Webjornal - Quinzenal  - Edição 37 - Aracaju,  31 de agosto a  07 de setembro  de 2003
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Artigo

A professora, a carta, o preconceito 

Por Paulo Lima

Uma professora de português de nível universitário conta que foi procurada, outro dia, para escrever uma carta. Não exatamente para escrevê-la, mas para melhorá-la. O solicitante, o síndico de um condomínio, já havia tentado, juntamente com outros condôminos, dar conta do serviço, mas não havia gostado do resultado. Queria o toque de um especialista no assunto, alguém que soubesse acrescentar à carta alguns adereços, berloques e coisas assim, embelezando-a.

O episódio, embora pequeno, revela uma questão maior, o sentimento de exclusão da maior parte da população do Brasil, quando o assunto que está em jogo é o conhecimento do português. Para essa maioria, dominar suas regras, suas artimanhas e desbravar seus íngremes caminhos é um atributo somente de especialistas, como o professor de português.

Caberia aos demais usuários da última flor do Lácio contentar-se com a possibilidade do erro, das cedilhas deslocadas, dos "esses" e "erres"  fora do lugar.

Mas erro de português não existe. 

O que existe é a tentativa de transplante, pura e simples, de um idioma que já não mantém, entre nós, as mesmas formas  herdadas dos nossos antepassados lusos. A língua é a resultante de um processo sócio-cultural, não uma abstração. Ela reflete a dinâmica das forças sociais em contenda. Com bastante propriedade, o lingüista russo Bakhtin enunciou que a palavra contém em si as forças da dialética da luta de classes.

Trocando em miúdos a idéia de Bakhtin: cada palavra que utilizamos está repleta de história, da nossa história individual.   Se a história muda, as palavras também mudam. A quem serve, porém, a visão de uma língua única e imutável? Aos que não querem que a história mude, exatamente a história do nosso passado de colonizados, de arbitrariedades e de dominação.

Nisso reside a relação entre a exigência do domínio do idioma, normatizado nas gramáticas tradicionais, e a manutenção do status quo. Ou seja, só está apto a deter o poder quem maneja bem os recursos da língua. A história recente do país tem, no caso do presidente Lula,  um exemplo tão apropriado quanto eloqüente.

Introjetada na mentalidade do brasileiro há séculos, essa visão contribui para a baixa estima de grande parte da nossa população, que mal tem acesso a uma escola, sendo alvo de um processo de exclusão lingüístico e, por conseguinte, de qualquer pretensão de mudança social. Vítima do preconceito, ela estará condenada a incorrer sempre no mesmo "erro".  

E, para combater o "erro",  haverá sempre um "policial da retórica"  a postos em cada esquina. Eles são muitos e contam com o beneplácito da mídia, ela mesma uma guardiã auto-conferida da clareza e precisão lingüísticas.

Proliferam as cartilhas de uso normativo da língua portuguesa, alertando para os erros  mais comuns. Ora - argumenta Marcos Bagno, um dos maiores estudiosos do preconceito lingüístico no Brasil e autor de uma prolífica obra sobre o assunto -,  se é comum, então não é erro. Se a maioria fala assim, então o tal "erro" já é uma forma consagrada de expressão. 

O preconceito só pode ser justificado pela ignorância. E é a ignorância da nossa rica e diversificada realidade lingüística  que  nos faz acreditar na superioridade de um português padrão único e coeso.

É esse tipo de crença que sempre alimentou (e tem alimentado) tantos males do nosso processo de formação histórica. Reconhecer a nossa diversidade sócio-cultural e respeitá-la já é um bom primeiro passo para combater o preconceito lingüístico.   

  

  

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