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Artigo
Jornalista e
cidadão: faces da mesma
moeda
Por
Paulo Lima
O debate em torno da
ética jornalística tem por hábito situar o jornalista numa espécie de
Olimpo, onde ele permanece como integrante de uma casta privilegiada. Não
somente o próprio jornalista se autoproclama um intocável, como lança
para a opinião pública tal imagem. Na prática, não deveria haver esse
muro demarcando os limites entre o jornalista e o interesse público. A ética
jornalística é a ética do cidadão. E o jornalista tem que ter em mente
que a informação é um direito fundamental da sociedade. O jornalista
tem ainda que se ater a um fato crucial: a autocensura, como forma de
ocultar informações que caberia divulgar junto à opinião pública.
1. Introdução
Os pecados atribuídos
aos jornalistas são inumeráveis. Por lidar com uma matéria prima
cambiante, como a informação, que a rigor deveria ser um direito de toda
a sociedade, o jornalista se vê na maioria das vezes emparedado entre os
interesses de empresa e os interesses de imprensa. A diferença entre um e
outro é colossal.
Os interesses de
imprensa estão diretamente relacionados com a qualidade da informação e
sua verossimilhança. Um fato é tão mais verdadeiro se aprofunda um dado
crítico da realidade, tanto mais confiável se expõe as veias abertas de
uma dada sociedade.
Mas essa busca pela
verdade objetiva esbarra, na maioria das vezes, nos interesses de empresa.
O hiato é profundo e trágico. E advém desse conflito entre um e outro
tipo de interesse uma boa parte dos dilemas éticos vivenciados pelos
jornalistas em suas lides cotidianas. Atender ao patrão ou o que a
realidade revela como fruto da apuração jornalística? Este parece ser o
questionamento mais constante na prática dos jornalistas.
Mas é aí que entra
o maior desafio e a necessidade de desmistificar o problema da ética
jornalística. O jornalista, antes de ser jornalista, é um cidadão. A
sua ética não deve prevalecer sobre a ética do cidadão. Não existem
duas éticas, assim como não existem dois pesos e duas medidas.
2. O jornalista e
o cidadão
Essa aproximação
entre o papel do cidadão e o papel do jornalista em sociedade é
fundamental para que se compreenda e desmistifique a questão da ética no
jornalismo. Por que? Simplesmente pelo fato de que o jornalista não
deveria aceitar algumas situações que não aceitaria enquanto cidadão.
Ou seja, o jornalista não tem uma ética própria. Trata-se de um mito.
Aquilo que o afeta, como jornalista, deve afetá-lo, antes de mais nada,
como cidadão. O sentir-se cidadão deveria funcionar como termômetro
para suas ações e seus julgamentos.
O mito que atribui
ao olhar do jornalista um dispositivo de objetividade é uma falácia.
Posturas de jornalistas experientes como Cláudio Abramo esclarecem melhor
esse falso princípio:
O
jornalista não pode ser despido de opinião pública. A posição que
considera o jornalista um ser separado da humanidade é uma bobagem. A própria
objetividade é mal-administrada, porque se mistura com a necessidade de não
se envolver. (Abramo, 2002, p.109)
Portanto, a ética
no jornalismo começa onde tem início a ética do cidadão. Ou seja, a
resolução da questão ética depende também do que o jornalista
considera como seu dever de cidadão. O estabelecimento dessa semelhança
desmistifica algumas posições tão comuns aos jornalistas. Em primeiro
lugar, a noção de impunidade. O cidadão não deixará de ir para a
cadeia, caso venha a cometer um crime. A mesma regra se aplica ao
jornalista.
Então, para manter
uma postura ética, a despeito das pressões que venha a sofrer da empresa
onde trabalha (e elas variam de uma para outra), o jornalista deve manter
a consciência de que o seu limite é o limite do cidadão. Se um
governante aumenta injustamente a carga de tributos, o jornalista deve
apurar e noticiar a informação com o mesmo nível de abnegação e
indignação que um cidadão teria, perguntando-se: em que essa mudança
me afetará enquanto cidadão, consumidor e contribuinte?
O jornalista não é
um Clark Kent, ele não está imbuído de uma missão especial, de uma
cruzada:
O
papel do jornalista é o de qualquer cidadão patriota, isto é, defender
o seu povo, defender certas posições, contar as coisas como elas ocorrem
com o mínimo de preconceito pessoal ou ideológico, sem ter preconceito
de não ter preconceitos. O jornalista deve ser aquele que conta a
terceiros, de maneira inteligível, o que acabou de ver e ouvir. (Abramo,
2002, p.110)
3. O direito à
informação
Essa transparência
defendida por Cláudio Abramo remete a uma questão mais ampla. O
jornalista, em seu exercício ético cotidiano, não pode perder de vista
que a informação é um direito fundamental da sociedade, embora não
possamos esquecer que a imprensa transformou-se numa empresa que gera
lucros e fortunas. Mas é preciso saber que o mercado é uma conseqüência
e não a própria razão de ser da imprensa:
Jornais,
revistas, emissoras de rádio e televisão dedicados ao jornalismo, assim
como os sites informativos na internet, nada disso deve existir com a
simples finalidade de gerar empregos, fortunas e erguer impérios de mídia;
devem existir porque os cidadãos têm o direito à informação. (Bucci,
2000, p.33)
As deformações da
imprensa brasileira, e da mídia em geral, são menos um atributo do
jornalista e mais das empresas jornalísticas.
Os
piores problemas da imprensa brasileira são problemas construídos no
interior das empresas de comunicação por forças e interesses que
ultrapassam os domínios de uma redação e nada têm a ver com interesses
legítimos de seus telespectadores, leitores, ouvintes. (Bucci, 2000,
p.32)
E, deve-se
acrescentar, nada teriam a ver com os interesses legítimos dos
jornalistas. Esse julgamento subordina, uma vez mais, a ética jornalística
aos interesses da sociedade e do cidadão:
Discutir
ética na imprensa só faz sentido se significar pôr em questão os padrões
de convivência entre as pessoas, individualmente, e de toda a sociedade
no que se refere ao trato com a informação de interesse público e com a
notícia. (Bucci, 2000, p.32)
Vale dizer, só faz
sentido se a esse objetivo estiverem subordinados não somente os
jornalistas, mas também os seus patrões e as corporações em que
funcionam os veículos de comunicação.
4. Os riscos da
autocensura
Há que se abordar
ainda um tema muito pertinente no tocante à atuação jornalística que o
afastaria dos caminhos da ética, vale dizer, da defesa da informação
enquanto direito inalienável do cidadão. Trata-se da questão da
autocensura do jornalista, tanto ou mais grave do que a censura imposta
pelo patrão ou por deontologias ou códigos. Isso ocorre quando o
jornalista, de posse de uma informação de interesse público, acabada
encarando essa informação como de caráter privado.
Tome-se como exemplo
o episódio envolvendo o jornalista Carlos Monforte, da Rede Globo, e o
ex-ministro Rubens Ricúpero. Enquanto se preparava para gravar uma
entrevista, Rubens Ricupero afirmou que trabalhava para favorecer o então
candidato à presidente, Fernando Henrique.
Indiferentes ao fato
de que os microfones estavam abertos, jornalista e ministro conversavam. A
conversa foi captada por antenas parabólicas. O incidente, como se sabe,
levou à demissão do ex-ministro.
Se o episódio lançou
olhares de desconfiança para a máquina do Estado, acabou por revelar,
contudo, um fato mais grave:
Mas
existe uma outra leitura do incidente das antenas parabólicas. A de que
se tratou, acima de tudo, de um escândalo jornalístico. (...) O
jornalista Carlos Monforte atribuiu caráter privado a informações de
interesse público, sem usá-las em sua entrevista e fez da matéria que
se seguiu um mero simulacro. (Kucinski, 1998, p. 50)
Tivesse o jornalista
imbuído de uma postura cidadã, teria interpelado o Rubens Ricúpero com
mais veemência. Mas o que houve foi o contrário, e a conversa talvez
jamais tivesse se tornado de conhecimento do público, não fosse por uma
falha técnica.
O que de mais grave
advém desse episódio é que Carlos Monforte não foi questionado pelos
colegas jornalistas, sinal de que os mecanismo de autocontrole estão bem
amalgamados na categoria, como se fosse parte do ethos dos
jornalistas brasileiros. Grave? Gravíssimo! Mas não elide o fato de que
trata-se aí de um desvio de conduta, que deve ser combatido pelos
jornalistas em nome da ética.
5. Conclusão
Se a ética no
jornalismo está sujeita a pontos de vista diferentes, ao sabor das
circunstâncias e dos seus personagens, que ao menos não se perca de
vista esses dois parâmetros mais basilares: o fato de que, numa moderna
democracia, são os direitos do cidadão que pairam acima de tudo o mais;
e que um desses direitos é, sem dúvida, a informação.
Que também não se
perca de vista que o jornalista é, antes de mais nada, um cidadão. Essa
premissa pode assegurar ao jornalista o fio condutor da ética de que ele
tanto necessita para sobreviver ao contraditório que a realidade lhe
oferece, a todo o momento.
Se não é a salvação,
pode funcionar como uma espécie de bússola; se não o protege dos equívocos
a que ele está sujeito, como todo mortal, pode injetar-lhe consciência
crítica, indispensável à atividade jornalística.
A censura imposta
pelas empresas de comunicação e pelo poder, ou, o que é mais grave,
auto-imposta, como ilustrada no episódio das antenas parabólicas que
ocasionou a demissão do ex-ministro Rubens Ricupero, é na verdade um
desvio de conduta que deveria privilegiar, antes de mais nada, o interesse
público – vale dizer – o conjunto da sociedade.
Estes três pontos
– o sentir-se cidadão antes de ser jornalista, a consciência de que a
informação é um direito da sociedade, e a necessidade de combater os
pecados da auto-censura – funcionam como paradigmas a serem observados
pelos jornalistas, como caminho para o estabelecimento de princípios éticos
no jornalismo.
Bibliografia citada:
Abramo, Cláudio. A
regra do jogo. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.
Bucci, Eugênio. Sobre
ética e imprensa. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
Kucinski, Bernardo. A síndrome da antena
parabólica – ética no jornalismo brasileiro. São Paulo, Editora
Fundação Perseu Abramo, 1996.
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