Webjornal - Quinzenal  - Edição 45 - Aracaju,  21  a  28  de dezembro  de 2003
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Artigo

O escritor é um escritor é um escritor

Por Paulo Lima

O título de inspiração steineana (lembrar Gertrude Stein: "uma rosa é uma rosa é uma rosa") e sua circularidade tem o propósito de remeter a uma questão labiríntica, um mistério: por que escrevem os escritores?. Por sobrevivência, dirão uns. Por vaidade pessoal, dirão outros. Para existir, é provável que digam alguns. As respostas podem ser muitas, nenhuma delas respondendo cabalmente à pergunta.

Jean-Paul Sartre, em sua magnífica autobiografia As Palavras, afirma que não podia ver uma página em branco, que já se sentia impelido a preenchê-la. Eis aí uma compulsão digna do mais arrematado mistério. Que os freudianos de plantão se apressariam em esclarecer com o argumento da criação artística enquanto sublimação das pulsões. Será?

Pois para Clarice Lispector,  escrever (e, por extensão, criar artisticamente) era uma maldição. Onde é que a maldição se entrelaça exatamente com Eros (ou Tânatos)? Por que uns aceitam esse auto-flagelo, e por ele é fustigado por toda uma vida, e outros não? Talvez haja mais razões para explicar o ato da criação, em si, do que pode imaginar a nossa chã psicologia.

Essa instigante questão é colocada pelo livro Por que escrevo? (Escrituras, 1999),  que reúne um punhado de justificativas para o ato de escrever, dadas por escritores brasileiros e estrangeiros. Nenhuma das razões parece ser conclusiva, mas lança, por assim dizer, pistas para uma maior compreensão desse labor que é exercido tanto por gênios das letras quanto por, digamos, renitentes tentadores.

Alguns testemunhos sobressaem pelo desconcerto. É o caso da romancista francesa Marguerite Duras: "Eu não sei, nunca soube, o que é essa estranha atividade. Creio que isso vai acabar em 2027. Pronto: de repente, ninguém escreverá mais", disse. Andamos a passos largos rumo a 2027. Cansarão os escritores do seu ofício, abandonando-o ou sendo por ele abandonados?

Há os escritores que se auto-imolam num mea culpa, como Manuel Bandeira: "Jamais senti que meu destino fosse a Poesia. Creio que se fui poeta em alguns momentos, só o fui por incidente patológico ou passional". Esse sentimento do autor de Estrela da Vida Inteira não é comum a um outro poeta, o mexicano Octavio Paz, que encarava o ato de escrever como uma expedição rumo ao desconhecido: "Escrevemos para dizer o não dito, e para conhecê-lo".

Os constantemente aprisionados pela maldição da escrita não hesitam em confessá-lo: "Às vezes, fico bastante tempo sem escrever,  mas continuo sempre com o pensamento voltado para a literatura, estou sempre pensando em novos contos ou voltando aos antigos e, mesmo que não esteja escrevendo, estou permanentemente ligado à criação. Da criação não consigo escapar", afirma um resignado Murilo Rubião, considerado precursor do realismo fantástico na América Latina,   antes mesmo que essa moda ganhasse o mundo pela prosa de Gabriel García Márquez.

Dos almadiçoados pela arte de escrever não poderia escapar um bruxo chamado Jorge Luis Borges: "Eu não poderia parar de escrever. Sempre soube que o meu destino era um destino literário de leitor e também, imprudentemente, de escritor. Eu escrevo para responder a uma pergunta, a uma necessidade interior". 

De enigmas a literatura tem as páginas repletas. E de escritores enigmáticos também. Eis a enigmática resposta do escritor indiano Lawrence Durrel, para o ato de escrever: "Para me vigiar. Uma pergunta idiota, uma resposta idiota. Mas sim: para me vigiar".   

Há os dotados de espírito missionário, como o engajado poeta espanhol Frederico Garcia Lorca: "Às vezes, quando vejo o que se passa no mundo, pergunto-me para que escrever? Mas, há que trabalhar, trabalhar, trabalhar. E ajudar o que mereça. Trabalhar como forma de protesto. Porque o impulso de uma pessoa seria gritar todos os dias ao despertar num mundo cheio de injustiças e misérias de toda ordem: protesto! protesto! protesto!".

Essa espécie de arqueologia da criação literária ganha, no livro, diversas outras contribuições, mas a nenhum desses escritores faltará, certamente, aquilo que não uma literata, mas uma economista, a inglesa Joan Robinson, afirmou certa vez: escrever é um ato de esperança. Que naturalmente não resolve o mistério, mas o humaniza. 

  

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