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Artigo
E se tivesse
acontecido assim?
Por Paulo Lima
A fantasia de um túnel do tempo que pudesse abrir uma
senda para momentos nebulosos do passado tem exercido um fascínio sobre
ficcionistas, historiadores e até mesmo físicos, por mais absurda que
possa parecer essa hipótese. O
ofício dos historiadores, de fazer lembrar o que esquecemos (no palpite
de Eric Hobsbawm), seria sem
dúvida facilitado se tivéssemos a chance de visitar alguns
acontecimentos do passado, desde que, como voyeurs, não nos fosse
permitido interferir no curso da história.
Os
pacotes turísticos, chamemos assim, incluiriam cláusulas rigorosas de
seguro, pois não estaria eliminada a hipótese de que uma dessas incursões
resultasse em tragédia. Infelizmente,
nada poderia garantir que tais viagens distantes não viessem a ser
cotadas em dólar, significando que não estariam disponíveis para
qualquer sem-culote. No final das contas, as viagens ao passado seriam tão
avidamente desejadas como qualquer esticada a lugares como Nova Iorque,
Roma, Londres ou Paris.
Como esse túnel do tempo ainda está em vias de
fabricação, sem prazo final para entrega, resta então o exercício da
imaginação na forma de uma revisita aos episódios do passado,
contando-os sob a luz de uma verossimilhança, por mínima que seja. Esse
exercício de oferecer outras versões a fatos oficiais, a que alguns ensaístas
e escritores - e até historiadores - têm se dedicado chama-se história
contrafactual.
E se tal fato tivesse ocorrido dessa e não de outra
maneira? E se...? Essa é a mola mestra, o ponto de partida para a
alternativa às versões oficiais. Não
é de todo improvável que a história contrafactual não passe de um
tremendo exercício de idiossincrasia. Se a história da humanidade tem
sido contada até hoje pelo lado dos vencedores,
é através da sua contrafação que se faria justiça aos
derrotados. Seria a vendetta dos humilhados e ofendidos do processo
histórico.
A história contrafactual, todavia, não se confunde
com uma investigação dos fatos históricos, cujo objetivo seria
esclarecer-lhes passagens obscuras ou mal contadas, no sentido de
eliminar-lhe os tabus, como o faz, por exemplo, o historiador francês
Marc Ferro, em Os Tabus da História. Afinal, até o conhecimento
que um estudioso da grandeza de Eric Hobsbawm tem da história não o
isenta de fazer um mea-culpa, ao afirmar que nem mesmo os conhecimentos básicos
do breve século XX podem ser tomados como certos.
É a deixa perfeita para uma pequena esbórnia, ôps,
para pôr de ponta-cabeça as narrativas correntes da história. Este é o
laissez-passez para que a imaginação voe livre e solta pelas
trilhas do passado. E na história contrafactual a imaginação não está
instada a visitar somente temas grandiloqüentes da humanidade. Alguém
poderia explicar o que se passou na ante-sala do fatídico Brasil x França,
na copa de 1998, quando Ronaldinho, o fenômeno,
foi vítima de um faniquito? Eis aí um tema menor, por assim
dizer, que poderia resultar numa prefeita investigação de história
contrafactual.
Mas outros tantos assuntos podem render uma bela
canetada (a expressão não vale se você tecla um PC) no diz-que-diz dos
registros oficiais. Um belo exemplo está disponível nas livrarias. O
livro de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, O Beijo da Morte,
se debruça sobre os episódios das mortes de Juscelino
Kubitscheck, João Goulart e Carlos Lacerda. Sobre a morte de JK,
especialmente, há muito paira no ar uma dúvida: teria sido
assassinato? O acidente que o vitimou na via Dutra não teria sido
arquitetado pelos milicos da ditadura? Embora considerado um misto de
reportagem, depoimento e ficção, a obra lança mão de informações
factuais que alimentam investigações conduzidas por um suposto repórter.
Se não é um exemplo acabado de história contrafactual, poderia sê-lo.
Ainda em termos de história contrafactual, nenhum
brasileiro vivo escapa da questão hors-concours sobre o nosso
nascedouro como nação. E se não tivéssemos sido descobertos e
colonizados pelos portugueses?
E se tivessem sido os ingleses? Ou os franceses?
Ou os holandeses? Esta pergunta que não quer calar
já derreteu muita massa cinzenta e mereceu algumas respostas que não
eliminam, contudo, uma versão contrafactual. A explicação da
mestra-do-pensar Marilena Chauí, por exemplo, aventa que, se por aqui
tivessem aportado os holandeses, seríamos hoje uma espécie de África do
Sul dos tempos mais ferrenhos do apartheid. Por lá a colonização
holandesa não propiciou o molejo e a malandragem que caracterizam a nossa
sociedade miscigenada.
Mas as nervuras da filosofia não impedem que
pensemos noutros termos, tamanha a aflição dos que vivem principalmente
nas grandes capitais brasileiras. Para efeito de historiar os contrafactos,
podemos até supor, num rompante de irmandade para com os nossos vizinhos,
que o achamento do Brasil e sua posterior colonização poderia ter
acontecido sob a influência dos espanhóis (que por aqui de fato
perambularam antes dos portugueses, conforme se lê em Náufragos,
Traficantes e Degredados, de Eduardo Bueno). Estaríamos no lucro?
No prejuízo? Só mesmo um bom manual de História
Contrafactual poderia nos contar.
Abram-se as asas da imaginação. E se Tancredo Neves
não tivesse abotoado o paletó pouco antes de assumir o mandato de
presidente? Não teríamos vivido a ascensão e queda do Plano Cruzado,
estaríamos livres dos marimbondos de fogo e a vaca não teria ido para o
brejo. E se a Corte Joanina tivesse soçobrado na travessia do Atlântico,
em 1807, na longa viagem para o Rio de Janeiro? A nossa imprensa teria
sofrido um maior atraso? Seríamos hoje mais incultos e obtusos?
Para os curiosos, uma série de artigos sobre histórias
contrafactuais pode ser encontrada em português no livro E se? Como
seria a História se os fatos fossem outros, de autoria de Robert
Crowley, publicado em 2003
pela Editora Campus. Novas conjeturas são feitas nesse trabalho. E se
Napoleão tivesse invadido a América? E se os aliados não tivessem
vencido a Segunda Guerra Mundial?
Se a história não se move somente sob o impulso da
luta de classes e da busca incessante do lucro (Marx), mas
através de influências geográficas e culturais (Fernand Braudel),
e se talvez a própria história não passe de uma versão dos fatos,
então o céu é o limite para a exploração da história
contrafactual. Tomem seus assentos, e boa viagem pelo túnel do tempo.
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