Webjornal - Quinzenal  - Edição 42 - Aracaju,  9 a 16  de novembro  de 2003
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Artigo

A terceira vida de Olga Benário 

Por Paulo Lima

Há coisa de uma década, quando dobrei a última página de Olga, o livro do super jornalista Fernando Morais,  pensei de imediato: daria um filmaço. Fiquei imaginando aquela história tão rica e emocionante na tela grande, envolvendo os espectadores num processo de catarse tão poderoso que só o cinema talvez, e vá lá o teatro, seja capaz de proporcionar. Como certamente a maioria dos leitores, finda a leitura me vi rodopiando num carrossel de emoções. A primeira delas, uma paixão arrebatadora pela judia alemã que Getúlio Vargas entregou ao governo nazista para ser executada numa câmara de gás, na Segunda Guerra Mundial. A segunda, uma raiva impotente contra Luis Carlos Prestes, por sua frieza glacial perante o destino trágico da companheira alemã. Prestes, conforme relatou recentemente Fernando Morais numa entrevista, afirmou que a causa comunista estava acima das paixões pessoais. 

Um outro sentimento foi o de admiração pelo punhado de bravos retratados no livro e sua fé no comunismo como solução para os destinos da humanidade. Visto sob a  perspectiva histórica, está claro que haviam embarcado numa canoa furada, mas a sua coragem e a sua crença numa revolução mundial os impelia adiante. 

Olga era uma aguerrida defensora do socialismo alemão. Enquanto moçoilas da mesma idade certamente estavam às voltas com outros objetivos, na fria Berlim, nos momentos que antecedem a Segunda Grande Guerra,  Olga se engajava na luta política, arriscando a própria vida. Como se sabe, a luta ceifou alguns líderes históricos no período, como a lendária Rosa de Luxemburgo, a "vermelha". 

Essa visão de uma Olga Benário cheia de coragem, de uma mulher especial no seu tempo, é a que guardamos terminada a leitura da sua história. Agora Olga vai ganhar uma nova vida no filme de mesmo nome, dirigido por Jayme Monjardim, com previsão de estréia em abril de 2004.

No filme, Olga é transformada numa heroína romântica, bem a gosto da demanda mediana desses tempos de dominação dos roteiros de ópera de sabão (ou novelas). A política - o contorno essencial da vida da judia de Berlim - é deixada de lado. Talvez configurando um lance de esperteza publicitária, uma Olga "romantizada" é quem o grande público conhecerá com o filme.

Talvez seja o caso de se argumentar: mais vale uma Olga na mão do que duas voando. Que pelo menos o público que não teve acesso à obra, por falta de interesse ou por uma questão de recurso para comprar o livro, conheça minimamente a grande história da sua vida.

Mas, devidamente adaptada e depurada do seu conteúdo mais difícil - e menos assimilável por parte da massa de espectadores, o que restará desse drama épico? Talvez nada, a não ser a sugestão da sua essência, mostrada em cenas de ação com nervosos e ameaçadores comunistas garantindo a ação do filme e uma Olga transfigurada no papel de mais uma mocinha da novela das 8, dando e provocando suspiros. Jayme Monjardim parece ter aprendido bem a lição imposta pela contemporaneidade. Cultura é um negócio como qualquer outro - e quanto mais vender, melhor. Mas ao mesmo tempo reforça uma tendência que, salvo exceções, parece pontuar a nossa produção cinematográfica recente: o namoro da linguagem do cinema com a linguagem típica da TV, como se o que se faz na telinha servisse de referencial para o sucesso comercial, de preferência rápido. A estética da TV e o seu conteúdo maniqueísta é o que parece se irradiar por toda a produção cultural contemporânea, incluindo o cinema. É a vitória suprema da indústria cultural - e ponto final.   

Assim, o diretor de Olga não esconde a sua opção. A produção terá forte apelo popular, e deverá se encaixar perfeitamente no esquema do tipo "veja o filme, compre o disco, leia o livro". O filme certamente irá alavancar novas tiragens do livro, recentemente reimpresso pela Companhia das Letras. Isso é bom. Mas tomara que a aura da figura grandiosa que foi Olga Benário não se dilua tanto  nessa que seria sua terceira vida, subentendo-se que o livro de Fernando Morais corresponde à segunda vida dessa incrível personalidade da primeira metade do século XX.

 

  

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