Webjornal - Quinzenal  - Edição 61 - Aracaju,    01  a  15 de agosto  de 2004
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Artigo

Crônicas de um filho rebelde

Por Paulo Lima

No Brasil a profusão de notícias diárias acaba por torná-lo um paraíso para os jornalistas, porém um inferno para os cientistas políticos. A afirmação partiu de um correspondente estrangeiro. Por aqui, os rumos da política são inteiramente imprevisíveis. Já o manancial de informações é fartamente renovado a cada dia. Talvez se possa acrescentar: um paraíso também para os cronistas, pois de notícias (e não-notícias) é que se faz uma crônica.

Para um leitor atilado, uma notícia, apesar da sua natureza efêmera,  pode se transformar na matéria prima para um enfoque  mais aprofundado. Do trivial ligeiro, ela pode galgar o status de peça literária e retornar às páginas do jornal sob um novo ângulo, na forma de uma crônica. Se essa notícia encontrar os olhos de um leitor como João Ubaldo Ribeiro, ela poderá conquistar a perenidade.

Como cronista de O Globo, Ubaldo tem sido um observador atento do nosso cotidiano, criticando-lhe os absurdos, as injustiças e as contradições. O conjunto das suas crônicas publicadas entre 1999 e 2004 acaba de ser reunida em livro. Você me mata, mãe gentil traz o Ubaldo de sempre, destilando ironia certeira e fino humor.  Combinando o tom coloquial com um rigor castiço, ele renova temas já surrados, transformando-os em histórias que despertam a nossa reflexão.

A obsessão por explicar o Brasil, eixo temático dessas crônicas,  não é nova nesse baiano de Itaparica. Em Viva o povo brasileiro (1984), a sua obra mais alentada, Ubaldo oferece a sua visão do nosso processo de formação, repassando, através do recurso da ficção, momentos decisivos da história pátria.

Mesmo distante do seu território verde e amarelo, Ubaldo a ele retorna como se realizasse um constante diálogo, um esforço para melhor compreendê-lo através da contraposição de realidades. Isso ocorre quando da sua estadia na Alemanha, onde morou entre 1990 e 1991 como escritor residente. Resultou da experiência as crônicas de  Um brasileiro em Berlim, em que uma vez mais o recurso da ironia e do humor faz a delícia dos leitores. Lá pelas tantas, Ubaldo descobre, por exemplo,  que o cotidiano alemão é dominado por duas “gangues”, insgang e ausgang, naturalmente uma brincadeira em torno dos termos alemães para indicar “entrada” e “saída”.

Humor e ironia

Em Você me mata mãe gentil, Ubaldo maneja uma vez mais o humor e a ironia para criticar pelo menos uma das nossas muitas idiossincrasias: para o brasileiro, o culpado por suas próprias dificuldades é sempre o outro, e nunca ele mesmo. Os responsáveis por nossos vexames são sempre identificados na nossa herança lusa, no imperialismo ianque e no governo (o atual e o de priscas eras). Neste sentido, as crônicas de Ubaldo contêm uma  pedagogia básica: nelas nos vemos de um modo diferente, ainda que a “lição” possa chegar de forma arrevesada, pela lente da ironia, como neste trecho de  “A realidade brasileira”:

Nós, relutantemente (às vezes sob protesto, como acontece na Barra da Tijuca), somos brasileiros, mas não fazemos nada do que os brasileiros fazem. Os brasileiros são os maus políticos, a má  polícia, a má administração, o trânsito horripilante, os ladrões e assaltantes, mas nunca nós. Se não fosse a má reputação que a palavra “sociólogo”, não sei por quê, vem adquirindo nos últimos anos, creio que seria um fértil terreno para o trabalho de um deles.

Difícil acreditar que o leitor não saberá o porquê da má reputação, como dificilmente não entenderá a ironia contida na crítica abaixo, presente na crônica “Muito a comemorar”:

Vivemos denunciando escândalos, noticiando calamidades e pedindo providências. Ou seja, como qualquer político poderá asseverar, é tudo culpa da imprensa. Pensando bem, o jornalismo é que não merece homenagem nenhuma e vai ver até que a epidemia de dengue é também causada pelo sensacionalismo da imprensa. Fechar os jornais e abolir os noticiários resolveria tudo. Por que não pensamos em soluções simples?

Ora, já que tudo funciona às mil maravilhas neste país, o pessimismo e as más notícias só podem ser mesmo orquestrados pela imprensa. Então, que se parem as máquinas.  A ironia e a crítica estão asseguradas em mais uma crônica.

E de crônica em crônica esse imortal da Academia Brasileira de Letras vai formando um painel das nossas pequenas e grandes vicissitudes. Se a mãe gentil não se sentir representada nesse livro de um filho ilustre, ou dele não for capaz de retirar algum ensinamento, que ao menos possa dar umas  boas risadas – o que não é pouca porqueira, como diria Ubaldo.

                        

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