|
Artigo
Dois mundos
Por
Paulo Lima

O
cenário de diáspora irremediável vivido entre as zonas norte e sul do
Rio de Janeiro, para ficar num exemplo constantemente repisado pela
mídia, não é primazia da Cidade Maravilhosa. Cada capital
brasileira, em grau menor ou maior, é forçada hoje a lidar com
polarizações dramáticas.
Talvez
a cisma seja parte mesma da natureza do nosso processo histórico.
Somos muitos brasis dentro de um só Brasil, distorção que teria origem,
segundo a historiografia oficial, no processo de ocupação do nosso
território, através da repartição generosa de sesmarias entre os
apaniguados da corte portuguesa.
Mas
o curioso é quando a diáspora social, uma marca também irremovível de
outras sociedades com distinta formação histórica, tem a sua
chance de reparação - e há uma falha. Berlim, 1961. A poderosa Alemanha
é alvo de um processo artificial, posto que político, de separação.
De
um lado ficaram os ocidentais, capitalistas, supostos vencedores da marcha
da História; e, do outro, os orientais, comunistas, com o desafio de
conduzir a inoperante "roda quadrada", que é como ficou
conhecida a economia do estado socialista . O chamado "muro da
vergonha", de um instante para outro, separou famílias, amigos,
culturas.
Juntos,
porém separados
Mas
a história que desagrega é a mesma que une e junta outra vez. Berlim,
1990. Veio a reunificação, que fez ruir o muro em uma data
memorável para os alemães, para a democracia e para a história. Assim
foi vendido para a posteridade o significado do reencontro entre os primos
pobres e os primos ricos.
No
entanto, quinze anos depois, como anda a convivência entre as duas
Alemanhas? Vai de mal a pior. Segundo a revista The Economist,
edição de 16/09, no artigo intitulado Getting back together is so
hard (algo como "É difícil viver juntos outra vez"),
passado todo esse tempo, continuam existindo duas Alemanhas.
Segundo a revista, a divisão voltou a ser mencionada esta semana pelo
presidente da Alemanha, Horst Köhler, ao afirmar que os alemães devem
aceitar a desigualdade entre as regiões, já que o país não pode mais
garantir condições de vida comparáveis para todas elas.
Claro
que exceções são mencionadas. É o caso da região de Dresden, antiga
Alemanha Oriental, que, graças a muitos investimentos em alta tecnologia,
atraídos por subsídios do governo, passou a se auto-intitular a
"Saxônia do silício".
Mesmas
mentalidades
Embora
o ex-lado oriental se expanda a taxas maiores do que a parte
correspondente à ex-Alemanha Ocidental, esse crescimento é ainda
estimulado por transferências (estímulos) governamentais. Faltam a
muitas firmas capital adequado, que investem em produtos em atividades de
baixo valor ou produzem unicamente para o mercado local. Para piorar, o desemprego se deteve em 18,5%, duas vezes mais do que as
taxas do que seria o lado ocidental.
As
raízes do não-crescimento esperado do primo pobre comunista tem algumas
explicações, segundo The Economist. "Muitos dos problemas da
Alemanha Oriental surgiram da decisão política de caminhar rapidamente
para a reunificação, em 1990". Prossegue o artigo: "Empresas
da Alemanha Oriental, cuja produtividade era abaixo do que esperava, teve
muito pouco tempo para se adaptar". Parte da acusação recai
também no processo de privatização implantado após a reunificação,
que permitiu ao primo capitalista comprar e fechar concorrentes.
Um
sinal de que as antigas mentalidades ainda permanecem nos cidadãos das
duas Alemanhas, está presente em pesquisa realizada pelo Instituto
Allensbach. Para
muitos alemães orientais, liberdade é mais importante do que igualdade,
num percentual de 49% (aquela) contra 35% (esta). Para os alemães do
ocidente, é a igualdade que representa um percentual maior: 51% contra
36% conferidos à igualdade. Outra
votação sugere que os alemães orientais ainda se sentem cidadãos de
segunda-classe.
Os
reveses do processo mereceu a seguinte tirada irônica de Wolfgang
Nowak, um ex-ministro da Saxônia: "Poderíamos ser o primeiro país que, ao se unificar, criou dois
povos". Algo muito distante, portanto, das promessas vagas que Helmut
Kohl, ex-chanceler alemão, espalhou ao vento no ato da
reunificação, ao prometer "paisagens florescentes" para a
pátria reunificada.
|