Webjornal - Quinzenal  - Edição 55 - Aracaju,   09 a 23   de maio  de 2004
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Artigo

Doutor Caminhada

Por Paulo Lima

Se o dia está ensolarado, mas uma nuvem plúmbea insiste em enevoar seus pensamentos, cuidado. Se você acordou sem a mínima predisposição de pegar no batente, ou até mesmo de tomar um simples banho, o qual poderia ajudá-lo a espantar a desdita, então mais uma vez cuidado. Se nem mesmo a visão de uma Gisele Bündchen só para você, exclusivíssima, numa ilha deserta, não o motivou a se desfazer do mal ajambrado pijamas, então você pode estar com depressão.

Agora, para saber se se trata de uma depressão branda ou profunda, não serei eu a lhe dizer. Mas posso lhe dar duas notícias, uma boa e uma ruim, não necessariamente nesta ordem. Se você preferiu a ruim primeiro, lá vai: você precisa consultar um médico. E agora a boa notícia: caso seja confirmado que o seu estado d'alma está às voltas com um quadro depressivo, sossegue. Você não precisará apelar para o famigerado Prozac, apesar das maravilhas que esse medicamento tem realizado, fazendo com que almas enfermas, ora direis, ouçam estrelas. 

Também não precisará  recorrer aos préstimos de Herr Freud. Portanto, nem Freud, nem Prozac. A saída para a sua depressão é pelas pernas, mais exatamente, pernas para que te quero. Traduzindo: uma boa e longa caminhada. Isso mesmo. Caminhada, ou jogging, para usar uma linguagem mais adaptada às academias de ginástica, é o que médicos têm receitado para curar os males da depressão. 

Quem anuncia a boa nova é a revista britânica Observer, em sua edição de 2 de maio. A matéria, "Comece a caminhar e esqueça o Prozac", atribui a descoberta a um certo Dr. David Servan-Schreiber, membro fundador do grupo Médicos Sem Fronteiras, dos Estados Unidos. O Dr David, avisa a revista, está chegando na Inglaterra para lançar a sua "filosofia contagiosa" (palavras da Observer) que prega o poder curativo e antidepressivo dos exercícios.

Sei que o Dr David deve estar a essa altura sendo aguardado pela Rainha com direito a fogos de artifícios e banda de música de sua Alteza. Mas me permitam ser a mosca no chá dos ingleses. Esse negócio de curar os males da mente com muito suor não é novidade. No filme "História de Oliver", que encheu de piedade e compreensão os corações lá pela década de 1970, um deprimido Ryan O'Neil vai ver um médico. Ele acabara de perder a sua esposa num acidente, e tinha razões de sobra para estar deprimido. O primeiro conselho médico: vá caminhar no parque, faça exercícios.

E é o que fez O'Neil, até porque os parques mostrados em filmes americanos são mesmo irresistíveis, com toda a sua foliage amarelada anunciando  o início da primavera e todas aquelas mulheres esguias e com pernocas à mostra, invariavelmente loiras. 

E antes que a poderosa Food and Drug Administration saía em campo para acusar o Dr. David de estar armando um complô contra a indústria de medicamentos dos EUA, ele se defende: "Não é que eu seja contra antidepressivos. É somente porque há alguns métodos naturais de tratamento que têm demonstrado que funcionam em formas brandas de depressão. E não faz mais sentido ignorá-los por tanto tempo".

Nesta era de celebridades que são guindadas ao proscênio por razão nenhuma, simplesmente porque ficam trancafiadas numa casa,  Dr. David tem sobejas razões de ter-se tornado uma delas. O Le Monde o tem chamado de "guru de uma nova medicina". Já o L'Express não ficou atrás: "Sinta-se melhor sem medicamentos", numa clara alusão às idéias do Dr. Caminhada. As portas aparentemente estão abertas para o Dr. David na Grã-Bretanha. Lá um em cada quatro ingleses desenvolverá problemas mentais no futuro. E as receitas para anti-depressivos praticamente dobraram nos últimos 10 anos, naquele país.

Enquanto isso, a conta bancária do Dr. David tem recebido polpudos reforços. Seu livro "Curando sem Freud ou Prozac" já vendeu meio milhão de exemplares só no Canadá, e já caminha para receber o título de best-seller do ano. Meio milhão ganho só para prescrever um mero bate-perna. Nada mau. Mas desconfio que no Brasil o sucesso de Dr. David seria abrandado. Porque aqui o corre-corre é generalizado. Corre-se da polícia, dos bandidos, do desemprego, do imposto de renda, e nem por isso deixamos de enlouquecer um pouco mais a cada dia.   

    

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