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Artigo
A antena da praça
Por Paulo Lima
Provavelmente,
trata-se de uma iniciativa inusitada no Brasil. Um pianista clássico
percorrendo cidades ribeirinhas do Nordeste, levando música a comunidades
sequer agraciadas com bens, por assim dizer, mais elementares. O inusitado
deixa de ser inusitado, contudo, se o pianista em apreço é Arthur
Moreira Lima.
Há
tempos esse pianista carioca, que já tocou nas mais famosas salas
de concerto pelo mundo afora, vem flertando com essa possibilidade de
levar a música aonde o povo está. Especialista na obra de Chopin,
Moreira Lima não se contentou, porém, em passar o resto da vida
respirando unicamente os ares rarefeitos dos píncaros da música
clássica. Inquieto, foi à luta. Nas suas incursões pelo popular, travou
contato com a obra de Astor Piazolla, encontro que lhe rendeu releituras
do trabalho do inovador músico argentino. Persistindo na sua ação
herética, gravou com Nelson Rodrigues e, posteriormente, com
Altamiro Carrilho, dois grandes ícones da música brasileira.
O
poeta norte-americano Ezra Pound acreditava que o artista era a antena da
raça, atribuindo à arte um panteão elevado acima das massas. Entusiasta
do futebol (é um torcedor fanático do Fluminense do Rio de Janeiro),
Moreira Lima certamente está mais próximo da paródia que Maiakóvsky
fez à frase de Pound. Para o futurista russo, o artista era a antena da
praça, num esforço genuíno de desmistificar a arte enquanto atributo de
uns quantos iniciados e ungidos.
A
caravana de Moreira Lima pelos rincões ribeirinhos do Nordeste não
poderia ser mais mambembe. Formada por um ônibus com a equipe do pianista
e um caminhão, destinado a carregar o piano, a trupe bem que
poderia ter saído de uma daquelas cenas do filme Bye Bye Brazil,
de Cacá Diegues.
Como uma espécie de Antônio
Conselheiro com propósitos iluministas, imbuído de levar a redenção
pela música aos locais mais inóspitos, Moreira Lima é um abnegado.
Além de percorrer as cidades às margens ou próximas ao velho Chico,
levará a música clássica - e a popular brasileira que se tornou
clássica junto às comunidades ribeirinhas - para as escolas públicas de
12 daqueles municípios.
Apoiado pelo Ministério da
Educação, o projeto foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal e pela
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Na solenidade de assinatura
do projeto em Brasília, o pianista revelou que aquele era um sonho que
também a Caixa realizava, se referindo a um mote publicitário daquele
banco do governo.
O ministro Cristovam Buarque
classificou a atitude do pianista como generosa. Segundo ele, "a
Coluna Moreira irá pelo sertão, carregando um piano nas costas,
metaforicamente, para tocar para o povo".
Em 1990, depois de uma temporada
na Europa, Arthur Moreira Lima se apresentou em diversas capitais do
Brasil, lotando teatros e alternando Chopin e Ernesto Nazareth. Nas suas
performances pelas cidades ribeirinhas, utilizará o próprio caminhão da
caravana como palco, utilizando-se de um espaço de 40m2.
O repertório apresentado por
Moreira Lima não poderia ser mais eclético. Vai incluir peças
musicais de Bach, Pinxinguinha, Beethoven, Chopin, Villa-Lobos, Ernesto
Nazareth, Noel Rosa, Radamés Gnatalli e Astor Piazolla. O projeto
"Rio de música" é a realização de um sonho do pianista. Ao
torná-lo sua realidade, interfere noutra realidade cuja música segue uma
partitura bastante diversa, aquela que toca a melodia da fome e das
dificuldades.
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