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Artigo
O fim dos tiranos
Por Paulo Lima
Os
maiores tiranos do Século XX gozaram, no final das contas, de uma
estranha imunidade, salvo as exceções de praxe que não invalidam nosso
argumento: apesar dos genocídios cometidos contra seus compatriotas,
partiram dessa para melhor sem serem incomodados, exalando um
último e plácido suspiro em seus leitos de morte, como se tivessem
vivido uma existência de anjos imaculados.
Um
pequeno tour pelas trevas do século passado revela um placar
amplamente favorável a esses ímpios governantes. Um dos mais famosos, e
um dos maiores genocidas de que se tem notícia, Pol Pot governou o
Camboja com sanha assassina. Em 1975, tomou o poder e, à frente do Khmer
Vermelho, seu exército pessoal, matou quase dois milhões de cambojanos
que se opunham ao seu programa declarado de "ano zero": criar
uma sociedade comunista idealizada e agrária. Com esse objetivo, Pol Pot
destruiu instituições sociais e esvaziou cidades. E como morreu esse
tirano sanguinário, depois de ter matado tanto? Numa pequena cabana, em
1997, aos 73 anos de idade, em algum lugar entre o Camboja e a Tailândia,
acusado por seus primeiros comparsas de ter traído a causa.
No
ranking dos maiores tiranos do século, desponta o nome de Stálin,
o todo poderoso da Rússia, que só não leva o troféu hors-concours
de maior tirano do século porque teve o azar de ser contemporâneo de
outro par nessa escalada do mal: Adolph Hitler. Numa estimativa oficial,
sem considerar a margem de erro que esse tipo de estatística costuma
comportar, o número de pessoas que Stálin matou chega à hiperbólica
quantidade de vinte milhões. Uma quase indiscutível medalha de ouro
nesse esporte praticado a granel no século que se foi. Indiferente a
tudo isso, Stálin deu o último suspiro em uma de suas dashas, em
1953, sem que ninguém lhe importunasse o instante final.
Francisco
Franco, o caudilho espanhol que não era somente general, mas generalíssimo,
aliou-se às hordas nazistas para sufocar a resistência da população
espanhola, durante o período da guerra civil na Espanha, em 1936. A soma
das vítimas civis e militares dos bombardeios da Luftwaffe chegou a
milhares de pessoas. Franco morreu em 1975, aos 83 anos. As causas da
morte do generalíssimo foram naturalíssimas. Ali bem pertinho, em terras
portuguesas, outro ditador da mesma geração de Franco batia as botas
naturalmente, depois de ter comandado a nação portuguesa impiedosamente
durante décadas. O general Salazar não levou para o túmulo as pechas
sinistras atribuídas ao seu colega espanhol, mas ditador é ditador.
Ainda assim, apesar do julgamento impiedoso da história, o
manda-chuva português morreu imune e
impune.
Aqui
abaixo do Equador, o encadeamento de torturas, mortes e execuções
sumárias a que esteve submetida uma fração rebelde da latinoamérica
não foi suficiente para punir generais como Jorge Rafael Videla, da
Argentina, Pinochet, do Chile, e Médici, do Brasil. Todos exalaram o
último suspiro dignamente, sem uma nódoa sequer em suas fardas
estreladas.
No
rol das exceções, cabe perfilar os tiranos genocidas que tiveram um
troco digno da lei de Talião, pagando com o próprio olho os olhos
que subtraíram das suas vítimas. Hitler, num episódio até hoje não
completamente explicado, envenenou-se ao lado da amante Eva Braun, num
bunker em Berlim, em 1945, tirando das mãos dos aliados a possibilidade
de uma desforra que seria inevitável, com ou sem Nuremberg.
Mussolini foi linchado e dependurado em praça pública, como um porco
imolado em nome da vendetta dos seus sofridos e humilhados
patrícios. Anastazio Somosa voou pelos ares numa sensacional explosão,
em 1986, enquanto flanava no Paraguai, graças a uma bazuca
disparada por membros da Frente Nacional de Libertação Sandinista.
Por
último, sem que tenhamos a certeza de que será de fato o último, tem-se Saddam
Hussein, que por ora leva o mérito de deixar essa história em suspenso.
Capturado, não esboçou reação, preferindo se entregar às forças
americanas como um cordeirinho indefeso. Se tivesse prevalecido o cenário da ficção escrita
no auge da Guerra Fria, nas melhores páginas de escritores como Frederick Forsyth ou John Le Carré, o tirano iraquiano
teria recebido os captores com um indecifrável sorriso nos lábios, sinal
de que acabara de ingerir uma cápsula fatal de cianureto.
A
possibilidade de morrer em provecta idade, sem ser importunado, numa de
suas mansardas no Iraque, parece estar muito distante de qualquer
cogitação, já que deverá encarar pela frente um inevitável Nuremberg
à maneira de Bush. Há também a possibilidade de morrer misteriosamente
na prisão. Ou de protagonizar uma fuga espetacular organizada por membros
da Al-Qaeda ou da Farc colombiana, não necessariamente
nessa ordem. Façam suas apostas.
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