Webjornal - Quinzenal  - Edição 62 - Aracaju,  15  a  29  de agosto  de 2004
_________________________________________________________________________________________

Artigo

Encontro de craques

Por Paulo Lima

É como se o time da estrela solitária tivesse ganhado um campeonato. Com a publicação de Botafogo, entre o céu e o inferno (Ediouro), o futebol brasileiro assiste a um encontro de craques. De um lado, o desfilar dos grandes jogadores que fizeram a história da equipe de General Severiano. Do outro, um artilheiro do jornalismo cultural no Brasil, Sérgio Augusto, que assina esta biografia do Botafogo. Com a erudição que lhe é típica, o jornalista carioca, ele próprio um dos fleumáticos torcedores do Bota, marca um gol de placa. 

Sérgio mergulha no passado do clube e produz uma narrativa capaz de meter inveja em qualquer plantel rubro-negro, vascaíno ou quem mais vier. Ele vai buscar nos albores do século passado a essência do Botafogo - como time de futebol foi fundado em 1904, mas como clube de regatas, a história começa um pouco mais cedo, 1894.

Munido de farto arsenal de informações, Sérgio Augusto prova que o time sempre foi o queridinho da mais seleta inteligentsia do Rio de Janeiro. Algo diverso do Flamengo, um time para multidões, um best-seller, se comparado com o rigor clássico do Botafogo. O rol de admiradores, em termos de número, não preencheria uma ínfima parcela do Maracanã, mas o seu peso é inconteste em termos de representatividade. Tome nota aí: Lúcio Rangel, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, Vinícius de Moraes, Ivan Lessa, Luís Fernando Veríssimo (estes dois últimos convertidos) e até Orson Welles, que, num esforço da imaginação do jornalista, teria se transformado em mais um dos seletos 18 torcedores do time, ao passar pelo Rio de Janeiro para filmar It's All True. Aliás, não tão seletos assim, como supõe João Moreira Salles na apresentação. A legião de torcedores do Bota é muito mais extensa e estelar, como se vê à página 231.

A história do time se entrelaça com as reminiscências de Sérgio Augusto, que se converteu para as hostes do Bota ainda na infância, ao abandonar o Vasco da Gama, clube do coração do pai, um português. Do alto da sua experiência, Sérgio poderia dizer: "meninos, vi". E viu, sim, Nilton Santos, figura lendária do clube, jogar diversas vezes. "Cresci, estudei e me iniciei no jornalismo assistindo às suas exibições, sempre de gala, no Botafogo e nas seleções carioca e brasileira". 

Uniforme listrado

No livro, não há nuance do histórico do time que não tenha sido esquadrinhado, inclusive a razão de ser da sua camisa listrada. "Apesar da corriqueira associação do América com o inferno e o diabo, é o clube da estrela solitária que, já no nome, encarna com maior consistência todas essas metafóricas relações com o elemento que mais contribuiu para civilizar o homem primitivo: o fogo".

É no ensaio O pano do diabo, do paleógrafo francês Michel Pastoureau, que Sérgio Augusto vai buscar as explicações para a relação dos tecidos listrados com o demo. "Negativas nos uniformes dos campos de concentração nazistas e dos presidiários do cinema e dos quadrinhos, as listras expandiram-se positivamente por outros corpos: de crianças, banhistas, marujos e esportistas, seus mais benignos usuários".

E é mais essa marca positiva que o Botafogo carregaria, em sua história gravada entre o céu e o inferno. As chances da sua redenção definitiva estão nessa biografia. Se valer a observação de Vinícius de Moraes, para quem o Botafogo "não se trata de uma paixão, mas de uma senha para a cidadania", os torcedores alvinegros (e, de resto, o futebol brasileiro) haverão de reconhecer esta singular contribuição. 

                         

(c) Todos os Direitos Reservados