Webjornal - Quinzenal  - Edição 53 - Aracaju,   11  a  25  de abril  de 2004
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Artigo

O ouro do século 21

Por Paulo Lima

Cada época da humanidade determina o seu conceito de riqueza. Retrocedendo alguns séculos na História, veremos que a afluência das nações já foi mensurada em termos de ouro e prata. Esse lastro já foi também indicado pela posse da terra, no estágio correspondente ao feudalismo europeu. Para as nações que se lançaram à descoberta de novos continentes, como Portugal no século 16, especiarias como açúcar e até pau Brasil eram as commodities da vez.  

A Revolução Industrial significou o primado da máquina, e, para fazê-las funcionar, uma nova riqueza ocupou o centro da cobiça: o petróleo. Na civilização moderna, a sua importância é desmesurada, e tem servido de justificativa para ações beligerantes, como a invasão do Iraque pelos americanos.

No século 21, a água será uma nova commodity, um bem negociado em bolsas de mercadorias,  como o café e a soja, despertando interesses das grandes corporações e sendo incluída em negociações de tratados internacionais. O precioso líquido ocupará um papel estratégico para a sobrevivência da humanidade e para a manutenção da riqueza. Corporações como a Monsanto determinou que a água será a "última fronteira de investimento para o setor privado".

Isto significa que a água ganhará o status de bem escasso, apesar da sua aparente abundância. De um conceito natural de vida, a água adquire o conceito de mercadoria. Ou seja, será enquadrada nas leis de mercado, com todas as conseqüências que poderão daí advir, como o fato de se manter sob o domínio do grande capital, em detrimento das populações mais pobres. A noção de escassez é o que se quer por último impingir à opinião pública. Esta é somente uma meia verdade.

Mau uso

A escassez é uma realidade, mas suas causas é que precisam ser esclarecidas. Foi a depredação dos recursos hídricos, o uso intensivo na agricultura e o monopólio para fins particulares que fizeram da água doce um bem escasso. Agora as grandes empresas se organizam para dominar o manancial existente. 

Setenta por cento da Terra é coberta de água. Desse total, 97,6% é água salgada, e apenas 2,4% representa água doce. Dessa pequena porcentagem, 70% se destina à irrigação, 20% à indústria e apenas 10% ao consumo humano. Entretanto, apenas 0,7% dos 10% são acessíveis: a água restante está em fontes de difícil acesso, como aqüíferos profundos, calotas polares ou interior das florestas. 

Na verdade, há bastante água, porém mal distribuída. Sessenta por cento está concentrada em 9 países, enquanto que os demais enfrentam situações de escassez. Da população mundial, pouco menos de 1 bilhão consome 86% da água existente no planeta. Para 1,4 bilhões, a água é insuficiente, e para 2 bilhões a água não é tratada, provocando doenças. 

Essas estatísticas indicam que o que está em jogo é o mau uso e a má distribuição da água, associados a padrões de desperdícios, como se verá mais adiante. 

Campeão das águas

O Brasil é uma espécie de campeão das águas por excelência, e por isso pode ser um alvo dos interesses das comunidades internacionais. O país concentra 13% de toda a reserva de água doce do planeta, totalizando 5,4 trilhões de metros cúbicos. A sua distribuição, porém, é desigual: 70% está na região amazônica; 15% no Centro-Oeste, 6% no Sul e 3% no Nordeste, por sinal a região mais atingida pela falta de água. Apesar do manancial generoso, a gravidade está no desperdício: 46%, um número que poderia abastecer países como a França, Bélgica, Suíça e parte da Itália. Neste caso, o que precisa ser debatido são padrões de uso, para se evitar o desperdício. 

Considere-se ainda que o Brasil é o 10º exportador de "água virtual" do mundo. Entre 1995 e 1999, exportou entre 10 e 100 milhões de m³ de água embutida em produtos. Boa parte deles foi para a Europa.

Essas estatísticas positivas colocam o Brasil numa situação privilegiada, e quem aposte que poderá favorecer o desenvolvimento do país neste século. O indicador é a produção de água mineral, que já atinge 7% do mercado mundial, movimentando somas entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões por ano.

Nos Estados Unidos, o setor de água mineral está em franca expansão, elevando o consumo per capita de 35 para 76 litros, fato que motiva os fabricantes tradicionais de bebidas a migrarem para esse novo filão.

Esse crescimento tem levado países detentores de grandes reservas de água, como o Canadá, a assinar contratos de 25 anos para fornecimento do produto para a China, por exemplo.   

Esses números situam o Brasil numa situação favorável no cenário internacional. Políticas públicas poderiam explorar essa nova fonte de divisas para o país, assim como a geração de empregos, especialmente para as populações ribeirinhas, por meio da criação de "fazendas de água", à semelhança de outros produtos cuja exploração está em andamento.

Privatização

A transformação da água em um bem escasso, sujeito à exploração privada, tem provocado tarifaços em seu fornecimento em vários países. Uma vez que os objetivos passam a ser o lucro e não a sustentabilidade, as conseqüências se tornam danosas para a população. Na França, um país conhecido pela falta de água (o que talvez justifique a fama dos seus perfumes), as taxas de consumo de água para os consumidores aumentaram em 150%. Na Inglaterra, as taxas de água para o consumidor final aumentaram em 106% ao longo de 6 anos. Em países menos industrializados, como a Índia, as famílias têm que gastar até 25% de sua renda com o consumo de água.

Se todas as projeções para o futuro indicam que a água poderá vir a ser inclusive motivo de conflito entre as nações, resta uma larga margem para que tal problema seja contornado. É só fazer a lição de casa, apostando numa campanha de conscientização do desperdício, e incluir a gestão dos recursos hídricos na pauta de interesses nacionais, antes que outro país o faça por nós. 

    

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