Webjornal - Quinzenal  - Edição 46 - Aracaju,  4  a  11  de janeiro  de 2004
_________________________________________________________________________________________

Artigo

O fim dos tiranos

Por Paulo Lima

Os maiores tiranos do Século XX gozaram, no final das contas, de uma estranha imunidade, salvo as exceções de praxe que não invalidam nosso argumento: apesar dos genocídios cometidos contra seus compatriotas, partiram dessa  para melhor sem serem incomodados, exalando um último e plácido suspiro em seus leitos de morte, como se tivessem vivido uma existência de anjos imaculados.  

Um pequeno tour pelas trevas do século passado revela um placar amplamente favorável a esses ímpios governantes. Um dos mais famosos, e um dos maiores genocidas de que se tem notícia, Pol Pot governou o Camboja com sanha assassina. Em 1975, tomou o poder e, à frente do Khmer Vermelho, seu exército pessoal, matou quase dois milhões de cambojanos que se opunham ao seu programa declarado de "ano zero": criar uma sociedade comunista idealizada e agrária. Com esse objetivo, Pol Pot destruiu instituições sociais e esvaziou cidades. E como morreu esse tirano sanguinário, depois de ter matado tanto? Numa pequena cabana, em 1997, aos 73 anos de idade, em algum lugar entre o Camboja e a Tailândia, acusado por seus primeiros comparsas de ter traído a causa.

No ranking dos maiores tiranos do século, desponta o nome de Stálin,  o todo poderoso da Rússia, que só não leva o troféu hors-concours de maior tirano do século porque teve o azar de ser contemporâneo de outro par nessa escalada do mal: Adolph Hitler. Numa estimativa oficial, sem considerar a margem de erro que esse tipo de estatística costuma comportar, o número de pessoas que Stálin matou chega à hiperbólica quantidade de vinte milhões. Uma quase indiscutível medalha de ouro nesse esporte praticado a granel no século que se foi. Indiferente a tudo isso, Stálin deu o último suspiro em uma de suas dashas, em 1953, sem que ninguém lhe importunasse o instante final. 

Francisco Franco, o caudilho espanhol que não era somente general, mas generalíssimo, aliou-se às hordas nazistas para sufocar a resistência da população espanhola, durante o período da guerra civil na Espanha, em 1936. A soma das vítimas civis e militares dos bombardeios da Luftwaffe chegou a milhares de pessoas. Franco morreu em 1975,  aos 83 anos. As causas da morte do generalíssimo foram naturalíssimas. Ali bem pertinho, em terras portuguesas, outro ditador da mesma geração de Franco batia as botas naturalmente, depois de ter comandado a nação portuguesa impiedosamente durante décadas. O general Salazar não levou para o túmulo as pechas sinistras atribuídas ao seu colega espanhol, mas ditador é ditador. Ainda assim,  apesar do julgamento impiedoso da história, o manda-chuva português morreu imune e impune.          

Aqui abaixo do Equador, o encadeamento de torturas, mortes e execuções sumárias a que esteve submetida uma fração rebelde da latinoamérica não foi suficiente para punir generais como Jorge Rafael Videla, da Argentina, Pinochet, do Chile, e Médici, do Brasil. Todos exalaram o último suspiro dignamente, sem uma nódoa sequer em suas fardas estreladas.

No rol das exceções, cabe perfilar os tiranos genocidas que tiveram um troco digno da  lei de Talião, pagando com o próprio olho os olhos que subtraíram das suas vítimas. Hitler, num episódio até hoje não completamente explicado, envenenou-se ao lado da amante Eva Braun, num bunker em Berlim, em 1945, tirando das mãos dos aliados a possibilidade de uma desforra que seria inevitável, com ou sem Nuremberg.  Mussolini foi linchado e dependurado em praça pública, como um porco imolado em nome da vendetta dos seus sofridos e humilhados patrícios. Anastazio Somosa voou pelos ares numa sensacional explosão, em 1986, enquanto flanava no Paraguai, graças a uma bazuca disparada  por membros da Frente Nacional de Libertação Sandinista.

Por último, sem que tenhamos a certeza de que será de fato o último, tem-se Saddam Hussein, que por ora leva o mérito de deixar essa história em suspenso. Capturado, não esboçou reação, preferindo se entregar às forças americanas como um cordeirinho indefeso. Se tivesse prevalecido o cenário da ficção escrita no auge da Guerra Fria, nas melhores páginas de escritores como Frederick Forsyth ou John Le Carré, o tirano iraquiano teria recebido os captores com um indecifrável sorriso nos lábios, sinal de que acabara de ingerir uma cápsula fatal de cianureto. 

A possibilidade de morrer em provecta idade, sem ser importunado, numa de suas mansardas no Iraque, parece estar muito distante de qualquer cogitação, já que deverá encarar pela frente um inevitável Nuremberg à maneira de Bush. Há também a possibilidade de morrer misteriosamente na prisão. Ou de protagonizar uma fuga espetacular organizada por membros da Al-Qaeda ou da Farc colombiana, não necessariamente nessa ordem. Façam suas apostas. 

   

  

(c) Todos os Direitos Reservados