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Artigo
Michael Moore,
crítico de mídia
Por Paulo Lima
Michael
Moore é talvez uma das grandes vozes dissonantes na América engessada
pela mentalidade do politicamente correto de Bush e séqüito. Não possui
o apelo verbal e o brilho intelectual de críticos famosos como Susan
Sontag ou Noam Chomsky, mas com o seu
documentário Tiros em Columbine, Moore, um gordão desengonçado
de visual escrachado, provou que ainda se pode fazer muito barulho
com uma câmera na mão e uma firme determinação crítica na cabeça. O
documentário atira numa obsessão americana, a paixão por armas de
fogo, e acerta em nichos de
obscurantismo presentes no coração de uma nação que é tida como um dos
baluartes da democracia no ocidente.
Difícil dizer no
documentário o que atrai mais. O ideário aterrorizante, mostrado às escâncaras,
da milícia de Michigan? A revelação de um dos personagens de que jamais
ouvira falar em Ghandi? Os registros do circuito interno de TV do massacre
da escola em Columbine? O drama da verdadeira face da pobreza americana
revelada nos pequenos personagens? O racismo americano? O fascismo de uma
celebridade hollywoodiana como Charlton Heston?
Isso tudo somado e mais um
pouco. Embora acusado de manipular algumas passagens do documentário,
Moore, no entanto, tem méritos de sobra - e não se credite a esse êxito
o fato de ter levado o Oscar de 2002 de melhor documentário. A estatueta
famosa, como se sabe, é suspeitíssima quando está em questão o mérito
da obra. Dentre outros méritos, no filme de Moore sobressai a crítica aberta àquilo que Noam
Chomsky citou como o "consenso fabricado" pela mídia. Haverá
nação mais moldada pelos interesses da mídia do que a americana?
Paradoxalmente, a mesma nação que reprovou a guerra do Vietnã, graças
ao trabalho da mídia, apoiou a invasão do Iraque também por causa da
postura de genuflexão dessa mesma mídia perante os interesses dos
ideólogos de Washington. Trata-se do manufactured consent de
Chomsky em ação, na sua forma mais pura, expondo as fraquezas de uma
opinião pública vulnerável.
A câmera errante de Moore
mostra como a mídia aposta no sensacional e no espetacular, como ela
fomenta a cultura do medo em nome dos sacrossantos índices de audiência
e do bom êxito da publicidade, apostando em estigmas, preconceito e
maniqueísmo. Dois momentos do filme são sintomáticos: a presença do
psicólogo Barry Glassner, autor do livro Cultura do medo (editado no Brasil
em 2003 pela Editora Francis), desmistificando a
periculosidade de algumas zonas de Los Angeles e apontando para um risco
maior, o da poluição, desprezado pela mídia. Noutro momento, ao obter
êxito junto à rede K-Mart, para que interrompa a venda de munição em
suas lojas, Moore consegue atrair a atenção da imprensa. Mas não é
essa notícia que abre a edição noturna de um telejornal, naquele dia.
É um episódio menor envolvendo a presença de cobras em Detroit que
acaba ganhando a manchete principal.
A crítica à mídia,
contudo, aparece de forma contundente não apenas no documentário em
si, mas na entrevista que o diretor concede numa coletiva à imprensa. Esse
material está presente como bônus na versão em DVD do documentário.
Indagado por uma repórter se não sente medo ao realizar suas
entrevistas desafiadoras no filme, Moore solta o verbo:
Eu
odeio, odeio muito isso. Me dá nós no estômago. A coisa mais horrível
no filme é o fato de eu estar nele. Quero dizer, o que há de errado com
o jornalismo nos EUA? Eu não deveria estar fazendo perguntas a estes
líderes. Há pessoas formadas em jornalismo pagas para fazer isso,
pessoas que são mais espertas do que eu. Se tivesse vindo de Marte,
diria: "Esse é o cara? O cara de boné sem formação?" Tem
algo errado nisso. Isso deve ser uma vergonha para a mídia. Ver o filme e
pensar: "Por que ele está fazendo isso?" Sou criticado pela
imprensa americana por perturbar a vida dos Relações Públicas das
indústrias. Por que pego no pé deles? E eu penso: "Por que
não estão fazendo seu trabalho?" Estes RPs passam o dia respondendo
a perguntas banais. "Como estão as vendas? Como está o
faturamento?" É isso o que acontece. Nunca perguntam a eles o que é
importante. Isso porque a maioria destes jornalistas será RP no futuro,
quando perceberem que podem ganhar 5 vezes mais sendo Relações Públicas
do que ganhar sendo jornalistas. E isso é triste, não?
Sim, isso é muito triste. E
seria menos triste se a crítica de Michael Moore pudesse ser aplicada
somente à realidade americana. O que não é o caso. A crise da mídia no
Brasil tem exatamente corroborado essa triste situação: jornalistas que
são mais apresentadores de TV e menos repórteres, que foram defender o
pão de cada dia nas assessorias de imprensa, que abraçaram funções
anódinas nas universidades, ou que simplesmente ganharam o
olho da rua. Enquanto isso, o jornalismo de fato, aquele que tem como
missão fiscalizar e denunciar o poder e suas mazelas, vive à sombra dos
porta-vozes desse mesmo poder e de seus interesses.
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