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Artigo
Encontro de
craques
Por
Paulo Lima

É
como se o time da estrela solitária tivesse ganhado um campeonato. Com a
publicação de Botafogo, entre o céu e o inferno (Ediouro), o
futebol brasileiro assiste a um encontro de craques. De um lado, o
desfilar dos grandes jogadores que fizeram a história da equipe de
General Severiano. Do outro, um artilheiro do jornalismo cultural no
Brasil, Sérgio Augusto, que assina esta biografia do Botafogo. Com a
erudição que lhe é típica, o jornalista carioca, ele próprio um dos
fleumáticos torcedores do Bota, marca um gol de placa.
Sérgio
mergulha no passado do clube e produz uma narrativa capaz de meter inveja
em qualquer plantel rubro-negro, vascaíno ou quem mais vier. Ele vai
buscar nos albores do século passado a essência do Botafogo - como time
de futebol foi fundado em 1904, mas como clube de regatas, a história
começa um pouco mais cedo, 1894.
Munido
de farto arsenal de informações, Sérgio Augusto prova que o time sempre
foi o queridinho da mais seleta inteligentsia do Rio de Janeiro.
Algo diverso do Flamengo, um time para multidões, um best-seller,
se comparado com o rigor clássico do Botafogo. O rol de admiradores, em
termos de número, não preencheria uma ínfima parcela do Maracanã, mas
o seu peso é inconteste em termos de representatividade. Tome nota aí:
Lúcio Rangel, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, Vinícius de Moraes, Ivan Lessa, Luís Fernando Veríssimo (estes dois
últimos convertidos) e até Orson Welles, que, num esforço da
imaginação do jornalista, teria se transformado em mais um dos seletos
18 torcedores do time, ao passar pelo Rio de Janeiro para filmar It's
All True. Aliás, não tão seletos assim, como supõe João Moreira
Salles na apresentação. A legião de torcedores do Bota é muito mais
extensa e estelar, como se vê à página 231.
A
história do time se entrelaça com as reminiscências de Sérgio Augusto,
que se converteu para as hostes do Bota ainda na infância, ao abandonar o
Vasco da Gama, clube do coração do pai, um português. Do alto da sua
experiência, Sérgio poderia dizer: "meninos, vi". E viu, sim,
Nilton Santos, figura lendária do clube, jogar diversas vezes.
"Cresci, estudei e me iniciei no jornalismo assistindo às suas
exibições, sempre de gala, no Botafogo e nas seleções carioca e
brasileira".
Uniforme
listrado
No
livro, não há nuance do histórico do time que não tenha sido
esquadrinhado, inclusive a razão de ser da sua camisa listrada.
"Apesar da corriqueira associação do América com o inferno e o
diabo, é o clube da estrela solitária que, já no nome, encarna com
maior consistência todas essas metafóricas relações com o elemento que
mais contribuiu para civilizar o homem primitivo: o fogo".
É
no ensaio O pano do diabo, do paleógrafo francês Michel
Pastoureau, que Sérgio Augusto vai buscar as explicações para a
relação dos tecidos listrados com o demo. "Negativas nos uniformes
dos campos de concentração nazistas e dos presidiários do cinema e dos
quadrinhos, as listras expandiram-se positivamente por outros corpos: de
crianças, banhistas, marujos e esportistas, seus mais benignos
usuários".
E
é mais essa marca positiva que o Botafogo carregaria, em sua história
gravada entre o céu e o inferno. As chances da sua redenção definitiva
estão nessa biografia. Se valer a observação de Vinícius de Moraes,
para quem o Botafogo "não se trata de uma paixão, mas de uma senha
para a cidadania", os torcedores alvinegros (e, de resto, o futebol
brasileiro) haverão de reconhecer esta singular contribuição.
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