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Artigo
O
presidente e a Amazônia
Por
Paulo Lima
A
decisão do presidente Luis Inácio Lula da Silva de autorizar a construção
de um gasoduto em plena Amazônia promete tirar o sono dos ambientalistas.
A empreitada rasgará 420 km de selva, e se estenderá da localidade
de Coari até Manaus. O gás natural será usado para produção de
energia elétrica, em substituição ao óleo diesel atualmente utilizado.
Estima-se que a obra trará uma economia de R$ 7,5 bilhões, dinheiro
atualmente gasto no subsídio do diesel para as termoelétricas.
O anúncio oficial do
mega-empreendimento, feito numa base da Petrobrás na região, valeu
mais uma frase de efeito do presidente: a de que a Amazônia não
seria só santuário. A afirmação, dentre outras conseqüências,
pode significar um aval para outras iniciativas que nomeiam o progresso
econômico acima da necessidade de preservação do meio ambiente. Na prática,
implica, por exemplo, a persistente destruição de ecossistemas para
atender a sanha dos interesses imobiliários, algo bastante comum no
Brasil.
A discussão é bizantina e remete às
primeiras décadas do século passado, quando a defesa dos recursos
naturais era vista como um entrave ao desenvolvimento. Por muito tempo, a
idéia de crescimento esteve associada ao desbravamento das fronteiras
industriais. No caso brasileiro, esse viés foi bastante utilizado pelos
generais da ditadura militar, que viam na proteção dos rios e florestas
um complô primeiro-mundista para atrasar o nosso processo de
industrialização.
Foi preciso que alguns fóruns
internacionais, como a reunião do Clube de Roma, na década de 1960, e a
Conferência de Estocolmo, cerca de 10 anos depois, estabelecessem um novo
paradigma de desenvolvimento que levasse em conta a defesa do meio
ambiente.
Daí para a realização da Eco-92, no
Rio de Janeiro, e a criação de protocolos de defesa do meio ambiente,
como a Agenda 21, foi um passo. Mas um passo que desanda a cada dia, ante
a visão de que a proteção do meio ambiente e o imperativo do
desenvolvimento econômico são necessidades excludentes, como a que
parece estar presente na afirmativa do presidente.
Nada de novo no front. Por muito tempo,
essa foi a visão da esquerda: meio ambiente é coisa de pequeno-burguês.
Sim, sim, o presidente rasgou o seu discurso pregresso de esquerdista, mas
ao que tudo indica alguns ranços o perseguem. Afinal, por que nos
preocupar com um punhado de matas e rios, quando a verdadeira necessidade é o combate à fome?
Por trás da visão de "santuário"
residem ainda outros dois equívocos: a natureza é pródiga, ela pode ser
saqueada ao nosso bel-prazer, sem problemas, que seguirá se renovando.
Não é o que mostra, para ficar só num exemplo, o mar de Aral, na
ex-União Soviética. Simplesmente sumiu do mapa, por causa da
degradação que lhe foi imposta. E era um mar enorme, com alto índice de
piscosidade.
O
outro engano é acreditar que todo o movimento ambientalista comunga no
mesmo mito da "natureza intocada": manter o homem o mais
afastado possível dos santuários, para não destruí-los. Não é bem
assim. Há correntes, aqui mesmo no Brasil, que pregam o uso equilibrado
das áreas naturais, sem que o humano tenha que ser necessariamente
afastado.
Mas, para que isso ocorra, há que
obedecer princípios de equilíbrio reunidos na tal idéia de
sustentabilidade, hoje um termo tão esvaziado de sentido, oco e surrado
quanto democracia. E há que obedecer, por exemplo, estudos de
impacto ambiental, que, no caso do gasoduto, parecem ter sido
desconsiderados. Pelo menos, até o momento, o Ibama não havia dado o
okay para a obra.
Nota Edgar Morin que temas como a
deterioração do meio ambiente, até há algumas décadas, eram
completamente estranhos às vanguardas políticas e sociais. O raciocínio
do estudioso francês, ao que tudo indica, se mantém atual.
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