|
Artigo
O escritor e seu
duplo... ou triplo
Por Paulo Lima
Rubem Fonseca uma vez falou pela boca de um personagem
que é preciso ser louco para ser escritor. Bem, ele não se expressou
nesses termos, mas foi quase isso. A fala, salvo engano, está no
romance Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Um cineasta
explica para seu interlocutor que não era escritor, pois não se sentia
tão louco. Se a cena não foi exatamente esta, resgato ao
menos a sua essência.
Por
suposto, loucos é o que não faltam na literatura: a fragmentação do eu aparentemente coeso do criador
em múltiplos eus identificados como personagens não passaria de
um certo estado de loucura? O escritor é aquele ser
que após uma noite de sono acorda na pele de um enorme lagarto de ventre
abaulado, tal qual o personagem de Kafka, em a Metamorfose. Ou que confabula com os seus heterônimos, vencendo-os ou sendo por ele
vencidos, como um Fernando Pessoa em permanente estado de convulsão
criadora.
Estas lembranças escassas me vêm à mente quando
leio as crônicas do escritor, poeta e jornalista José Castello, reunidas
na coleção Melhores Crônicas (Global Editora), com seleção e
prefácio de Leyla Perrone-Moisés. Castello é um leitor e escritor
experiente. Em seu portfólio de entrevistas já realizadas constam
escritores de variados matizes, que vão de Clarice Lispector a José
Saramago. O resultado dessas conversas sérias compõem o excelente Itinerário
das Sombras (1999), em que Castello revela o universo soturno de muitos
desses entrevistados.
Mas,
nas crônicas, Castello busca exatamente o reverso desse aspecto sério e auto-complacente da literatura e seus artífices.
Como disse Leyla Perrone-Moisés, no texto de apresentação, as crônicas
buscam o "avesso bufo" das entrevistas sérias que Castello
realizou. E é nessa inversão que encontramos o humor e a irreverência
do escritor Castello fazendo troça dos outros escritores e seu ofício.
As
situações imaginadas por José Castello revelam as suas influências literárias: Kafka, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges.
Impossível não pensar no prisioneiro sem culpa de O Processo, ou
dos personagens afligidos de Clarice Lispector. Em todas os cenários
idealizados por Castello há uma linha condutora: a busca (ou perda) da
identidade, o homem face ao seu duplo... ou triplo, a realidade e suas
múltiplas representações.
Na
crônica que abre o volume, Carta sincera ao homem que não sou,
Castello se vê às voltas com uma espécie de duplo. Num dia de tédio
irredimível, Castello entra na internet, digita seu nome em busca de um
trabalho já esquecido, e o que descobre é uma referência a José
Castelló, um matemático espanhol. José Castello decide então vestir a
pele do espanhol por um dia, para descobrir, no final, que a vida do
matemático carrega as mesmas parcelas de angústias que a sua própria
vida.
Esta
crônica inicial é apenas a porta de entrada no jogo de espelhos que
Castello elabora habilmente, como um alquimista de universos reflexos,
misteriosos e intrigantes. Os nomes que Castello atribui aos personagens
são um atrativo a parte. Na crônica Uma visita ao sanatório das
letras, Castello apresenta U.U., o escritor mais vaidoso que ele
conhece. Noutra crônica, conhecemos Zelda Carlberg, "autora do
célebre Fala baixo que não sou surda", que poderia soar como
uma alusão irônica aos best-sellers que entulham as estantes e fazem
pequenas fortunas.
No
mundo literário que idealizou, Castello não poupa críticas aos
personagens auto-suficientes do universo literário: academias,
clubinhos fechados, igrejinhas e tantos outros similares
estabelecidos a partir da vaidade e dos egos inflados. E acaba por
conduzir o leitor por um labirinto de situações reversíveis em que
"desejar o bem muitas vezes é fazer o mal, olhar para baixo
nos faz ver melhor o que está acima, os erros trazem benefícios, a
felicidade não traz a felicidade, e assim por diante".
|