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Artigo
Ave Susan
Por Paulo Lima
O
11 de setembro não teria repercutido com a força avassaladora que
se viu, não fosse a presença esmagadora daquelas imagens,
repetidas numa circularidade inacreditável, horas, dias e meses após a
consumação da tragédia. Pelo menos esta foi a opinião do fotógrafo
Sebastião Salgado à época dos atentados.
Autor
de algumas das imagens mais marcantes do século XX, Salgado sabe do que
está falando. O império da imagem catapultou o sensacionalismo e o
espetáculo a níveis jamais vistos anteriormente. O telejornalismo, a
partir dos anos 1960, passa a utilizar cada vez mais os recursos do
cinema, gerando uma combinação explosiva de notícia revestida de
angulações cinematográficas, urdindo, dessa forma, o seu próprio
conceito de notícia ou informação. Notícia é o que emociona, é
o que espetaculariza, ao envolver o espectador numa espécie de
catarse. A proximidade do fato, desse modo, mediante a
proliferação das imagens em tempo real, daria ao espectador a suposta
ilusão de que seria um partícipe do bonde da
história.
Mas, como reagimos a esse
excesso diário de imagens? Nossa capacidade de indignação aumentou, ou
simplesmente nos tornamos indiferentes à dor alheia?
Esse é o tipo de reflexão
que Susan Sontag faz em seu novo livro Diante da Dor dos
Outros, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Longe
de apresentar qualquer tipo de resposta, a combativa
intelectual norte-americana faz um convite à reflexão sobre essas
questões difíceis.
Culta, munida de argumentos
inspirados em diversas fontes - da obra de Platão aos quadros de
Francisco Goya -, Susan Sontag reflete sobre os limites que a modernidade
impôs a todos, através do banimento crescente da solidariedade e da
racionalidade.
A referência ao uso e ao
sentido das imagens é, na verdade, uma justificativa para que a premiada
escritora possa expor, do seu púlpito, a sua crítica aos rumos do mundo,
em especial da América dominada pela megalomania de Bush e
companhia.
No fundo, o livro pode ser
visto também como um alerta contra as ações cada vez mais
"embutidas" da imprensa, principalmente a norte-americana,
porta-voz do Pentágono na guerra contra o Iraque. "Ser um espectador
de calamidades ocorridas em outro país é uma experiência moderna
essencial, a dádiva acumulada durante mais de um século e meio graças a
esses turistas profissionais e especializados conhecidos pelo nome de
jornalistas", alfineta Susan.
Embora instigante e ilustrado
pelas incursões que Susan Sontag faz pela cultura ocidental, há que se
perguntar o que de fato esse novo ensaio acrescenta à discussão
já largamente estabelecida por pensadores como Pierre Bourdieu e Jean
Baudrillard, por exemplo, críticos ferrenhos dos descaminhos da mídia.
"Para apresentar uma
denúncia, e talvez modificar um comportamento, os fotógrafos precisam
chocar", diz ela a certa altura do livro. Tal afirmação soa como
uma platitude perto do que já afirmou, por exemplo, Guy Dubord, em
sua teoria pioneira sobre a cultura do espetáculo, nos anos 1960.
"As fotos objetificam:
transformam um fato ou uma pessoa em algo que se pode possuir. E as fotos
são uma espécie de alquimia, a despeito de serem tão elogiadas como
registros transparentes da realidade", denuncia Susan Sontag em outra
passagem. De fato, a foto é uma espécie de alquimia, principalmente
porque reflete o ponto de vista estritamente pessoal do fotógrafo, e até
porque, com os recursos tecnológicos de que dispomos, fica cada vez mais
difícil estabelecer uma fronteira entre o que é ou não
manipulado.
Platitudes à parte, Susan
Sontag é um daqueles tipos brechtianos - os que não desistem nunca e,
por isso, são indispensáveis. Ela é uma voz importante numa América
tão dominada pela construção de sentido determinado pela mídia,
dominação que se exerce exatamente pela força esmagadora da
imagem. Conforta saber que com ela se pode contar do lado de cá do
front. Ave Susan.
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