Webjornal - Quinzenal  - Edição 59 - Aracaju,   04 a 18  de julho  de 2004
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Artigo

O mito preservado

Por Paulo Lima

A derrota do futebol brasileiro em 1950 nocauteou a nossa auto-estima e  rebaixou-a tão dramaticamente que poucos acreditariam que um dia poderíamos reagir e dar a volta por cima.  O luto pela tragédia foi enfim abandonado em 1958, com a vitória aguerrida do nosso selecionado na copa da Suécia. A conquista nos livrou do complexo de vira-lata que sempre nos havia acompanhado - pelo menos foi o que escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, tempos depois, ao se referir à alma brasileira.

Com apenas 17 anos - mal saindo, portanto, da adolescência -, Pelé foi um dos responsáveis por aquele título histórico, vale dizer, também a ele pode ser atribuída a oportunidade por enfunarmos o peito num instante ufano. Nascia ali o personagem mitológico,  o rei que ajudaria a consagrar de vez o nosso futebol em terras estrangeiras.

Num país com pouco apreço por seus heróis, a mística de Pelé parece estar a salvo com o recém-lançado documentário Pelé Eterno, produzido e dirigido por Aníbal Massaini Neto, mostrando a trajetória do rei. Registre-se que, além do filme, o lançamento do perfil biográfico Os dez corações do rei, de autoria do jornalista José Castello, ajuda a alimentar a corrente de efemérides em torno do maior jogador de futebol de todos os tempos. 

Em contraste com a grandeza e complexidade do personagem, o documentário, porém,  segue uma cronologia um tanto óbvia da carreira de Pelé, a ponto de tornar possível ao espectador prever o que virá em seguida baseando-se somente na linha do tempo das copas do mundo. 

Mas, afora isso, há o inegável resgate de imagens históricas pouco conhecidas do grande público,  como é o caso da partida que o Santos, o time que abrigou Pelé por quase toda uma vida, disputou contra o Boca Juniors pela Taça Libertadores da América, em 1963, em Buenos Aires, enfrentando a hostilidade da torcida portenha num tempo em que a rivalidade entre os dois países parecia ainda mais acirrada. E há as imagens de um Pelé ainda mirrado, em algazarra juvenil com colegas de equipes pequenas de futebol do interior de São Paulo.

Se o filme revela o gênio eterno em momentos altaneiros, com toda a sua garra, técnica e força, mostra-o também em pequenos instantes de rendição, quando Pelé, ao retornar da copa da Inglaterra, anuncia, derrotado, que jamais voltará a jogar pela seleção - promessa afinal quebrada em 1970, quando se sagrou tri-campeão no México.

Em Pelé Eterno temos a chance de ouvir os testemunhos de alguns dos heróis coadjuvantes das grandes facetas do rei - seus companheiros do Santos, que lhe prestam um belo preito de gratidão e amizade. Depoimentos de personalidades como Franz Beckenbauer, o lendário capitão da seleção alemã, e o ex-secretário de estado norte-americano Henry Kissinger atestam o alcance do mito. Mas as cenas de Pelé em família garantem os momentos de pieguice do filme, que culminam com o derramamento do homem Edson Arantes do Nascimento em choro convulso, na presença de esposa e filhos.

Coube a Armando Nogueira, uma testemunha ocular de tantas copas do mundo,  escrever o texto do documentário - uma prosa poética que contribui para emoldurar num manto de quimera os inacreditáveis feitos de Pelé. 

Se o complexo de vira-lata da nação brasileira foi de fato vencido a partir daquela memorável conquista de 1958, como quis Nelson Rodrigues, trata-se de algo questionável, ante tantos reveses, às vezes brutais, por que tem passado a "pátria de chuteiras" - mas é inegável que cabe a Pelé um lugar de honra no panteão dos heróis contemporâneos.         

    

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