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Artigo
Doutor
Caminhada
Por
Paulo Lima
Se
o dia está ensolarado, mas uma nuvem plúmbea insiste em enevoar seus
pensamentos, cuidado. Se você acordou sem a mínima predisposição de
pegar no batente, ou até mesmo de tomar um simples banho, o qual poderia
ajudá-lo a espantar a desdita, então mais uma vez cuidado. Se nem mesmo
a visão de uma Gisele Bündchen só para você, exclusivíssima, numa
ilha deserta, não o motivou a se desfazer do mal ajambrado pijamas,
então você pode estar com depressão.
Agora, para saber se se trata de uma
depressão branda ou profunda, não serei eu a lhe dizer. Mas posso lhe
dar duas notícias, uma boa e uma ruim, não necessariamente nesta ordem.
Se você preferiu a ruim primeiro, lá vai: você precisa consultar um
médico. E agora a boa notícia: caso seja confirmado que o seu estado
d'alma está às voltas com um quadro depressivo, sossegue. Você não
precisará apelar para o famigerado Prozac, apesar das maravilhas que esse
medicamento tem realizado, fazendo com que almas enfermas, ora direis, ouçam estrelas.
Também não precisará recorrer
aos préstimos de Herr Freud. Portanto, nem Freud, nem Prozac. A saída
para a sua depressão é pelas pernas, mais exatamente, pernas para que te
quero. Traduzindo: uma boa e longa caminhada. Isso
mesmo. Caminhada, ou jogging, para usar uma linguagem mais adaptada
às academias de ginástica, é o que médicos têm receitado para curar
os males da depressão.
Quem anuncia a boa nova é a revista
britânica Observer, em sua edição de 2 de maio. A matéria,
"Comece a caminhar e esqueça o Prozac", atribui a descoberta a
um certo Dr. David Servan-Schreiber, membro fundador do grupo Médicos Sem
Fronteiras, dos Estados Unidos. O Dr David, avisa a revista, está
chegando na Inglaterra para lançar a sua "filosofia contagiosa"
(palavras da Observer) que prega o poder curativo e antidepressivo
dos exercícios.
Sei que o Dr David deve estar a essa
altura sendo aguardado pela Rainha com direito a fogos de artifícios e
banda de música de sua Alteza. Mas me permitam ser a mosca no chá dos
ingleses. Esse negócio de curar os males da mente com muito suor não é
novidade. No filme "História de Oliver", que encheu de piedade
e compreensão os corações lá pela década de 1970, um deprimido Ryan
O'Neil vai ver um médico. Ele acabara de perder a sua esposa num
acidente, e tinha razões de sobra para estar deprimido. O primeiro
conselho médico: vá caminhar no parque, faça exercícios.
E é o que fez O'Neil, até porque os
parques mostrados em filmes americanos são mesmo irresistíveis, com toda
a sua foliage amarelada anunciando o início da primavera e
todas aquelas mulheres esguias e com pernocas à mostra, invariavelmente
loiras.
E antes que a poderosa Food and Drug
Administration saía em campo para acusar o Dr. David de estar armando um
complô contra a indústria de medicamentos dos EUA, ele se defende:
"Não é que eu seja contra antidepressivos. É somente porque há
alguns métodos naturais de tratamento que têm demonstrado que funcionam
em formas brandas de depressão. E não faz mais sentido ignorá-los por
tanto tempo".
Nesta era de celebridades que são
guindadas ao proscênio por razão nenhuma, simplesmente porque ficam
trancafiadas numa casa, Dr. David tem sobejas razões de ter-se
tornado uma delas. O Le Monde o tem chamado de "guru de uma
nova medicina". Já o L'Express não ficou atrás: "Sinta-se
melhor sem medicamentos", numa clara alusão às idéias do Dr.
Caminhada. As portas aparentemente estão abertas para o Dr. David na
Grã-Bretanha. Lá um em cada quatro ingleses desenvolverá
problemas mentais no futuro. E as receitas para anti-depressivos
praticamente dobraram nos últimos 10 anos, naquele país.
Enquanto isso, a conta bancária do Dr.
David tem recebido polpudos reforços. Seu livro "Curando sem
Freud ou Prozac" já vendeu meio milhão de exemplares só no
Canadá, e já caminha para receber o título de best-seller do ano. Meio
milhão ganho só para prescrever um mero bate-perna. Nada mau. Mas
desconfio que no Brasil o sucesso de Dr. David seria abrandado. Porque
aqui o corre-corre é generalizado. Corre-se da polícia, dos bandidos, do
desemprego, do imposto de renda, e nem por isso deixamos de enlouquecer um
pouco mais a cada dia.
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