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Artigo
A outra voz
Por Paulo Lima
O
drama romântico que impulsiona o belo filme "O Carteiro e O
Poeta" revela a interpretação mágica de Máximo Troisi, que
morreria pouco tempo depois de concluídas as filmagens, e a beleza
discreta da sua musa Beatrice. A poesia perpassa o filme, da primeira à
última cena. Na trama, desponta a figura ao mesmo tempo suave e
austera do poeta chileno Pablo Neruda.
E
é nos diálogos do ingênuo carteiro com o sábio poeta que o filme
atinge alguns dos seus momentos máximos. Para quem somente ouviu falar
pela primeira vez de Pablo Neruda através do filme, não é um mau
começo. Mas fica somente nisso: um começo.
Pablo
Neruda, pode-se dizer, alimentou os sonhos de muitos amantes desde que,
com vinte e três anos somente, escreveu seus mais famosos versos
"Vinte sonetos de amor e uma canção desesperada". Em 23 de
setembro, morria esse que é considerado o poeta maior do Chile, um dos
maiores da poesia latino-americana.
Diz
a lenda que não sobreviveu à queda do governo socialista de Salvador
Allende, assassinado na tomada do palácio La Moneda, em 11 de setembro de
1973, em Santiago. Desgostoso, Neruda definhou rapidamente, ele que
já estava gravemente enfermo, tomado por uma leucemia.
Morria
o poeta das grandes metáforas poéticas (lembram do filme?), dos grandes
poemas laudatórios de engajamento político, como os do seu "Canto
Geral". E dos grandes amores. Levou um vidão em meio a viagens pelos
confins do mundo, confrarias literárias, políticas e amorosas.
Leia-se a sua autobiografia "Confesso que Vivi". Neruda viveu
como um poeta, assim como Vinícius de Morais, como Maiakóvsky.
Para
os grandes poetas como Neruda, a vida, assim como o amor, é um
imperativo. Há que sugar-lhe a seiva diária, ainda que das suas
armadilhas possa advir o mais duro desencanto.
"Te
amei sem por que, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida, e eu não
sabia que ouvia a voz da férrea distância".
Estes
são uns versos do longo poema "A Barcarola". Assim é o poeta e
assim agia Neruda: seguia o rumo, mesmo que lhe ameaçasse a férrea
distância do amor, da vida. O poeta é um ser abandonado, sem pátria ou
porto seguro. Os versos dos "vinte poemas" falam desse abandono:
"É
tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento./ Porque em noites como
esta eu a tive entre os meus braços,/minha alma não se contenta em tê-la
perdido./Ainda que este seja a última dor que ela me causa,/e estes os últimos
versos que lhe escrevo".
No
Brasil, Neruda virou uma espécie de arroz de festa. Ia e vinha com freqüência,
sendo saudado por amigos como Jorge Amado, Rubem Braga, Vinícius de Morais, Paulo
Mendes Campos e outros daquela geração tão dada à amizade quanto
à poesia. No
nosso cancioneiro o poeta ficou imortalizado naquela canção de desenlace amoroso
de Chico Buarque, lembram? Um livro de Neruda sendo disputado na troca
de miúdos dos amantes.
No
seu ensaio clássico "A Outra Voz", o mexicano Octávio Paz, ele próprio
um grande poeta, reconheceu na poesia a voz por meio da qual todos os
desvalidos dessa existência se fazem ouvir. Enquanto viveu, Pablo Neruda
foi a voz do Chile, dos seus trabalhadores assassinados nas minas de cobre. Conta-se que ia até o local de trabalho onde estavam os
operários para ler-lhes versos, para injertar-lhes ânimo na luta bravia
contra o dominador opressor.
Dizem
que Jorge Luís Borges não gostava de Neruda, desdenhava-lhe a poesia.
Borges era grande o suficiente para não gostar de muita gente, inclusive
de Neruda, mas o desafeto do bruxo da Calle Maipú certamente não diminui
a grandeza do poeta chileno, nem impede que os amantes, ao menos os mais
sensíveis, continuem a lhe saquear os versos.
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