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Artigo
Jornalismo, fardões e o não da academia
Por Paulo Lima
Em
breve nota publicada na coluna diária de Ancelmo Góis (O Globo,
07/08), ficamos sabendo que estaria em andamento mais uma disputa por uma
vaga na Academia Brasileira de Letras, dessa vez para preenchimento da
cadeira deixada por Roberto Marinho.
De um lado, o político Marco Maciel. Do outro,
o jornalista Fernando Morais. Segundo Ancelmo, as prévias revelam
que Marco Maciel venceria por larga margem. Sem chance para o jornalista.
Esta
não é a primeira vez – e provavelmente não será a última - em que a
ABL incorre em idiossincrasia na escolha dos seus imortais,
distanciando-se anos-luz do espírito que norteou a sua criação,
conforme se lê no discurso proferido em 07/12/1897 por Machado de Assis,
primeiro presidente da instituição:
"A
Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo,
a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não
venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo
a moda, que perece, com o moderno,
que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a
Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso
que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a
composição e a conservação de obras clássicas."
Mudam os tempos, mudam os homens,
e o conceito do que vem a ser um escritor parece ter sido definitivamente
revisto pela ABL, a se considerar algumas escolhas nada edificantes feitas
por aquela academia, ao longo da sua história. Escolhas e ausências
delas. Nomes importantes do nosso beletrismo jamais envergaram o fardão,
seja por opção pessoal ou por terem sido preteridos no escrutínio
daquela secular irmandade. E não uma única vez o pêndulo dos imortais
oscilou em favor das hostes políticas. A dose se repete agora.
Se levássemos em conta a relevância
de fato literária dos nomes agora em contenda, poderíamos considerar
esta uma luta de Davi contra Golias. Vejamos. O político pernambucano foi
áulico do poder durante décadas, tendo se mantido em torno do seu círculo
- ou em seu próprio epicentro - ao
longo de sucessivos governos. Poderia ser considerado o típico
intelectual do círculo do poder, se entendido sob uma certa tipologia
gramsciana. Assim seria
caracterizada a sua presença na vida nacional. Desconhece-se que tenha
legado às fileiras da nossa literatura qualquer obra de maior relevância.
Por seu turno, Fernando Morais
produziu alguns dos maiores livros-reportagem escritos nas últimas três
décadas, no Brasil, contribuindo não somente para a divulgação de
momentos importantes da nossa história contemporânea, mas também para
elevar o nível do jornalismo que é praticado por aqui. Morais escreveu,
pode-se dizer, em quantidade e com qualidade. Sua reportagem sobre Olga
Benário é já um clássico, e a biografia que escreveu de Assis
Chateaubriand seria o suficiente para içar o jornalista paulista ao panteão
definitivo dos nossos bons escritores. Fazendo justiça a Morais, some-se
à sua produção o excelente “Corações Sujos” e o pioneiro “A
Ilha”. Não é pouco se relevarmos o fato de que o jornalismo é um gênero
no qual todo o esforço e energia criativos encerram-se no vão intervalo
de um único dia. O jornalista escreve “na areia”, dizia Guimarães
Rosa, porque caberá ao vento varrer e apagar tudo o que foi dito no dia
anterior.
Alguns talentos, como Fernando
Morais, logram vencer esse
limite que é típico da profissão. Mas, como é de se esperar neste
Brasil de “lábaro estrelado”, nem
sempre o talento é suficiente para se sobrepor ao peso dos fardões, das
insígnias e dos jogos de interesse.
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