Webjornal - Quinzenal  - Edição 54 - Aracaju,   25  de abril  a  09  de maio  de 2004
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Artigo

O presidente e a Amazônia

Por Paulo Lima

A decisão do presidente Luis Inácio Lula da Silva de autorizar a construção de um gasoduto em plena Amazônia promete tirar o sono dos ambientalistas.  A empreitada rasgará 420 km de selva, e se estenderá da localidade de Coari até Manaus. O gás natural será usado para produção de energia elétrica, em substituição ao óleo diesel atualmente utilizado. Estima-se que a obra trará uma economia de R$ 7,5 bilhões, dinheiro atualmente gasto no subsídio do diesel para as termoelétricas.

O anúncio oficial do mega-empreendimento, feito numa base da Petrobrás na região,  valeu mais uma frase de efeito  do presidente: a de que a Amazônia não seria só santuário.  A afirmação, dentre outras conseqüências,  pode significar um aval para outras iniciativas que nomeiam o progresso econômico acima da necessidade de preservação do meio ambiente. Na prática, implica, por exemplo, a persistente destruição de ecossistemas para atender a sanha dos interesses imobiliários, algo bastante comum no Brasil. 

A discussão é bizantina e remete às primeiras décadas do século passado, quando a defesa dos recursos naturais era vista como um entrave ao desenvolvimento. Por muito tempo, a idéia de crescimento esteve associada ao desbravamento das fronteiras industriais. No caso brasileiro, esse viés foi bastante utilizado pelos generais da ditadura militar, que viam na proteção dos rios e florestas um complô primeiro-mundista para atrasar o nosso processo de industrialização. 

Foi preciso que alguns fóruns internacionais, como a reunião do Clube de Roma, na década de 1960, e a Conferência de Estocolmo, cerca de 10 anos depois, estabelecessem um novo paradigma de desenvolvimento que levasse em conta a defesa do meio ambiente.

Daí para a realização da Eco-92, no Rio de Janeiro, e a criação de protocolos de defesa do meio ambiente, como a Agenda 21, foi um passo. Mas um passo que desanda a cada dia, ante a visão de que a proteção do  meio ambiente e o imperativo do desenvolvimento econômico são necessidades excludentes, como a que parece estar presente na afirmativa do presidente.

Nada de novo no front. Por muito tempo, essa foi a visão da esquerda: meio ambiente é coisa de pequeno-burguês. Sim, sim, o presidente rasgou o seu discurso pregresso de esquerdista, mas ao que tudo indica alguns ranços o perseguem.  Afinal, por que nos preocupar com um punhado de matas e rios, quando a verdadeira necessidade é o combate à fome?

Por trás da visão de "santuário" residem ainda outros dois equívocos: a natureza é pródiga, ela pode ser saqueada ao nosso bel-prazer, sem problemas, que seguirá se renovando. Não é o que mostra, para ficar só num exemplo, o mar de Aral, na ex-União Soviética. Simplesmente sumiu do mapa, por causa da degradação que lhe foi imposta. E era um mar enorme, com alto índice de piscosidade.

O outro engano é acreditar que todo o movimento ambientalista comunga no mesmo mito da "natureza intocada": manter o homem o mais afastado possível dos santuários, para não destruí-los. Não é bem assim. Há correntes, aqui mesmo no Brasil, que pregam o uso equilibrado das áreas naturais, sem que o humano tenha que ser necessariamente afastado.

Mas, para que isso ocorra, há que obedecer princípios de equilíbrio reunidos na tal idéia de sustentabilidade, hoje um termo tão esvaziado de sentido, oco e surrado quanto democracia. E há que obedecer, por exemplo,  estudos de impacto ambiental, que, no caso do gasoduto, parecem ter sido desconsiderados. Pelo menos, até o momento, o Ibama não havia dado o okay para a obra. 

Nota Edgar Morin que temas como a deterioração do meio ambiente, até há algumas décadas, eram completamente estranhos às vanguardas políticas e sociais. O raciocínio do estudioso francês, ao que tudo indica, se mantém atual. 

    

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