Webjornal - Quinzenal  - Edição 38 - Aracaju,  14 a 21  de setembro  de 2003
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Artigo

Ave Susan 

Por Paulo Lima

O 11 de setembro não teria repercutido com a força avassaladora que  se viu,  não fosse a presença esmagadora daquelas imagens, repetidas numa circularidade inacreditável, horas, dias e meses após a consumação da tragédia. Pelo menos esta foi a opinião do fotógrafo Sebastião Salgado à época dos atentados.

Autor de algumas das imagens mais marcantes do século XX, Salgado sabe do que está falando. O império da imagem  catapultou o sensacionalismo e o espetáculo a níveis jamais vistos anteriormente. O telejornalismo, a partir dos anos 1960, passa a utilizar cada vez mais os recursos do cinema, gerando uma combinação explosiva de notícia revestida de angulações cinematográficas, urdindo, dessa forma, o seu próprio conceito de notícia ou informação.  Notícia é o que emociona, é o que espetaculariza, ao envolver o espectador numa espécie de catarse.  A proximidade do fato, desse modo, mediante a proliferação das imagens em tempo real, daria ao espectador a suposta ilusão de que seria um partícipe do bonde da história.       

Mas, como reagimos a esse excesso diário de imagens? Nossa capacidade de indignação aumentou, ou simplesmente nos tornamos indiferentes à dor alheia?

Esse é o tipo de reflexão que Susan Sontag faz em seu novo livro Diante da Dor dos Outros, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.  Longe de apresentar qualquer tipo de resposta, a  combativa  intelectual norte-americana faz  um convite à reflexão sobre essas questões difíceis.

Culta, munida de argumentos inspirados em diversas fontes - da obra de Platão aos quadros de Francisco Goya -, Susan Sontag reflete sobre os limites que a modernidade impôs a todos, através do banimento crescente da solidariedade e da racionalidade.

A referência ao uso e ao sentido das imagens é, na verdade, uma justificativa para que a premiada escritora possa expor, do seu púlpito, a sua crítica aos rumos do mundo, em especial da América dominada pela megalomania de Bush e companhia. 

No fundo, o livro pode ser visto também como um alerta contra as ações cada vez mais "embutidas" da imprensa, principalmente a norte-americana, porta-voz do Pentágono na guerra contra o Iraque. "Ser um espectador de calamidades ocorridas em outro país é uma experiência moderna essencial, a dádiva acumulada durante mais de um século e meio graças a esses turistas profissionais e especializados conhecidos pelo nome de jornalistas", alfineta Susan. 

Embora instigante e ilustrado pelas incursões que Susan Sontag faz pela cultura ocidental, há que se perguntar o que de fato esse novo ensaio  acrescenta à discussão já largamente estabelecida por pensadores como Pierre Bourdieu e Jean Baudrillard, por exemplo, críticos ferrenhos dos descaminhos da mídia.

"Para apresentar uma denúncia, e talvez modificar um comportamento, os fotógrafos precisam chocar", diz ela a certa altura do livro. Tal afirmação soa como uma platitude perto do que já afirmou, por exemplo,  Guy Dubord, em sua teoria pioneira sobre a cultura do espetáculo, nos anos 1960.

"As fotos objetificam: transformam um fato ou uma pessoa em algo que se pode possuir. E as fotos são uma espécie de alquimia, a despeito de serem tão elogiadas como registros transparentes da realidade", denuncia Susan Sontag em outra passagem. De fato, a foto é uma espécie de alquimia, principalmente porque reflete o ponto de vista estritamente pessoal do fotógrafo, e até porque, com os recursos tecnológicos de que dispomos, fica cada vez mais difícil estabelecer uma fronteira entre o que é ou não manipulado.  

Platitudes à parte, Susan Sontag é um daqueles tipos brechtianos - os que não desistem nunca e, por isso, são indispensáveis. Ela é uma voz importante numa América tão dominada pela construção de sentido determinado pela mídia, dominação que se exerce exatamente pela força esmagadora  da imagem.  Conforta saber que com ela se pode contar do lado de cá do front. Ave Susan.

 

  

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