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Artigo
O desafio
do outro
Por
Paulo Lima
Creio
que foi no filme "Noivo neurótico, noiva nervosa" que Woody
Allen caracterizou as pessoas do mundo. Para o cineasta, há os
"miseráveis" e os "horrorosos". Miseráveis, diz ele,
somos todos nós, os normais. E os horrososos são aqueles homens e
mulheres que convivem com algum tipo de deficiência: pernetas, cegos,
deformados etc. - Como conseguem viver? - se pergunta um atônito Woody.
Imaginação
é o que não lhe falta, mas não me parece que, nem mesmo em seus filmes,
ele tentou encarnar um dia algum desses personagens.
O
vulgo chama esse exercício de se colocar na pele do outro de empatia. A
Psicologia o denomina de estudo da percepção. A essa atividade
entregaram-se alguns alunos do curso de Psicologia da
Universidade Tiradentes, na tarde da última sexta-feira. Algumas
respostas talvez eles pudessem dar ao cineasta novaiorquino.
Para
os desinformados, as dependências do campus pareciam ter sido tomadas, de
repente, por alunos que haviam sofrido acidentes recentes. Gente de
braços imobilizados, moças e rapazes circulando em cadeiras de rodas, e
outros com vendas nos olhos, como se brincassem de cabra cega. Intrigado,
consultei um deles e aí tudo se esclareceu. Realizavam uma atividade.
Uma
aluna sentada numa cadeira de rodas exibe a relação das tarefas que
teria de cumprir, na condição de paraplégica. Nada que ela não pudesse
fazer assobiando, mas em suas condições seria como enfrentar o
calvário.
Outra
aluna, de olhos vendados, reclama que está sentindo falta de ar, e receia
não poder continuar por muito tempo vivendo a sua cegueira temporária. O
tema da cegueira, aliás, foi tratado recentemente no maravilhoso
documentário "A janela da alma". Mais do que uma abordagem
sobre os que não enxergam, trata-se de uma magnífica reflexão sobre o
olhar.
Parece
um estranho paradoxo que um documentário aborde a questão do olhar a
partir da cegueira, mas talvez seja preciso retroceder à sombra para
enxergar a luz. Os protagonistas do documentário revelam um mundo
onírico e rico exatamente a partir do seu mundo de escuridão.
O
paradoxo se acentua se tivermos em mente que nunca, em nenhuma outra etapa
da humanidade, o nosso olhar foi tão ostensivamente bombardeado por um
fluxo tão incessante de imagens, referido por Susan Sontag em seu
recente ensaio "Diante da dor dos outros". O
excesso acaba por neutralizar justamente a nossa percepção sobre o
outro, tornando-nos indiferentes.
O
desafio da compreensão desse outro, seja ele um deficiente ou alguém
situado abaixo de nós na escala social, talvez não implique numa atitude
tão radical como a empreendida por Simone Weil, a intelectual gauche
que na década de 1930 se infiltrava nas linhas de montagem da Renault,
paramentada de macacão e tudo, para compreender o universo do
operário francês.
Ou
talvez não envolva uma atitude como a do presidente Lula, em início de
mandato, de organizar uma "caravana holliday" para que seus
engalanados ministros vissem de perto a cara da fome no Brasil. Bastaria
dobrar uma esquina em São Paulo, visitar uma das suas inúmeras marquises
e viadutos.
Mas
não seria uma má idéia se, vez por outra, pudéssemos efetuar o
exercício de nos colocar no lugar do outro, num exercício de alteridade
- como fizeram aqueles estudantes -, e abandonar por instantes nossas comodidades egóicas e nossas certezas.
Aí
talvez fizéssemos valer a convicção de Sartre, para quem o homem estava
condenado à aderência. Teríamos menos intolerância e, talvez, um pouco
mais de liberdade e poesia.
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