Webjornal - Quinzenal  - Edição 63 - Aracaju,   29  de agosto a 12 de setembro  de 2004
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Artigo

O repórter e o ditador

Fim da Segunda Guerra Mundial. Getúlio Vargas é deposto e segue para São Borja.  Edmar Morel, dos Diários Associados, vai ao Rio Grande do Sul cobrir os primeiros dias de exílio do caudilho

Por Paulo Lima
                                                                                                                                     CPDOC/FGV
A cena foi testemunhada por Edmar Morel e está descrita em seu livro Histórias de um Repórter. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, chega ao Rio de Janeiro o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira que fora lutar na Itália contra o eixo nazi-fascista. Os militares  desfilam pela avenida Rio Branco. À frente deles, vêm os pracinhas. Mais de meio milhão de cariocas foi aplaudir os heróis de guerra. No final da marcha, em carro aberto, surge a figura diminuta de Getúlio Vargas. "A multidão vaiou estrondosamente o ditador responsável por anos de dura repressão que atingiu diversas camadas sociais", conta Morel.

Dentre outras medidas de repressão, Getúlio havia criado, durante os 15 anos do seu primeiro mandato,  a polícia especial, treinada por técnicos nazistas, e o famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável  pelo controle da imprensa durante o Estado Novo. A política getulista de caça aos opositores do regime abarrotou os presídios de Ilha Grande e Fernando de Noronha, e fez vítimas notórias, como a judia alemã Olga Benário, companheira do líder comunista Luis Carlos Prestes.   

Em 29 de outubro de 1945, Getúlio é deposto e segue para o exílio em São Borja, no Rio Grande do Sul.  Repórter dos Diários Associados, Edmar Morel é enviado por Assis Chateaubriand para cobrir aqueles primeiros dias de Vargas longe do poder.

"São Borja, uma das sete cidades missioneiras fundadas pelos jesuítas, à orla do Rio Uruguai, foi uma decepção", anotou Morel. "Ruas de barro batido, casas sujas  pela poeira vermelha, com dois hoteizinhos sem o mínimo conforto". O aspecto pouco aprazível da São Borja de então não foi, contudo, o detalhe mais importante observado pelo repórter. A cidade transpirava ilegalidade. "A gasolina era vendida no câmbio negro num posto ao lado da alfândega, onde era possível comprar pneus, revólveres e outros materiais contrabandeados. Não havia fiscalização. Todo mundo fazia comércio ilegal".

O encontro

Morel fretou um táxi e, ao lado do fotógrafo Lisboa Carrion, do jornal A Razão, de Santa Maria, seguiu para a fazenda Santos Reis, afastada 24 quilômetros da cidade. Não encontrou Getúlio. Era dia de finados e ele havia ido visitar o túmulo da família. Depois de esperar algum tempo, aparece um grupo de cinco cavaleiros, destacando-se o cavalo que era montado por Getúlio Vargas. Um dos cavaleiros que o acompanhava era Gregório Fortunato. "De compleição atlética, olhar vigilante, dir-se-ia um titã de bronze dando segurança ao seu senhor", assim o repórter descreveu o guarda-costas de Getúlio, acusado de planejar o atentado da Rua Tonelero que precipitou o fim da era Vargas.

Demonstrando enfado e cansaço, Getúlio pede notícias do Rio de Janeiro e faz críticas aos que o depuseram. De repente, voltando-se para o repórter: - Tu, quem és? -, pergunta.  "Pretendo ficar com o senhor, presidente, para acompanhar seus primeiros dias na fazenda. Sou repórter dos Diários Associados do Rio de Janeiro. Meu nome é Edmar Morel". Em seguida, Morel é hostilizado por Maneco, filho de Vargas, e por Gregório Fortunato. Seguiu-se uma rodada de chimarrão. O repórter foi ignorado.  

Morel procura o fotógrafo, que desaparecera. Gregório Fortunato se aproxima dele e pergunta: - Ainda estás aí?  "Retornei a São Borja no mesmo táxi", lembra Morel. "Voltava ao lugar onde Deus estava no céu e Getúlio na terra". 

Temendo novas hostilidades, distante 614 km de Porto Alegre, Edmar Morel resolve seguir num barco para São Tomé, localidade Argentina, do outro do rio, onde encontra a proteção de um coronel dos pampas.

Em Porto Alegre, Morel procura a sucursal gaúcha dos Diários Associados e prepara a matéria que enviará a Chateaubriand, no Rio de Janeiro. "O Diário de Notícias não poderia perder prato tão saboroso, e publicou a matéria na primeira página, em oito colunas". 

Apesar do esforço do repórter, a matéria não agradou a Chateaubriand. "Ele queria, sem dúvida, um relato de como vivia Vargas no seu confinamento - e para isso estava certo de que eu seria hóspede do ditador que governou o Brasil de 1930 a 1945".   

                         

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