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Artigo
A terceira vida de
Olga Benário
Por Paulo Lima
Há
coisa de uma década, quando dobrei a última página de Olga, o livro do super jornalista Fernando Morais, pensei de imediato: daria um
filmaço. Fiquei imaginando aquela história tão rica e emocionante na
tela grande, envolvendo os espectadores num processo de catarse tão
poderoso que só o cinema talvez, e vá lá o teatro, seja capaz de proporcionar. Como
certamente a
maioria dos leitores, finda a leitura me vi rodopiando num carrossel de emoções. A primeira delas, uma paixão arrebatadora pela
judia alemã que Getúlio Vargas entregou ao governo nazista para ser
executada numa câmara de gás, na Segunda Guerra Mundial. A segunda, uma
raiva impotente contra Luis Carlos Prestes, por sua frieza glacial perante
o destino trágico da companheira alemã. Prestes, conforme relatou
recentemente Fernando Morais numa entrevista, afirmou que a causa
comunista estava acima das paixões pessoais.
Um
outro sentimento foi o de admiração pelo punhado de bravos retratados no
livro e sua fé no comunismo como solução para os destinos da
humanidade. Visto sob a perspectiva histórica, está claro
que haviam embarcado numa canoa furada, mas a sua coragem e a sua crença
numa revolução mundial os impelia adiante.
Olga
era uma aguerrida defensora do socialismo alemão. Enquanto moçoilas da
mesma idade certamente estavam às voltas com outros objetivos,
na fria Berlim, nos momentos que antecedem a Segunda Grande Guerra, Olga
se engajava na luta política, arriscando a própria vida. Como se sabe, a
luta ceifou alguns líderes históricos no período, como a
lendária Rosa de Luxemburgo, a "vermelha".
Essa
visão de uma Olga Benário cheia de coragem, de uma mulher especial no
seu tempo, é a que guardamos terminada a leitura da sua história. Agora
Olga vai ganhar uma nova vida no filme de mesmo nome, dirigido por Jayme
Monjardim, com previsão de estréia em abril de 2004.
No
filme, Olga é transformada numa heroína romântica, bem a gosto da
demanda mediana desses tempos de dominação dos roteiros de ópera de
sabão (ou novelas). A política - o contorno essencial da vida da judia de
Berlim - é deixada de lado. Talvez configurando um lance de esperteza
publicitária, uma Olga "romantizada" é quem o grande público
conhecerá com o filme.
Talvez
seja o caso de se argumentar: mais vale uma Olga na mão do que duas
voando. Que pelo menos o público que não teve acesso à obra, por falta
de interesse ou por uma questão de recurso para comprar o livro, conheça
minimamente a grande história da sua vida.
Mas,
devidamente adaptada e depurada do seu conteúdo mais difícil - e menos
assimilável por parte da massa de espectadores, o que restará desse
drama épico? Talvez nada, a não ser a sugestão da sua essência,
mostrada em cenas de ação com nervosos e ameaçadores comunistas
garantindo a ação do filme e uma Olga transfigurada no papel de mais uma
mocinha da novela das 8, dando e provocando suspiros. Jayme Monjardim
parece ter aprendido bem a lição imposta pela contemporaneidade. Cultura
é um negócio como qualquer outro - e quanto mais vender, melhor. Mas ao
mesmo tempo reforça uma tendência que, salvo exceções, parece pontuar
a nossa produção cinematográfica recente: o namoro da linguagem do
cinema com a linguagem típica da TV, como se o que se faz na telinha
servisse de referencial para o sucesso comercial, de preferência rápido.
A estética da TV e o seu conteúdo maniqueísta é o que parece se
irradiar por toda a produção cultural contemporânea, incluindo o
cinema. É a vitória suprema da indústria cultural - e ponto
final.
Assim,
o diretor de Olga não esconde a sua opção. A produção terá forte apelo popular, e
deverá se encaixar perfeitamente no esquema do tipo "veja o filme,
compre o disco, leia o livro". O filme certamente irá alavancar
novas tiragens do livro, recentemente reimpresso pela Companhia das
Letras. Isso é bom. Mas tomara que a aura da figura grandiosa que foi
Olga Benário não se dilua tanto nessa que seria sua terceira vida,
subentendo-se que o livro de Fernando Morais corresponde à segunda vida
dessa incrível personalidade da primeira metade do século XX.
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