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Artigo
O escritor é um
escritor é um escritor
Por Paulo Lima
O
título de inspiração steineana (lembrar Gertrude Stein: "uma rosa
é uma rosa é uma rosa") e sua circularidade tem o propósito de
remeter a uma questão labiríntica, um mistério: por que escrevem os
escritores?. Por sobrevivência, dirão uns. Por vaidade pessoal,
dirão outros. Para existir, é provável que digam alguns. As respostas
podem ser muitas, nenhuma delas respondendo cabalmente à pergunta.
Jean-Paul
Sartre, em sua magnífica autobiografia As Palavras, afirma que
não podia ver uma página em branco, que já se sentia impelido a
preenchê-la. Eis aí uma compulsão digna do mais arrematado mistério.
Que os freudianos de plantão se apressariam em esclarecer com o argumento
da criação artística enquanto sublimação das pulsões. Será?
Pois
para Clarice Lispector, escrever (e, por extensão, criar
artisticamente) era uma maldição. Onde é que a maldição se entrelaça
exatamente com Eros (ou Tânatos)? Por que uns aceitam esse auto-flagelo,
e por ele é fustigado por toda uma vida, e outros não? Talvez haja mais
razões para explicar o ato da criação, em si, do que pode imaginar a
nossa chã psicologia.
Essa
instigante questão é colocada pelo livro Por que escrevo?
(Escrituras, 1999), que reúne um punhado de justificativas para o
ato de escrever, dadas por escritores brasileiros e estrangeiros. Nenhuma
das razões parece ser conclusiva, mas lança, por assim dizer, pistas
para uma maior compreensão desse labor que é exercido tanto por gênios
das letras quanto por, digamos, renitentes tentadores.
Alguns
testemunhos sobressaem pelo desconcerto. É o caso da romancista francesa
Marguerite Duras: "Eu não sei, nunca soube, o que é essa estranha
atividade. Creio que isso vai acabar em 2027. Pronto: de repente, ninguém
escreverá mais", disse. Andamos a passos largos rumo a 2027. Cansarão os
escritores do seu ofício, abandonando-o ou sendo por ele abandonados?
Há
os escritores que se auto-imolam num mea culpa, como Manuel
Bandeira: "Jamais senti que meu destino fosse a Poesia. Creio que se
fui poeta em alguns momentos, só o fui por incidente patológico ou
passional". Esse sentimento do autor de Estrela da Vida Inteira
não é comum a um outro poeta, o mexicano Octavio Paz, que encarava o ato
de escrever como uma expedição rumo ao desconhecido: "Escrevemos
para dizer o não dito, e para conhecê-lo".
Os
constantemente aprisionados pela maldição da escrita não hesitam em
confessá-lo: "Às vezes, fico bastante tempo sem escrever, mas
continuo sempre com o pensamento voltado para a literatura, estou sempre
pensando em novos contos ou voltando aos antigos e, mesmo que não esteja
escrevendo, estou permanentemente ligado à criação. Da criação não
consigo escapar", afirma um resignado Murilo Rubião, considerado
precursor do realismo fantástico na América Latina, antes
mesmo que essa moda ganhasse o mundo pela prosa de Gabriel García
Márquez.
Dos
almadiçoados pela arte de escrever não poderia escapar um bruxo chamado
Jorge Luis Borges: "Eu não poderia parar de escrever. Sempre soube
que o meu destino era um destino literário de leitor e também,
imprudentemente, de escritor. Eu escrevo para responder a uma pergunta, a
uma necessidade interior".
De
enigmas a literatura tem as páginas repletas. E de escritores
enigmáticos também. Eis a enigmática resposta do escritor indiano
Lawrence Durrel, para o ato de escrever: "Para me vigiar. Uma pergunta
idiota, uma resposta idiota. Mas sim: para me
vigiar".
Há
os dotados de espírito missionário, como o engajado poeta espanhol
Frederico Garcia Lorca: "Às vezes, quando vejo o que se passa no
mundo, pergunto-me para que escrever? Mas, há que trabalhar, trabalhar,
trabalhar. E ajudar o que mereça. Trabalhar como forma de protesto.
Porque o impulso de uma pessoa seria gritar todos os dias ao despertar num
mundo cheio de injustiças e misérias de toda ordem: protesto! protesto!
protesto!".
Essa
espécie de arqueologia da criação literária ganha, no livro, diversas
outras contribuições, mas a nenhum desses escritores faltará,
certamente, aquilo que não uma literata, mas uma economista, a inglesa
Joan Robinson, afirmou certa vez: escrever é um ato de esperança. Que
naturalmente não resolve o mistério, mas o humaniza.
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