Webjornal - Quinzenal  - Edição 39 - Aracaju,  28 de setembro a  05  de outubro  de 2003
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Artigo

A outra voz 

Por Paulo Lima

O drama romântico que impulsiona o belo filme  "O Carteiro e O Poeta" revela a interpretação mágica de Máximo Troisi, que morreria pouco tempo depois de concluídas as filmagens, e a beleza discreta da sua musa Beatrice. A poesia perpassa o filme, da primeira à última cena. Na trama, desponta  a figura ao mesmo tempo suave e austera do poeta chileno Pablo Neruda.

E é nos diálogos do ingênuo carteiro com o sábio poeta que o filme atinge alguns dos seus momentos máximos. Para quem somente ouviu falar pela primeira vez de Pablo Neruda através do filme, não é um mau começo. Mas fica somente nisso: um começo.

Pablo Neruda, pode-se dizer, alimentou os sonhos de muitos amantes desde que, com vinte e três anos somente, escreveu seus mais famosos versos "Vinte sonetos de amor e uma canção desesperada". Em 23 de setembro, morria esse que é considerado o poeta maior do Chile, um dos maiores da poesia latino-americana.

Diz a lenda que não sobreviveu à queda do governo socialista de Salvador Allende, assassinado na tomada do palácio La Moneda, em 11 de setembro de 1973, em Santiago. Desgostoso, Neruda  definhou rapidamente, ele que já estava gravemente enfermo, tomado por uma leucemia.

Morria o poeta das grandes metáforas poéticas (lembram do filme?), dos grandes poemas laudatórios de engajamento político, como os do seu "Canto Geral". E dos grandes amores. Levou um vidão em meio a viagens pelos confins do mundo,  confrarias literárias, políticas e amorosas. Leia-se a sua autobiografia "Confesso que Vivi". Neruda viveu como um poeta, assim como Vinícius de Morais,  como Maiakóvsky. 

Para os grandes poetas como Neruda, a vida, assim como o amor, é um imperativo. Há que sugar-lhe a seiva diária, ainda que das suas armadilhas possa advir o mais duro desencanto.

"Te amei sem por que, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida, e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância".

Estes são uns versos do longo poema "A Barcarola". Assim é o poeta e assim agia Neruda: seguia o rumo, mesmo que lhe ameaçasse a férrea distância do amor, da vida. O poeta é um ser abandonado, sem pátria ou porto seguro. Os versos dos "vinte poemas" falam desse abandono:

"É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento./ Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,/minha alma não se contenta em tê-la perdido./Ainda que este seja a última dor que ela me causa,/e estes os últimos versos que lhe escrevo".     

No Brasil, Neruda virou uma espécie de arroz de festa. Ia e vinha com freqüência, sendo saudado por amigos como Jorge Amado, Rubem Braga, Vinícius de Morais, Paulo Mendes Campos e outros daquela geração tão dada à amizade  quanto à poesia. No nosso cancioneiro o poeta ficou imortalizado naquela canção de desenlace amoroso de Chico Buarque, lembram? Um livro de Neruda sendo disputado na troca de  miúdos dos amantes. 

No seu ensaio clássico "A Outra Voz", o mexicano Octávio Paz, ele próprio um grande poeta, reconheceu na poesia a voz por  meio da qual  todos os desvalidos dessa existência se fazem ouvir. Enquanto viveu, Pablo Neruda foi a voz do Chile, dos seus trabalhadores assassinados nas minas de cobre. Conta-se que ia até o local de trabalho onde estavam os operários para ler-lhes versos, para injertar-lhes ânimo na luta bravia contra o dominador opressor.

Dizem que Jorge Luís Borges não gostava de Neruda, desdenhava-lhe a poesia. Borges era grande o suficiente para não gostar de muita gente, inclusive de Neruda, mas o desafeto do bruxo da Calle Maipú certamente não diminui a grandeza do poeta chileno,  nem impede que os amantes, ao menos os mais sensíveis,  continuem a lhe saquear os versos.  

 

  

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