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Artigo
Obscenidade e
desobediência civil
Por Paulo Lima
O
gesto obsceno do piloto da American Airlines Dale Robbin Hersh, ao ser
fichado em sua chegada ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo,
enrubesceria os pais fundadores da América, como aliás contribuiu para exaltar os ânimos
dos xenófobos de plantão aqui no Brasil.
Que
o gesto foi obsceno não restam dúvidas. Que foi desrespeitoso, idem,
principalmente porque partiu de um senhor de melenas já escassas
(portanto, muito além da idade da razão), comandante
de aeronave de uma grande companhia de aviação do Tio Sam.
Mas
é preciso acrescentar ao incidente um outro fator. Trata-se, em sua
essência, de um típico ato de desobediência civil. E nesse quesito
eles, os americanos, são mestres e doutores. A América puritana e
conservadora sempre
encontrou quem tentasse minar os seus sólidos alicerces. E no vernáculo
inglês alicerce é chamado de foundation, que designa
também fundação, no sentido de instituição, organização.
A
idéia de organização e poder que a sociedade americana incutiu mundo
afora não deixa de ser representada por seus sólidos alicerces, suas empresas
poderosas, sua arquitetura ubíqua, suas grandes cortes de justiça, as grandes universidades, o
Capitólio, a Casa Branca etc. Não é à
toa que dois desses grandes alicerces, as torres gêmeas, foram o alvo
escolhido para a demonstração do terror, no 11 de setembro.
Essa
aparência imanente de poder, porém, nunca deixou de desafiar a audácia dos
críticos da autoridade nos Estados Unidos. O país ainda engatinhava no
capitalismo, no século XVIII, e um contestador chamado Henry David Thoreau
já incitava seus conterrâneos à desobediência civil, pregando os
benefícios de uma vida natural, longe das cidades, de preferência
uma vida curtida nos bosques da Nova Inglaterra, região na qual Thoreau vivia. A utopia de
Thoreau, se não foi plenamente realizada, jamais se perdeu de vista pelos
caminhos do sonho americano.
Manifestações
de desobediência civil impregnam a paisagem cultural e política do
século passado nos Estados Unidos. Emma Goldman, ativista política de
origem russa, lutando pela redução da
jornada de trabalho, nas três primeiras décadas do século XX. Samuel
Roth, editor e escritor, defendendo o direito de expressão nos puritanos anos 1950, tentando introduzir na América
literatura erótica até então proibida, enfrentando o poderoso
judiciário americano e indo parar diversas vezes na cadeia. A marcha de
Washington pelos direitos civis e o sonho de Martin Luther-King para
libertar a consciência negra, nos anos 1960. E ainda nos efervescentes
anos 60, o power flower, o
movimento hippie, os beatniks, a rebelião dos panteras negras, as
"altas viagens" de Timothy Leary, com sua apologia ao LSD, e todo a revolução
contracultural que cutucou com vigor os alicerces da
América.
Portanto,
o dedo obsceno de Dale Robbin Hersh no episódio cucaracha da semana
passada é um eco longínquo de uma grande tradição
americana. Pena que o ato de contestação tenha se voltado para o
governo errado. É para George Bush que o dedo fálico do comandante
deveria apontar, em um ato de contestação mais do que necessário contra
o estado policial que se instalou na
América, depois dos atentados terroristas.
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