Webjornal - Quinzenal  - Edição 41 - Aracaju,  26   de outubro a 2  de novembro  de 2003
_________________________________________________________________________________________

Artigo

O novo escravismo 

Por Paulo Lima
Foto: Val

Na paisagem urbana de Poço Redondo, interior de Sergipe, a fotógrafa vê algumas antenas parabólicas que se equilibram sobre um prédio pobre  não concluído. Aparentemente, trata-se de uma cena singular, uma vez que indicariam uma intrusão da modernidade em um lugar marcado pelo atraso secular - aquele município do alto sertão exibe índices reprováveis de desenvolvimento humano, a exemplo de milhares de pequenas cidades espalhadas pela imensidão do Brasil.

Singular, contudo, não é. Essa é uma imagem relativamente comum no nosso cenário interiorano: signos do moderno em aparente convívio pacífico com ícones da mais perfeita representação da nossa pobreza: desmandos políticos, crianças em idade escolar sem escola, evasão do campo para a cidade, falta de oportunidade para os que ficam, mortalidade infantil, seca e fome.          

Talvez seja mais apropriado ver nesses contrastes uma espécie de ironia que pontua o nosso modelo de desenvolvimento. O Brasil é um dos poucos países do mundo que não realizou reforma agrária, mas persegue os rumos da conquista espacial. Essa marca da dualidade reparte o Brasil em diversos brasis, permitindo a existência de bolsões de miséria em meio a ilhas de riqueza.  Nas palavras de Octávio Ianni, em A Idéia de Brasil Moderno: "o Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas, formas de vida e trabalho, modos de ser e pensar. Mas é possível perceber as heranças do escravismo predominando sobre todas as heranças". 

Será que essa herança do escravismo não poderia ser interpretada como um novo escravismo, metamorfoseado em novas formas de dominação de corpos e mentes? Não será possível enxergar na invasão das parabólicas um inevitável efeito-demonstração da tecnologia que destrói fronteiras, corrompe culturas e se instala nos mais inóspitos rincões como linguagem única e irreversível? A família mal tem o que comer, mas dispõe de um aparelho de TV num canto da sala. 

Ironia e sintomas de uma modernidade inexorável? Sim, mas também sinal de que nos locais onde se vê uma parabólica dominando a paisagem, um pouco mais da cultura local está se perdendo.  E é curioso como essa aculturação dramática e veloz dos regionalismos cria novos componentes de subjetividade: será mais vivido como status de verdade o que ocorre numa novela, por exemplo, do que aquilo que se mostra bem debaixo do nariz, na própria comunidade.

Os prejuízos são incomensuráveis. Os simulacros de realidade que chegam via antenas contribuem, ao invés de libertar, para criar uma confusão maior em termos de identidade,  ao ditarem valores distanciados do contexto da cultura local, principalmente se levarmos em conta que o que se costuma oferecer em termos de programação de TV é algo muito distante do que se pode chamar de salutar.

Essa é mais uma tragédia que poderia ser acrescentada ao rol de outras tantas tragédias que assolam a paisagem de lugares como Poço Redondo e similares pelo Brasil afora, um novo escravismo com marcas mais sutis impostas por modernas chibatas.  

 

  

(c) Todos os Direitos Reservados