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Artigo
O ouro do século
21
Por Paulo Lima
Cada
época da humanidade determina o seu conceito de riqueza. Retrocedendo
alguns séculos na História, veremos que a afluência das nações já
foi mensurada em termos de ouro e prata. Esse lastro já foi também
indicado pela posse da terra, no estágio correspondente ao feudalismo
europeu. Para as nações que se lançaram à descoberta de novos
continentes, como Portugal no século 16, especiarias como açúcar e até
pau Brasil eram as commodities da vez.
A Revolução Industrial significou o
primado da máquina, e, para fazê-las funcionar, uma nova riqueza ocupou
o centro da cobiça: o petróleo. Na civilização moderna, a sua
importância é desmesurada, e tem servido de justificativa para ações
beligerantes, como a invasão do Iraque pelos americanos.
No século 21, a água será uma nova commodity,
um bem negociado em bolsas de mercadorias, como o café e a soja,
despertando interesses das grandes corporações e sendo incluída em
negociações de tratados internacionais. O precioso líquido ocupará um
papel estratégico para a sobrevivência da humanidade e para a
manutenção da riqueza. Corporações como a Monsanto determinou que a
água será a "última fronteira de investimento para o setor
privado".
Isto significa que a água ganhará o
status de bem escasso, apesar da sua aparente abundância. De um conceito
natural de vida, a água adquire o conceito de mercadoria. Ou seja, será
enquadrada nas leis de mercado, com todas as conseqüências que poderão
daí advir, como o fato de se manter sob o domínio do grande capital, em
detrimento das populações mais pobres. A noção de escassez é o que se
quer por último impingir à opinião pública. Esta é somente uma meia
verdade.
Mau uso
A escassez é uma realidade, mas suas
causas é que precisam ser esclarecidas. Foi a depredação dos recursos
hídricos, o uso intensivo na agricultura e o monopólio para fins
particulares que fizeram da água doce um bem escasso. Agora as grandes
empresas se organizam para dominar o manancial existente.
Setenta por cento da Terra é coberta de
água. Desse total, 97,6% é água salgada, e apenas 2,4% representa água
doce. Dessa pequena porcentagem, 70% se destina à irrigação, 20% à
indústria e apenas 10% ao consumo humano. Entretanto, apenas 0,7% dos 10%
são acessíveis: a água restante está em fontes de difícil acesso,
como aqüíferos profundos, calotas polares ou interior das
florestas.
Na verdade, há bastante água, porém
mal distribuída. Sessenta por cento está concentrada em 9 países,
enquanto que os demais enfrentam situações de escassez. Da população
mundial, pouco menos de 1 bilhão consome 86% da água existente no
planeta. Para 1,4 bilhões, a água é insuficiente, e para 2 bilhões a
água não é tratada, provocando doenças.
Essas estatísticas indicam que o que
está em jogo é o mau uso e a má distribuição da água, associados a
padrões de desperdícios, como se verá mais adiante.
Campeão das águas
O Brasil é uma espécie de campeão das
águas por excelência, e por isso pode ser um alvo dos interesses das
comunidades internacionais. O país concentra 13% de toda a reserva de
água doce do planeta, totalizando 5,4 trilhões de metros cúbicos. A sua
distribuição, porém, é desigual: 70% está na região amazônica; 15%
no Centro-Oeste, 6% no Sul e 3% no Nordeste, por sinal a região mais
atingida pela falta de água. Apesar do manancial generoso, a gravidade
está no desperdício: 46%, um número que poderia abastecer países como
a França, Bélgica, Suíça e parte da Itália. Neste caso, o que precisa
ser debatido são padrões de uso, para se evitar o desperdício.
Considere-se ainda que o Brasil é o 10º
exportador de "água virtual" do mundo. Entre 1995 e 1999, exportou
entre 10 e 100 milhões de m³ de água embutida em produtos. Boa parte
deles foi para a Europa.
Essas estatísticas positivas colocam o
Brasil numa situação privilegiada, e quem aposte que poderá favorecer o
desenvolvimento do país neste século. O indicador é a produção de
água mineral, que já atinge 7% do mercado mundial, movimentando somas
entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões por ano.
Nos Estados Unidos, o setor de água
mineral está em franca expansão, elevando o consumo per capita de
35 para 76 litros, fato que motiva os fabricantes tradicionais de bebidas
a migrarem para esse novo filão.
Esse crescimento tem levado países
detentores de grandes reservas de água, como o Canadá, a assinar
contratos de 25 anos para fornecimento do produto para a China, por
exemplo.
Esses números situam o Brasil numa
situação favorável no cenário internacional. Políticas públicas
poderiam explorar essa nova fonte de divisas para o país, assim como a
geração de empregos, especialmente para as populações ribeirinhas, por
meio da criação de "fazendas de água", à semelhança de
outros produtos cuja exploração está em andamento.
Privatização
A transformação da água em um bem
escasso, sujeito à exploração privada, tem provocado tarifaços em seu
fornecimento em vários países. Uma vez que os objetivos passam a ser o
lucro e não a sustentabilidade, as conseqüências se tornam danosas para a população. Na França, um país conhecido pela falta
de água (o que talvez justifique a fama dos seus perfumes), as taxas de
consumo de água para os consumidores aumentaram em 150%. Na Inglaterra,
as taxas de água para o consumidor final aumentaram em 106% ao longo de 6
anos. Em países menos industrializados, como a Índia, as famílias têm
que gastar até 25% de sua renda com o consumo de água.
Se todas as projeções para o futuro
indicam que a água poderá vir a ser inclusive motivo de conflito entre
as nações, resta uma larga margem para que tal problema seja contornado.
É só fazer a lição de casa, apostando numa campanha de
conscientização do desperdício, e incluir a gestão dos recursos
hídricos na pauta de interesses nacionais, antes que outro país o faça
por nós.
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