sempre tentou confundir e intrigar os seus muitos ouvintes que tentaram imaginar como ele seria", diz Joe. Continuará Dylan, em  Masked and Anonymous, brincando com o mesmo jogo de esconde-esconde da sua identidade? Fará críticas ao Grande Irmão Bush? Refletirá sobre o terrorismo e outros temas candentes dessa atualidade tão medonha?  

Nunca se sabe o que o próximo Dylan nos reservará. Ao menos para Mr. Zimmerman, a resposta parece continuar soprando no vento. Talvez a esse bardo de sete vidas se adapte bem a máxima de Oscar Wilde, para quem os poetas são seres diferentes e, por isso, deveriam ser deixados à vontade para trilharem o seu próprio destino. Uma deixa mais que perfeita para Bob Dylan.  

 

  

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