Webjornal - Quinzenal  - Edição 51 - Aracaju,  14 a 28  de março  de 2004
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Artigo

O escritor e seu duplo... ou triplo

Por Paulo Lima

Rubem Fonseca uma vez falou pela boca de um personagem que é preciso ser louco para ser escritor. Bem, ele não se expressou nesses termos, mas foi quase isso. A fala, salvo engano,  está no romance Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Um cineasta explica para seu interlocutor que não era escritor, pois não se sentia tão louco. Se a cena não foi exatamente esta,  resgato ao  menos a sua essência.

Por suposto, loucos é o que não faltam na literatura: a fragmentação do eu aparentemente coeso do criador  em múltiplos eus identificados como personagens não passaria de um certo estado de loucura?   O escritor é aquele ser que após uma noite de sono acorda na pele de um enorme lagarto de ventre abaulado, tal qual o personagem de Kafka, em a Metamorfose. Ou que confabula com os seus heterônimos, vencendo-os ou sendo por ele vencidos, como um Fernando Pessoa  em permanente estado de convulsão criadora.

Estas lembranças escassas me vêm à mente quando leio as crônicas do escritor, poeta e jornalista José Castello, reunidas na coleção Melhores Crônicas (Global Editora), com seleção e prefácio de Leyla Perrone-Moisés.  Castello é um leitor e escritor experiente. Em seu portfólio de entrevistas já realizadas constam escritores de variados matizes, que vão de Clarice Lispector a José Saramago. O resultado dessas conversas sérias compõem o excelente Itinerário das Sombras (1999), em que Castello revela o universo soturno de muitos desses entrevistados.

Mas, nas crônicas, Castello busca exatamente o reverso desse aspecto sério e auto-complacente da literatura e seus artífices. Como disse Leyla Perrone-Moisés, no texto de apresentação, as crônicas buscam o "avesso bufo" das entrevistas sérias que Castello realizou. E é nessa inversão que encontramos o humor e a irreverência do escritor Castello fazendo troça dos outros escritores e seu ofício.

As situações imaginadas por José Castello revelam as suas influências literárias: Kafka, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges. Impossível não pensar no prisioneiro sem culpa de O Processo, ou dos personagens afligidos de Clarice Lispector. Em todas os cenários idealizados por Castello há uma linha condutora: a busca (ou perda) da identidade, o homem face ao seu duplo... ou triplo, a realidade e suas múltiplas representações.

Na crônica que abre o volume, Carta sincera ao homem que não sou, Castello se vê às voltas com uma espécie de duplo. Num dia de tédio irredimível, Castello entra na internet, digita seu nome em busca de um trabalho já esquecido, e o que descobre é uma referência a José Castelló, um matemático espanhol. José Castello decide então vestir a pele do espanhol por um dia, para descobrir, no final, que a vida do matemático carrega as mesmas parcelas de angústias que a sua própria vida.

Esta crônica inicial é apenas a porta de entrada no jogo de espelhos que Castello elabora habilmente, como um alquimista de universos reflexos, misteriosos e intrigantes. Os nomes que Castello atribui aos personagens são um atrativo a parte. Na crônica Uma visita ao sanatório das letras, Castello apresenta U.U., o escritor mais vaidoso que ele conhece.  Noutra crônica, conhecemos Zelda Carlberg, "autora do célebre Fala baixo que não sou surda", que poderia soar como uma alusão irônica aos best-sellers que entulham as estantes e fazem pequenas fortunas.

No mundo literário que idealizou,  Castello não poupa críticas aos personagens auto-suficientes do universo literário: academias,  clubinhos fechados,  igrejinhas e  tantos outros similares estabelecidos a partir da vaidade e dos egos inflados. E acaba por conduzir o leitor por um labirinto de situações reversíveis em que "desejar o bem muitas vezes é fazer o mal, olhar para  baixo nos faz ver melhor o que está acima, os erros trazem benefícios, a felicidade não traz a felicidade, e assim por diante".  

    

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