Webjornal - Quinzenal  - Edição 36 - Aracaju,  17  e 24  de agosto  de 2003
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Artigo

Jornalismo, fardões e o não da academia 

Por Paulo Lima

Em breve nota publicada na coluna diária de Ancelmo Góis (O Globo, 07/08), ficamos sabendo que estaria em andamento mais uma disputa por uma vaga na Academia Brasileira de Letras, dessa vez para preenchimento da cadeira deixada por Roberto Marinho.   De um lado, o político Marco Maciel. Do outro,  o jornalista Fernando Morais. Segundo Ancelmo, as prévias revelam que Marco Maciel venceria por larga margem. Sem chance para o jornalista.

Esta não é a primeira vez – e provavelmente não será a última - em que a ABL incorre em idiossincrasia na escolha dos seus imortais, distanciando-se anos-luz do espírito que norteou a sua criação, conforme se lê no discurso proferido em 07/12/1897 por Machado de Assis, primeiro presidente da instituição:

"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o   moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas."

Mudam os tempos, mudam os homens, e o conceito do que vem a ser um escritor parece ter sido definitivamente revisto pela ABL, a se considerar algumas escolhas nada edificantes feitas por aquela academia, ao longo da sua história. Escolhas e ausências delas. Nomes importantes do nosso beletrismo jamais envergaram o fardão, seja por opção pessoal ou por terem sido preteridos no escrutínio daquela secular irmandade. E não uma única vez o pêndulo dos imortais oscilou em favor das hostes políticas. A dose se repete agora.

Se levássemos em conta a relevância de fato literária dos nomes agora em contenda, poderíamos considerar esta uma luta de Davi contra Golias. Vejamos. O político pernambucano foi áulico do poder durante décadas, tendo se mantido em torno do seu círculo - ou em seu próprio epicentro -  ao longo de sucessivos governos. Poderia ser considerado o típico intelectual do círculo do poder, se entendido sob uma certa tipologia gramsciana.  Assim seria caracterizada a sua presença na vida nacional. Desconhece-se que tenha legado às fileiras da nossa literatura qualquer obra de maior relevância.

Por seu turno, Fernando Morais produziu alguns dos maiores livros-reportagem escritos nas últimas três décadas, no Brasil, contribuindo não somente para a divulgação de momentos importantes da nossa história contemporânea, mas também para elevar o nível do jornalismo que é praticado por aqui. Morais escreveu, pode-se dizer, em quantidade e com qualidade. Sua reportagem sobre Olga Benário é já um clássico, e a biografia que escreveu de Assis Chateaubriand seria o suficiente para içar o jornalista paulista ao panteão definitivo dos nossos bons escritores. Fazendo justiça a Morais, some-se à sua produção o excelente “Corações Sujos” e o pioneiro “A Ilha”. Não é pouco se relevarmos o fato de que o jornalismo é um gênero no qual todo o esforço e energia criativos encerram-se no vão intervalo de um único dia. O jornalista escreve “na areia”, dizia Guimarães Rosa, porque caberá ao vento varrer e apagar tudo o que foi dito no dia anterior.

Alguns talentos, como Fernando Morais,  logram vencer esse limite que é típico da profissão. Mas, como é de se esperar neste Brasil de “lábaro estrelado”,  nem sempre o talento é suficiente para se sobrepor ao peso dos fardões, das insígnias e dos jogos de interesse.

 

  

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