Webjornal - Quinzenal  - Edição 65 - Aracaju,   26  de setembro a 10 de outubro  de 2004
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Artigo

Dois mundos

Por Paulo Lima

O cenário de diáspora irremediável vivido entre as zonas norte e sul do Rio de Janeiro, para ficar num exemplo constantemente repisado pela mídia,  não é primazia da Cidade Maravilhosa. Cada capital brasileira, em grau menor ou maior, é forçada hoje a lidar com polarizações dramáticas. 

Talvez a cisma seja parte mesma da natureza do nosso processo  histórico. Somos muitos brasis dentro de um só Brasil, distorção que teria origem, segundo a historiografia oficial, no processo de ocupação do nosso território, através da repartição generosa de sesmarias entre os apaniguados da corte portuguesa.

Mas o curioso é quando a diáspora social, uma marca também irremovível de outras sociedades com distinta formação histórica,  tem a sua chance de reparação - e há uma falha. Berlim, 1961. A poderosa Alemanha é alvo de um processo artificial, posto que político, de separação.

De um lado ficaram os ocidentais, capitalistas, supostos vencedores da marcha da História; e, do outro, os orientais, comunistas, com o desafio de conduzir a inoperante "roda quadrada", que é como ficou conhecida a economia do estado socialista . O chamado "muro da vergonha", de um instante para outro, separou famílias, amigos, culturas. 

Juntos, porém separados

Mas a história que desagrega é a mesma que une e junta outra vez. Berlim, 1990. Veio a  reunificação, que fez ruir o muro em uma data memorável para os alemães, para a democracia e para a história. Assim foi vendido para a posteridade o significado do reencontro entre os primos pobres e os primos ricos.  

No entanto, quinze anos depois, como anda a convivência entre as duas Alemanhas? Vai de mal a  pior. Segundo a revista The Economist, edição de 16/09, no artigo intitulado Getting back together is so hard (algo como "É difícil viver juntos outra vez"),  passado todo esse tempo, continuam existindo duas Alemanhas.  

Segundo a revista, a divisão voltou a ser mencionada esta semana pelo presidente da Alemanha, Horst Köhler, ao afirmar que os alemães devem aceitar a desigualdade entre as regiões, já que o país não pode mais garantir condições de vida comparáveis para todas elas.

Claro que exceções são mencionadas. É o caso da região de Dresden, antiga Alemanha Oriental, que, graças a muitos investimentos em alta tecnologia, atraídos por subsídios do governo, passou a se auto-intitular a "Saxônia do silício". 

Mesmas mentalidades

Embora o ex-lado oriental se expanda a taxas maiores do que a parte correspondente à ex-Alemanha Ocidental, esse crescimento é ainda estimulado por  transferências (estímulos) governamentais. Faltam a muitas firmas capital adequado, que investem em produtos em atividades de baixo valor ou produzem unicamente para o mercado local. Para piorar, o desemprego se deteve em 18,5%, duas vezes mais do que as taxas do que seria o lado ocidental. 

As raízes do não-crescimento esperado do primo pobre comunista tem algumas explicações, segundo The Economist. "Muitos dos problemas da Alemanha Oriental surgiram da decisão política de caminhar rapidamente para a reunificação, em 1990". Prossegue o artigo: "Empresas da Alemanha Oriental, cuja produtividade era abaixo do que esperava, teve muito pouco tempo para se adaptar".  Parte da acusação recai também no processo de privatização implantado após a reunificação, que permitiu ao primo capitalista comprar e fechar concorrentes.    

Um sinal de que as antigas mentalidades ainda permanecem nos cidadãos das duas Alemanhas, está presente em pesquisa realizada pelo Instituto Allensbach. Para muitos alemães orientais, liberdade é mais importante do que igualdade, num percentual de 49% (aquela) contra 35% (esta). Para os alemães do ocidente, é a igualdade que representa um percentual maior: 51% contra 36% conferidos à igualdade. Outra votação sugere que os alemães orientais ainda se sentem cidadãos de segunda-classe.

Os reveses do processo mereceu a seguinte tirada irônica de Wolfgang Nowak, um ex-ministro da Saxônia: "Poderíamos ser o primeiro país que, ao se unificar, criou dois povos". Algo muito distante, portanto, das promessas vagas que Helmut Kohl, ex-chanceler alemão,  espalhou ao vento no ato da reunificação, ao prometer "paisagens florescentes" para a pátria reunificada. 

                         

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