
Webjornal - Quinzenal - Edição 61 - Aracaju, 01
a 15 de agosto de 2004
_________________________________________________________________________________________
|
|
Artigo Por
Paulo Lima Nas entranhas do Abaís, região praiana do litoral sul de Sergipe, vive um anedótico Zé do Baião, senhor absoluto de um pequeno harém. O caso atraiu os holofotes da mídia novidadeira, embora o fenômeno de poligamia, nem sempre explícita, se trate de matéria chã nos rincões do Nordeste, onde o domínio dos homens sobre as mulheres é fato consumado - e sobre isso não se discute. Ou melhor, se discute, mas sob pena de a dominada amanhecer de olho roxo ou partir desta para nunca mais. Histórias de poligamia não são, porém, um fenômeno somente da periferia terceiro-mundista. No lugarejo de Creston Valley, fincado na Colúmbia Britânica, no frio e longínquo Canadá, a coisa se repete, mas sob o disfarçado manto do dogma religioso. O assunto está noticiado na revista The Economist, edição de 08 de julho, na reportagem "Hunting Bountiful" (algo como "Caçada a Bountiful"). "Durante meio século, um foco de poligamia tem florescido pacificamente por lá, numa comunidade chamada Bountiful", diz a revista. O assunto é conhecido por todos, pela polícia, e até por funcionários da magistratura local - procuradores e advogados, segundo The Economist. Os bountifulianos, se assim podemos chamá-los, têm uma desculpa na ponta da língua para explicar a prática a que têm se dedicado por tanto tempo: reivindicam lealdade à Igreja de Jesus Cristo do Sétimo Dia, sediada em Utah, nos Estados Unidos. Essa seita "ensina que os homens devem ter três ou mais esposas e muitos filhos, tantos quanto possível, para entrarem no reino dos céus". O papel da mulher, jovem e adulta, é servir os homens. E ai daquelas que desobedecerem - suas almas arderão no inferno por toda a eternidade. Bountiful foi fundada em 1947 por um punhado de dissidentes excomungados da principal igreja mórmon em Utah. Os atuais mil residentes da comunidade descendem quase todos da mesma meia dúzia de homens. O lugar é dominado pelo "bispo" James Oler e por seu antecessor Winston Blackmore, que foi deposto e hoje dirige um grupo à parte. A comunidade segue um aparente padrão de normalidade. Por lá há escolas que recebem ajuda oficial, embora os críticos afirmem que a educação se restrinja a preparar os homens para o trabalho nas fazendas de Bountiful e as mulheres para serem noivas jovens e mães. Mulheres que fugiram dizem que garotas de 13 anos casam com homens (polígamos) três vezes mais velhos. Falam ainda de garotas de 14 e 15 anos que dão à luz, e de garotas menores de idade que são trazidas de comunidades similares na América para casamentos arranjados e para servirem de "estoque de criação". Os críticos da permissividade em Bountiful se dividem. Jancis Andrews, uma advogada defensora dos direitos da mulher, se refere à situação como "um desrespeito grotesco e flagrante aos direitos humanos". O procurador-geral Geoff Plant, por seu turno, acusado de inércia, se arvora na Carta dos Direitos e das Liberdades do Canadá, que assegura a liberdade religiosa, tornando a lei contra a poligamia inconstitucional. Os ventos a favor da devassidão em Bountiful, porém, estão mudando. O ministro da justiça federal do Canadá promete usar o seu peso em favor de qualquer acusação. A chance pareceu surgir com o depoimento que nove garotas fugitivas de Bountiful prestaram em maio último, denunciando poligamia e abuso sexual de meninas de 13 anos. A polícia e os caçadores das práticas ambíguas de Bountiful estão aos poucos fechando o cerco, diz a The Economist, o que pode culminar com o fim de meio século de exploração. No Brasil, a CPI sobre a prostituição infantil indicou que trata-se de um negócio que envolve políticos, magistrados e outras autoridades de alto coturno. Em Bountiful fazem a festa respaldados na sacrossanta tábua da religião. Aqui o embalo é regado a impunidade, abuso de autoridade e corrupção, com a cafajestada e o banditismo revelando as faces de uma mesma miséria. Em Bountiful prometem pôr um ponto final na história para daqui a pouco. Por aqui, o drama promete preencher ainda muitas páginas de jornais e vitimar muitos inocentes. |
(c) Todos os Direitos Reservados