|
Artigo
O novo escravismo
Por Paulo Lima
Foto: Val
Na
paisagem urbana de Poço Redondo, interior de Sergipe, a fotógrafa vê algumas antenas parabólicas que se equilibram sobre um prédio pobre
não concluído.
Aparentemente, trata-se de uma cena singular, uma vez que indicariam uma
intrusão da modernidade em um lugar marcado pelo atraso secular - aquele
município do alto sertão exibe índices reprováveis de desenvolvimento
humano, a exemplo de milhares de pequenas cidades espalhadas pela
imensidão do Brasil.
Singular,
contudo, não é. Essa é uma imagem relativamente comum no nosso cenário
interiorano: signos do moderno em aparente convívio pacífico com ícones da mais
perfeita representação da nossa pobreza: desmandos políticos, crianças
em idade escolar sem escola, evasão do campo para a cidade, falta de
oportunidade para os que ficam, mortalidade infantil, seca e
fome.
Talvez
seja mais apropriado ver nesses contrastes uma espécie de ironia que
pontua o nosso modelo de desenvolvimento. O Brasil é um dos poucos
países do mundo que não realizou reforma agrária, mas persegue os rumos
da conquista espacial. Essa marca da dualidade reparte o Brasil em
diversos brasis, permitindo a existência de bolsões de miséria em meio
a ilhas de riqueza. Nas palavras de Octávio Ianni, em A Idéia
de Brasil Moderno: "o Brasil moderno parece um caleidoscópio de
muitas épocas, formas de vida e trabalho, modos de ser e pensar. Mas é
possível perceber as heranças do escravismo predominando sobre todas as
heranças".
Será
que essa herança do escravismo não poderia ser interpretada como um novo
escravismo, metamorfoseado em novas formas de dominação de corpos e
mentes? Não será possível enxergar na invasão das parabólicas um inevitável
efeito-demonstração da tecnologia que destrói fronteiras, corrompe
culturas e se instala nos mais inóspitos rincões como linguagem única e
irreversível? A família mal tem o que comer, mas dispõe de um
aparelho de TV num canto da sala.
Ironia
e sintomas de uma modernidade inexorável? Sim, mas também sinal de que
nos locais onde se vê uma parabólica dominando a paisagem, um pouco mais
da cultura local está se perdendo. E é curioso como essa
aculturação dramática e veloz dos regionalismos cria novos componentes
de subjetividade: será mais vivido como status de verdade o que ocorre
numa novela, por exemplo, do que aquilo que se mostra bem debaixo do
nariz, na própria comunidade.
Os
prejuízos são incomensuráveis. Os simulacros de realidade que chegam
via antenas contribuem, ao invés de libertar, para criar uma confusão
maior em termos de identidade, ao ditarem valores distanciados do
contexto da cultura local, principalmente se levarmos em conta que o que
se costuma oferecer em termos de programação de TV é algo muito
distante do que se pode chamar de salutar.
Essa
é mais uma tragédia que poderia ser acrescentada ao rol de outras tantas
tragédias que assolam a paisagem de lugares como Poço Redondo e
similares pelo Brasil afora, um novo escravismo com marcas mais sutis
impostas por modernas chibatas.
|