Webjornal - Quinzenal  - Edição 47 - Aracaju,  18  a  25  de janeiro  de 2004
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Artigo

Obscenidade e desobediência civil

Por Paulo Lima

O gesto obsceno do piloto da American Airlines Dale Robbin Hersh, ao ser fichado em sua chegada ao aeroporto de Guarulhos, em  São Paulo, enrubesceria os pais fundadores da América, como aliás  contribuiu para exaltar os ânimos dos xenófobos de plantão aqui no Brasil.

Que o gesto foi obsceno não restam dúvidas. Que foi desrespeitoso, idem, principalmente porque partiu de um senhor de melenas já escassas (portanto, muito além da idade da razão), comandante de aeronave de uma grande companhia de aviação do Tio Sam. 

Mas é preciso acrescentar ao incidente um outro fator. Trata-se, em sua essência, de um típico ato de desobediência civil. E nesse quesito eles, os americanos, são mestres e doutores. A América puritana e conservadora sempre encontrou quem tentasse minar os seus sólidos alicerces. E no vernáculo inglês alicerce é chamado de  foundation,  que designa também fundação, no sentido de instituição, organização.

A idéia de organização e poder que a sociedade americana incutiu mundo afora  não deixa de ser representada por seus sólidos alicerces, suas empresas poderosas, sua arquitetura ubíqua, suas grandes cortes de justiça, as grandes universidades, o  Capitólio, a Casa Branca etc. Não é à toa que dois desses grandes alicerces, as torres gêmeas, foram o alvo escolhido para a demonstração do terror, no 11 de setembro.

Essa aparência imanente de poder, porém,  nunca deixou de desafiar a audácia dos críticos da autoridade nos Estados Unidos. O país ainda engatinhava no capitalismo,  no século XVIII, e um contestador chamado Henry David Thoreau já incitava seus conterrâneos à desobediência civil,  pregando os benefícios de uma vida natural, longe das cidades, de preferência uma vida curtida nos bosques da Nova Inglaterra, região na qual Thoreau vivia. A utopia de Thoreau, se não foi plenamente realizada, jamais se perdeu de vista pelos caminhos do sonho americano. 

Manifestações de desobediência civil impregnam a paisagem cultural e política do século passado nos Estados Unidos. Emma Goldman, ativista política de origem russa,  lutando pela redução da jornada de trabalho, nas três primeiras décadas do século XX. Samuel Roth, editor e escritor,  defendendo o direito de expressão nos puritanos anos 1950, tentando introduzir na América literatura erótica até então proibida, enfrentando o poderoso judiciário americano e indo parar diversas vezes na cadeia.  A marcha de Washington pelos direitos civis e o sonho de Martin Luther-King para libertar a consciência negra, nos anos 1960. E ainda nos efervescentes anos 60, o power flower, o movimento hippie, os beatniks, a rebelião dos panteras negras, as "altas viagens" de Timothy Leary, com sua apologia ao LSD,  e todo a revolução contracultural que cutucou com vigor os alicerces da América.         

Portanto, o dedo obsceno de Dale Robbin Hersh no episódio cucaracha da semana passada  é um eco longínquo de uma grande tradição americana.  Pena que o ato de contestação tenha se voltado para o governo errado. É para George Bush que o dedo fálico do comandante deveria apontar, em um ato de contestação mais do que necessário contra  o estado policial que se instalou na América, depois dos atentados terroristas.   

  

  

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