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Artigo
Crônicas
de um filho rebelde
Por
Paulo Lima

No
Brasil a profusão de notícias diárias acaba por torná-lo um paraíso
para os jornalistas, porém um inferno para os cientistas políticos. A
afirmação partiu de um correspondente estrangeiro. Por aqui, os rumos da
política são inteiramente imprevisíveis. Já o manancial de
informações é fartamente renovado a cada dia. Talvez se possa
acrescentar: um paraíso também para os cronistas, pois de notícias (e
não-notícias) é que se faz uma crônica.
Para
um leitor atilado, uma notícia, apesar da sua natureza efêmera,
pode se transformar na matéria prima para um enfoque
mais aprofundado. Do trivial ligeiro, ela pode galgar o status de
peça literária e retornar às páginas do jornal sob um novo ângulo, na
forma de uma crônica. Se essa notícia encontrar os olhos de um leitor
como João Ubaldo Ribeiro, ela poderá conquistar a perenidade.
Como
cronista de O Globo, Ubaldo tem sido um observador atento do nosso
cotidiano, criticando-lhe os absurdos, as injustiças e as contradições.
O conjunto das suas crônicas publicadas entre 1999 e 2004 acaba de ser
reunida em livro. Você me mata, mãe gentil traz o Ubaldo de
sempre, destilando ironia certeira e fino humor. Combinando o tom coloquial com um rigor castiço, ele renova
temas já surrados, transformando-os em histórias que despertam a nossa
reflexão.
A
obsessão por explicar o Brasil, eixo temático dessas crônicas,
não é nova nesse baiano de Itaparica. Em Viva o povo
brasileiro (1984), a sua obra mais alentada, Ubaldo oferece a sua visão
do nosso processo de formação, repassando, através do recurso da ficção,
momentos decisivos da história pátria.
Mesmo
distante do seu território verde e amarelo, Ubaldo a ele retorna como se
realizasse um constante diálogo, um esforço para melhor compreendê-lo
através da contraposição de realidades. Isso ocorre quando da sua
estadia na Alemanha, onde morou entre 1990 e 1991 como escritor residente.
Resultou da experiência as crônicas de Um brasileiro em Berlim, em que uma vez mais o recurso
da ironia e do humor faz a delícia dos leitores. Lá pelas tantas, Ubaldo
descobre, por exemplo, que o
cotidiano alemão é dominado por duas “gangues”, insgang e ausgang,
naturalmente uma brincadeira em torno dos termos alemães para indicar
“entrada” e “saída”.
Humor
e ironia
Em
Você me mata mãe gentil, Ubaldo maneja uma vez mais o humor e a
ironia para criticar pelo menos uma das nossas muitas idiossincrasias:
para o brasileiro, o culpado por suas próprias dificuldades é sempre o
outro, e nunca ele mesmo. Os responsáveis por nossos vexames são sempre
identificados na nossa herança lusa, no imperialismo ianque e no governo
(o atual e o de priscas eras). Neste sentido, as crônicas de Ubaldo contêm
uma pedagogia básica: nelas
nos vemos de um modo diferente, ainda que a “lição” possa chegar de
forma arrevesada, pela lente da ironia, como neste trecho de
“A realidade brasileira”:
Nós,
relutantemente (às vezes sob protesto, como acontece na Barra da Tijuca),
somos brasileiros, mas não fazemos nada do que os brasileiros fazem. Os
brasileiros são os maus políticos, a má
polícia, a má administração, o trânsito horripilante, os ladrões
e assaltantes, mas nunca nós. Se não fosse a má reputação que a
palavra “sociólogo”, não sei por quê, vem adquirindo nos últimos
anos, creio que seria um fértil terreno para o trabalho de um deles.
Difícil
acreditar que o leitor não saberá o porquê da má reputação, como
dificilmente não entenderá a ironia contida na crítica abaixo, presente
na crônica “Muito a comemorar”:
Vivemos
denunciando escândalos, noticiando calamidades e pedindo providências.
Ou seja, como qualquer político poderá asseverar, é tudo culpa da
imprensa. Pensando bem, o jornalismo é que não merece homenagem nenhuma
e vai ver até que a epidemia de dengue é também causada pelo
sensacionalismo da imprensa. Fechar os jornais e abolir os noticiários
resolveria tudo. Por que não pensamos em soluções simples?
Ora,
já que tudo funciona às mil maravilhas neste país, o pessimismo e as más
notícias só podem ser mesmo orquestrados pela imprensa. Então, que se
parem as máquinas. A ironia
e a crítica estão asseguradas em mais uma crônica.
E
de crônica em crônica esse imortal da Academia Brasileira de Letras vai
formando um painel das nossas pequenas e grandes vicissitudes. Se a mãe
gentil não se sentir representada nesse livro de um filho ilustre, ou
dele não for capaz de retirar algum ensinamento, que ao menos possa dar
umas boas risadas – o que não
é pouca porqueira, como diria Ubaldo.
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