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Artigo
A paus e pedras
Por
Paulo Lima
Os
mendigos atacados nas ruas de São Paulo, cidade que registrou o maior
número de casos até o momento, seguida de Belo Horizonte e - quem diria
- Sergipe, foram mortos a pauladas, facadas e pedradas, como cães
raivosos que precisam ser abatidos a qualquer custo. Se as razões para os
ataques são de natureza política, para desestabilizar a candidatura de
tal ou qual candidato, ainda não se sabe. Mas certamente revelam um lado
sombrio da sociedade: alguém, um grupo, sabe-se lá quem, parece
acreditar que pobreza se extingue a golpes de insanidade.
Carl
Jung referia que o lado sombra da personalidade humana - e todos o temos -
precisa ser assimilado, se quisermos gozar de alguma saúde psíquica;
não se pode fingir que não está ali e simplesmente elidi-lo. Existimos
como um todo, com virtudes e defeitos, com penumbras e lampejos mais ou
menos fugazes.
A
sombra dos mendigos - ou moradores de rua, no eufemismo criado pela mídia
- expõe as fraturas abertas de uma das sociedades mais injustas do
planeta, com ilhas de excelência primeiro-mundista e cenários
pós-modernos, de um lado, e bolsões profundos de miséria extrema,
de outro, muitas vezes convivendo numa mesma rua, e até num mesmo
prédio; ou os porteiros e serviçais dos edifícios das classes altas
gozam das mesmas regalias dos seus patrões? Ou seja, é a famosa luta de
classes - ou será este mais um conceito abolido pelas maquinações do
neoliberalismo e pela força unificadora do consumo?
Fingimos
que o drama da pobreza e do mendigo largado na sarjeta não é conosco,
trata-se de uma outra realidade, bem distante dos nossos olhares
suficientemente domesticados pelos apelos da publicidade, que nos oferece
mundos perfeitos, assépticos - e inalcançáveis.
Como
os nazistas
Algo
similar se passava na Alemanha nazista. As pessoas fingiam que não
percebiam o que ocorria com os judeus, eleitos párias sociais de uma hora
para outra. Morriam aos montes, como moscas - mas isso não dizia respeito
à sociedade ariana e imaculada de então.
A
maneira como convivemos mal com nossas nódoas parece ter merecido a
tradução definitiva na frase de Washington Luiz, proferida em 1930. Para
aquele governante, a questão social era um caso de polícia.
Era
um caso de polícia, mas agora é questão para serial killer,
embora o precedente já tenha sido criado, nesta e em gerações passadas.
Nesta geração: César Maia propôs remover as favelas do Rio de Janeiro,
extirpá-las como quem extirpa um câncer. Em gerações passadas: nos
anos 60, o então governador do ex-estado da Guanabara, Carlos Lacerda, propunha o mesmo
- e radicalizou; a ele atribui-se a determinação de mandar afogar mendigos no rio Guandú, numa
forma de limpar a paisagem da Cidade Maravilhosa.
O
filósofo pacifista Bertrand Russel considerava que a pobreza era o maior
flagelo da humanidade. E ela, a pobreza, está cada vez mais
disseminada, mais presente em toda a parte, seja em sociedades afluentes,
seja em sociedades emergentes. Mendigos podem ser vistos em toda a parte, em
cenários tão distintos como Calcutá, Manhattan, Berlim ou Paris.
Mas não será a
pauladas e pedradas, negando esse lado sombra das nossas imperfeições,
que se acabará com os pobres. Seria
como dar um tiro em nós mesmos, no intuito de pôr fim às nossas veredas
mais sombrias.
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