Webjornal - Quinzenal  - Edição 50 - Aracaju,  29 de fevereiro  a  07  de março  de 2004
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Artigo

E se tivesse acontecido assim? 

Por Paulo Lima

A fantasia de um túnel do tempo que pudesse abrir uma senda para momentos nebulosos do passado tem exercido um fascínio sobre ficcionistas, historiadores e até mesmo físicos, por mais absurda que possa parecer essa hipótese.  O ofício dos historiadores, de fazer lembrar o que esquecemos (no palpite de Eric Hobsbawm),  seria sem dúvida facilitado se tivéssemos a chance de visitar alguns acontecimentos do passado, desde que, como voyeurs, não nos fosse permitido interferir no curso da história.

Os pacotes turísticos, chamemos assim, incluiriam cláusulas rigorosas de seguro, pois não estaria eliminada a hipótese de que uma dessas incursões resultasse em tragédia.  Infelizmente, nada poderia garantir que tais viagens distantes não viessem a ser cotadas em dólar, significando que não estariam disponíveis para qualquer sem-culote. No final das contas, as viagens ao passado seriam tão avidamente desejadas como qualquer esticada a lugares como Nova Iorque, Roma, Londres ou Paris.

Como esse túnel do tempo ainda está em vias de fabricação, sem prazo final para entrega, resta então o exercício da imaginação na forma de uma revisita aos episódios do passado, contando-os sob a luz de uma verossimilhança, por mínima que seja. Esse exercício de oferecer outras versões a fatos oficiais, a que alguns ensaístas e escritores - e até historiadores - têm se dedicado chama-se história contrafactual.

E se tal fato tivesse ocorrido dessa e não de outra maneira? E se...? Essa é a mola mestra, o ponto de partida para a alternativa às versões oficiais.  Não é de todo improvável que a história contrafactual não passe de um tremendo exercício de idiossincrasia. Se a história da humanidade tem sido contada até hoje pelo lado dos vencedores,  é através da sua contrafação que se faria justiça aos derrotados. Seria a vendetta dos humilhados e ofendidos do processo histórico.

A história contrafactual, todavia, não se confunde com uma investigação dos fatos históricos, cujo objetivo seria esclarecer-lhes passagens obscuras ou mal contadas, no sentido de eliminar-lhe os tabus, como o faz, por exemplo, o historiador francês Marc Ferro, em Os Tabus da História. Afinal, até o conhecimento que um estudioso da grandeza de Eric Hobsbawm tem da história não o isenta de fazer um mea-culpa, ao afirmar que nem mesmo os conhecimentos básicos do breve século XX podem ser tomados como certos.

É a deixa perfeita para uma pequena esbórnia, ôps, para pôr de ponta-cabeça as narrativas correntes da história. Este é o laissez-passez para que a imaginação voe livre e solta pelas trilhas do passado. E na história contrafactual a imaginação não está instada a visitar somente temas grandiloqüentes da humanidade. Alguém poderia explicar o que se passou na ante-sala do fatídico Brasil x França, na copa de 1998, quando Ronaldinho, o fenômeno,  foi vítima de um faniquito? Eis aí um tema menor, por assim dizer, que poderia resultar numa prefeita investigação de história contrafactual.

Mas outros tantos assuntos podem render uma bela canetada (a expressão não vale se você tecla um PC) no diz-que-diz dos registros oficiais. Um belo exemplo está disponível nas livrarias. O livro de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, O Beijo da Morte,  se debruça sobre os episódios das mortes de Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Carlos Lacerda. Sobre a morte de JK,  especialmente, há muito paira no ar uma dúvida: teria sido assassinato? O acidente que o vitimou na via Dutra não teria sido arquitetado pelos milicos da ditadura? Embora considerado um misto de reportagem, depoimento e ficção, a obra lança mão de informações factuais que alimentam investigações conduzidas por um suposto repórter. Se não é um exemplo acabado de história contrafactual, poderia sê-lo.

Ainda em termos de história contrafactual, nenhum brasileiro vivo escapa da questão hors-concours sobre o nosso nascedouro como nação. E se não tivéssemos sido descobertos e colonizados pelos  portugueses? E se tivessem sido os ingleses? Ou os franceses?  Ou os holandeses? Esta pergunta que não quer calar  já derreteu muita massa cinzenta e mereceu algumas respostas que não eliminam, contudo, uma versão contrafactual. A explicação da mestra-do-pensar Marilena Chauí, por exemplo, aventa que, se por aqui tivessem aportado os holandeses, seríamos hoje uma espécie de África do Sul dos tempos mais ferrenhos do apartheid. Por lá a colonização holandesa não propiciou o molejo e a malandragem que caracterizam a nossa sociedade miscigenada. 

Mas as nervuras da filosofia não impedem que pensemos noutros termos, tamanha a aflição dos que vivem principalmente nas grandes capitais brasileiras. Para efeito de historiar os contrafactos, podemos até supor, num rompante de irmandade para com os nossos vizinhos, que o achamento do Brasil e sua posterior colonização poderia ter acontecido sob a influência dos espanhóis (que por aqui de fato perambularam antes dos portugueses, conforme se lê em Náufragos, Traficantes e Degredados, de Eduardo Bueno). Estaríamos no lucro?  No prejuízo? Só mesmo um bom manual de História Contrafactual poderia nos contar.

Abram-se as asas da imaginação. E se Tancredo Neves não tivesse abotoado o paletó pouco antes de assumir o mandato de presidente? Não teríamos vivido a ascensão e queda do Plano Cruzado, estaríamos livres dos marimbondos de fogo e a vaca não teria ido para o brejo. E se a Corte Joanina tivesse soçobrado na travessia do Atlântico, em 1807, na longa viagem para o Rio de Janeiro? A nossa imprensa teria sofrido um maior atraso? Seríamos hoje mais incultos e obtusos?

Para os curiosos, uma série de artigos sobre histórias contrafactuais pode ser encontrada em português no livro E se? Como seria a História se os fatos fossem outros, de autoria de Robert Crowley,  publicado em 2003 pela Editora Campus. Novas conjeturas são feitas nesse trabalho. E se Napoleão tivesse invadido a América? E se os aliados não tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial?

Se a história não se move somente sob o impulso da luta de classes e da busca incessante do lucro (Marx), mas  através de influências geográficas e culturais (Fernand Braudel), e se talvez a própria história não passe de uma versão dos fatos,  então o céu é o limite para a exploração da história contrafactual. Tomem seus assentos, e boa viagem pelo túnel do tempo.

 

    

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