Webjornal - Quinzenal  - Edição 40 - Aracaju,  12 a 19   de outubro  de 2003
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Artigo

A antena da praça 

Por Paulo Lima

Provavelmente, trata-se de uma iniciativa inusitada no Brasil. Um pianista clássico percorrendo cidades ribeirinhas do Nordeste, levando música a comunidades sequer agraciadas com bens, por assim dizer, mais elementares. O inusitado deixa de ser inusitado, contudo, se o pianista em apreço é Arthur Moreira Lima.

Há tempos esse pianista carioca,  que já tocou nas mais famosas salas de concerto pelo mundo afora, vem flertando com essa possibilidade de levar a música aonde o povo está. Especialista na obra de Chopin, Moreira Lima não se contentou, porém, em passar o resto da vida  respirando  unicamente os ares rarefeitos dos píncaros da música clássica. Inquieto, foi à luta. Nas suas incursões pelo popular, travou contato com a obra de Astor Piazolla, encontro que lhe rendeu releituras do trabalho do inovador músico argentino. Persistindo na sua ação herética,  gravou com Nelson Rodrigues e, posteriormente, com Altamiro Carrilho, dois grandes ícones da música brasileira.

O poeta norte-americano Ezra Pound acreditava que o artista era a antena da raça, atribuindo à arte um panteão elevado acima das massas. Entusiasta do futebol (é um torcedor fanático do Fluminense do Rio de Janeiro), Moreira Lima certamente está mais próximo da paródia que Maiakóvsky fez à frase de Pound. Para o futurista russo, o artista era a antena da praça, num esforço genuíno de desmistificar a arte enquanto atributo de uns quantos iniciados e ungidos.

A caravana de Moreira Lima pelos rincões ribeirinhos do Nordeste não poderia ser mais mambembe. Formada por um ônibus com a equipe do pianista e um caminhão, destinado a carregar o  piano, a trupe bem que poderia ter saído de uma daquelas cenas do filme Bye Bye Brazil, de Cacá Diegues.   

Como uma espécie de Antônio Conselheiro com propósitos iluministas, imbuído de levar a redenção pela música aos locais mais inóspitos, Moreira Lima é um abnegado. Além de percorrer as cidades às margens ou próximas ao velho Chico, levará a música clássica - e a popular brasileira que se tornou clássica junto às comunidades ribeirinhas - para as escolas públicas de 12 daqueles municípios.

Apoiado pelo Ministério da Educação, o projeto foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal e pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Na solenidade de assinatura do projeto em Brasília, o pianista revelou que aquele era um sonho que também a Caixa realizava, se referindo a um mote publicitário daquele banco do governo.  

O ministro Cristovam Buarque classificou a atitude do pianista como generosa. Segundo ele, "a Coluna Moreira irá pelo sertão, carregando um piano nas costas, metaforicamente, para tocar para o povo".

Em 1990, depois de uma temporada na Europa, Arthur Moreira Lima se apresentou em diversas capitais do Brasil, lotando teatros e alternando Chopin e Ernesto Nazareth. Nas suas performances pelas cidades ribeirinhas, utilizará o próprio caminhão da caravana como palco, utilizando-se de um espaço de 40m2.

O repertório apresentado por Moreira Lima não poderia ser mais eclético. Vai incluir peças musicais de Bach, Pinxinguinha, Beethoven, Chopin, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Noel Rosa, Radamés Gnatalli e Astor Piazolla. O projeto "Rio de música" é a realização de um sonho do pianista. Ao torná-lo sua realidade, interfere noutra realidade cuja música segue uma partitura bastante diversa, aquela que toca a melodia da fome e das dificuldades. 

      

  

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